Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > ENTREVISTA / ZYGMUNT BAUMAN

Comunicação líquida

Por Nara Almeida em 27/01/2015 na edição 835
Reproduzido da revista Comunicação Empresarial nº 93, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), 4º trimestre/2014

O polonês Zygmunt Bauman é hoje um dos mais celebrados pensadores sociais. Seu olhar atento e seu fértil interesse em um mundo sob constantes mudanças são representados na metáfora da modernidade líquida, que explica as relações e a fluidez contemporâneas causadas pela globalização. Hoje professor emérito das universidades de Leeds (Inglaterra) e Varsóvia (Polônia), o sociólogo enfrentou a censura em seu país na década de 1960, quando teve proibidas suas obras e foi afastado da universidade, emigrando para países como Canadá, Estados Unidos e Austrália, antes de estabelecer-se na Grã-Bretanha.

Consagrado com os prêmios Amalfi e Adorno, o intelectual tem 33 obras publicadas no Brasil desde 1998, todas pela Editora Zahar – que lança em janeiro sua mais recente obra, Para que serve a sociologia?. Seus títulos tratam da fluidez do amor, do medo, da vigilância, do tempo, refletindo uma sociedade que se transmuta em uma velocidade muito superior à qual se questiona.

Uma semana após completar 89 anos, Bauman abriu as portas da casa em que vive há quase cinquenta, carregando o icônico cachimbo frente aos 2oC do outono de Leeds. A sala de leitura apinhada de livros, fotografias e poltronas revela a personalidade do senhor conversador, que evoca livros como velhos amigos e memórias como anedotas. Ao redor de uma mesa de iguarias preparadas pessoalmente, desencadearam-se quase duas horas de uma prosa amigável sobre como vai o mundo, sem indicar que se tratava de uma entrevista, agendada ao longo de dois meses. Dedicadamente atento ao que acontece no Brasil, Bauman ponderou o contexto contemporâneo da sociedade de consumo, da democracia, as relações de poder e interdependência e os desafios cotidianos. Sorridente e otimista, embora crítico, defendeu ao longo da entrevista exclusiva o desenvolvimento de competências para a interação social, cruciais para uma civilização que enfrenta uma “cultura agorista”, enclausurando-se em fuga da diversidade, e fragmentando sua existência ao substituir habilidades por mercadorias que as tornam obsoletas.

Sereno e preciso, Bauman oferece aos profissionais de comunicação uma perspectiva crítica da atualidade e reflexões positivas sobre a construção de um futuro menos hostil, orientadores para um mundo de mudanças que não se anunciam, senão sobrepõem-se.

O papel do tempo

Eu não acredito em autobiografias. Porque, provavelmente, em algum momento da sua vida você vai se sentir impelido a reescrever a sua história e se verá tentado a preencher as lacunas em sua memória.

A memória não é um bom guia para seguir porque cada memória é seletiva. Não há dúvidas de que não podemos lembrar de tudo, nossos cérebros não são feitos para isso, apesar de termos agora a computação em nuvem e, com isso, podermos guardar as nossas memórias em outro lugar, distante, sem mantê-las em nossos cérebros. No entanto, há uma abundância de espaços em branco que você tem que preencher para dar sentido aos eventos, e você os preenche pela imaginação. Assim, o que se diz pode ser verdade, mas talvez não. Talvez houvesse uma tal relação causal entre o evento A e o evento B, mas apenas eventualmente.

Tenho tido uma vida incrivelmente longa. Atravessei uma enorme quantidade de mudanças, o que se poderia chamar de “a conversa mais antiga da cidade”. Ou, em uma linguagem mais politicamente correta, poderíamos chamar de uma “mudança de modas” – a moda, quando eu era jovem, mudava a cada dez anos, agora muda a cada dez dias; apenas isso já é uma diferença. Além disso, diferentes regimes, diferentes programas políticos, todos os tipos de coisas. Por isso, estou dolorosamente consciente, em primeiro lugar, do papel do tempo na vida individual. Não só na história, mas na vida individual, na biografia. Mas, também, do transitório e temporário caráter da realidade.

Václav Havel, um homem tcheco muito corajoso, passou anos e anos de sua vida em prisões políticas, e a outra parte em palácios presidenciais. Conheceu, portanto, a política por dentro e por fora. Para resumir sua experiência, ele disse que, a fim de influenciar o futuro, você precisa saber quais músicas a nação está disposta a cantar. Mas, imediatamente em seguida, ele acrescentou que a grande questão é que não há maneira de prever que tipo de músicas a nação estará disposta a cantar no próximo ano.

Eu acho que faz sentido, que é de fato o que está acontecendo. Nós estamos vivendo uma vida fragmentada; um dos meus livros se chama Vida em fragmentos. Fragmentos são período de tempo com um começo e um fim, de modo que um fragmento pode ser separado do outro. O que é uma ilusão, claro, porque não funciona assim. Mas tornou-se nossa política de vida: terminar algo e começar uma coisa diferente.

Interdependência global

Dentro de suas próprias fronteiras, cada país deveria ser capaz de arcar com as suas contas, de ser autossuficiente. Militar, econômica e culturalmente, eram requisitos muito elevados. É preciso ser grande, rico em recursos, ser capaz de fortalecer a estrutura e a economia nacional, assegurar a sobrevivência social, biológica e legal, e afirmar a independência cultural. O que significa fornecer todos os parâmetros de vida, todos os valores necessários para o funcionamento de uma sociedade. Sem esses elementos, qualquer país, mesmo um país grande como o Brasil ou os Estados Unidos da América, não poderia reivindicar a autossuficiência real.

A questão da cultura nacional hoje é muito mais a questão sobre como estamos conectados com todo o resto do planeta. Você pode chegar à Nova Zelândia ou a Leeds com a mesma facilidade com que pode alcançar seu vizinho de porta, em São Paulo. Demora menos tempo ainda porque, antes, tínhamos que ir a algum lugar para encontrar nosso vizinho. Mas agora não temos que ir a qualquer lugar. Em um segundo, ao toque de uma tecla, encontra-se alguém. Enviar um tweet, receber um tweet, responder a um tweet, tudo leva apenas alguns segundos. De fato, pertencemos todos à circulação de grupos culturais ao redor do mundo. O mesmo se aplica, por exemplo, às questões militares. Mesmo os Estados Unidos da América chegaram à conclusão de que eles não podem se defender sozinhos, eles precisam de alianças, precisam de aliados. E, finalmente, a economia. Sem a importação e a exportação de produtos, você será muito pobre. Além da Coreia do Norte e Cuba – em parte, não pela sua própria escolha – não há outros países que ainda sonham ser autossuficientes dentro dos seus próprios limites econômicos.

Com isso, os testes nos quais um grupo de pessoas deve passar com sucesso para ser reconhecido como uma entidade política independente foram reduzidos. Você não precisa ser realmente poderoso, rico e muito criativo culturalmente para merecer ser reconhecido como um país independente. Pessoas da Lombardia, catalães, escoceses ou mesmo brasileiros reivindicam a independência de Brasília, de Roma, de Londres, de Madri, perguntando- -se por que eles deveriam ter este mediador, este intermediário. Tendências separatistas são um fenômeno geral hoje em dia e são um produto da globalização. Estamos todos sujeitos a este mesmo processo. A nossa interdependência já é global e, portanto, as subdivisões são negociáveis. Não é um veredicto da natureza, ou da história, é apenas um acordo. E todo acordo é, por definição, renegociável.

Democracia no Brasil

Bem, se você quer saber a minha avaliação pessoal, o meu ponto de vista, eu sou cheio de admiração pelo tanto que tem sido feito nos últimos anos no Brasil. Um exemplo: a guerra declarada contra a pobreza. O salto para uma maior igualdade, permitindo que mais pessoas assumissem verdadeiramente um papel genuíno na vida política do País. Isso é um exemplo para todo o mundo e eu acho que o Brasil foi muito bem-sucedido na implementação deste plano. O País tirou milhões de pessoas da pobreza real e elas se sentem confiantes agora. Elas estão vigorosas, corajosas e se sentem capazes o suficiente para realmente serem uma força política em seu país. Eu sinto que os programas de melhoria social e para trazer mais igualdade realmente funcionaram.

Assim, é de se esperar o mesmo impulso pós-prosperidade, pós-social, a mesma reação da sociedade que aconteceu aqui na Europa. Ou, por exemplo, depois do Presidente [Lyndon Baines] Johnson, na América, que declarou guerra contra a pobreza após o New Deal de Franklin Delano Roosevelt. Aquelas pessoas que, de outro modo, ainda estariam na parte inferior da sociedade – desabilitados, efetivamente fora de ação, privados de educação, tolhidos de competências e incapazes de subir na hierarquia social –, essas pessoas tornaram-se médicos, advogados, professores universitários. E a reação normal é que os indivíduos que ascenderam porque foram ajudados por decretos, por leis, pelos subsídios especiais não querem ser lembradas do fato de que foi por causa da assistência que chegaram aonde chegaram. Eles querem ver a si mesmos como self-made, repetindo “foi o meu trabalho árduo que criou isso”.

Essas pessoas ficam tentadas por uma espécie de ideologia, algo como “se eu pude chegar aqui, por que os do norte não o fazem com seu trabalho duro? Eles são preguiçosos demais”. Há cerca de vinte anos, nos Estados Unidos, havia algo chamado ação afirmativa. As universidades foram instruídas a dar pontos extras para as pessoas que vinham de áreas carentes, partes até então desfavorecidas da sociedade. Essas pessoas deveriam ser admitidas mesmo que não passassem nos exames. Graças a isso, os Estados Unidos têm centenas de milhares de políticos de pele negra, advogados, membros do governo, senadores e assim por diante. Eles não conseguiriam isso se não fosse pela ação afirmativa. Mas esses indivíduos que foram os primeiros a se beneficiar dela foram também os primeiros a exigir que a mesma fosse abolida.

Eles já subiram a escada e agora querem chutá-la para longe, deixando que as outras pessoas usem suas próprias pernas, em vez de ter uma escada. Infelizmente, com certa regularidade, isso é o que acontece. E essa é uma das razões – não a única – pelas quais esses tipos de programas sociais que ajudam as pessoas a saírem de sua miséria não são populares hoje em dia. Mesmo as pessoas que deviam estar interessadas, a partir de suas próprias experiências, em manter vivas essas políticas são, ao contrário, suas detratoras, não acreditam que seja a coisa certa a fazer. Eu acho que a democracia no Brasil passou por um teste muito difícil, não somente na questão de eleger o seu presidente de tempos em tempos. Democracia é sobre habilitar os cidadãos a exercerem a cidadania de fato, não apenas pela lei. Somos todos cidadãos por decreto, porque temos documentos, mas isso não significa que todos sejamos capazes de nos envolver nas atividades em que os cidadãos devem ser envolvidos. É sobre habilitar as pessoas a participarem da condução dos assuntos do Estado. Assim, democracia é sobre cuidar não só da opinião da maioria, mas também ajudar as minorias a terem suas vozes ouvidas. Ter algo a dizer, em primeiro lugar, e tornar-se interessante de ser envolvido, ser engajado. Se avaliarmos não pelo número de eleições, mas pelo efeito sobre quantos reais cidadãos verdadeiramente existem agora no Brasil – em comparação com, digamos, 1970 –, se usarmos essa métrica, veremos que é uma das melhores democracias do mundo.

Desafios democráticos

Eu acho que o Brasil é um país grande o suficiente a ponto de sentir o divórcio entre o poder e o Estado menos intensamente que os países menores. Os governos destes ficam realmente em apuros porque, mesmo que sejam bem intencionados, incorruptíveis e realmente queiram servir seu país, enfrentam dificuldades. Se eles seguirem a vontade de seus eleitores, ignorando a vontade da Bolsa de Valores e dos investidores estrangeiros, estarão em apuros. Esses governos não ajudarão a sua nação, o capital vai fugir e o único efeito que se conseguirá será o aumento do desemprego e a redução dos padrões de vida.

Os governos, em todos os lugares, têm um duplo vínculo, como eles chamam. De um lado, eles são eleitos democraticamente e têm que escutar atentamente o que seu país quer e precisa ou, pelo menos, tentar atender suas demandas. Por outro lado, há forças que são realmente decisivas para o padrão de vida e para a perspectiva de seus filhos, netos e dos bisnetos que ainda nem nasceram. Eles já estão decidindo sobre suas perspectivas. Tais forças são completamente incontroláveis por parte dos governos nacionais. No mundo contemporâneo, há uma livre circulação de capitais de investimento, de capital financeiro, do tráfico de armas, de drogas, ignorando as fronteiras nacionais. Todas as tentativas de controlar essa circulação, se alguma vez foram adotadas, falharam e ainda estão falhando. Portanto, é uma faca de dois gumes: duas forças independentes, com propósitos contraditórios e o governo está no meio.

O Brasil, como eu disse, pertence junto com a Índia, a China e a África do Sul, ao grupo de países que são ricos o bastante em recursos e suficientemente grandes e populosos para resistirem um pouco mais a essa pressão. Até certo ponto; não totalmente. Nem mesmo a China é completamente independente das pressões globais e tem que levá-las em conta – e tem quase 2 bilhões de pessoas lá. O Brasil está em uma posição um pouco melhor. A única coisa que o governo pode fazer é manobrar para encontrar o caminho menos perigoso entre os riscos. Mas o risco está lá, o tempo todo.

Classe média

Há dois fenômenos diferentes: a classe média, de um lado, e os consumidores, de outro. Quando falamos classe média, ainda estamos, por inércia, lembrando da classe média clássica que se estabeleceu após a Revolução Francesa, por ter adquirido uma grande quantidade de energia, autoconfiança e coragem. Eles realmente se sentiam em casa no país, na política e assim por diante. Não eram, necessariamente, os consumidores. Max Weber escreveu um livro sobre ética protestante e o capitalismo moderno, no qual conta que a classe média realmente fez o que fez e se tornou uma parte tremendamente rica e poderosa da sociedade porque seus membros consideravam o consumo como um mal necessário: você tem que comer para ter energia para trabalhar, aprender e viver. Mas o desperdício é um pecado. Isso era simples. A ética protestante considerava um pecado mortal qualquer ostentação, qualquer gasto em coisas que não são essenciais para a sobrevivência. Você só precisa do tanto necessário para ser capaz de trabalhar mais. Do contrário, está pagando tributo ao diabo e não seguindo o mandamento divino. Isso foi o que fez da classe média uma força tão poderosa na sociedade.

A característica que define essa classe média é a autoconfiança. Eram pessoas que realmente acreditavam em sua própria capacidade de agir e a colocavam à prova diariamente. O que emerge agora, infelizmente, nas condições da crônica e incurável incerteza do mundo, é o sentimento geral de insegurança, a falta de bases sólidas sob os pés e, também, o sentimento de um tipo de impotência. Mesmo que eu não seja ignorante sobre o que o dia seguinte trará, mesmo assim, eu não seria capaz de evitar que um desastre aconteça. Há uma atmosfera geral na qual estamos sendo constantemente tomados por surpresas desagradáveis, que nos pegam despreparados. E nos sentimos muito desconfortáveis por simplesmente não estarmos à altura da tarefa. Agora, sob essas condições, as antigas classes médias estão caindo aos pedaços, elas estão perdendo seu caráter na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo. E, mesmo durante a recuperação pós-crise no País, a renda da classe média americana continua a cair. Os benefícios da recuperação são tomados por 1% das pessoas mais ricas dos Estados Unidos. Todo o resto da classe média, ou quase todo ele, não vive sob autoconfiança, mas, pelo contrário, sob o medo de perderem seus empregos, suas posições, suas casas.

Guy Standing, um sociólogo político muito sábio, deu um novo nome para a classe média: “precariado”. Em francês, há o termo precaritèe, que significa incerteza, vulnerabilidade, não saber o que está acontecendo, pender entre a ascensão e queda o tempo todo. Precariado é uma mudança a partir da palavra proletariado. O que resta do antigo operário e crescente parte do que resta da classe média tradicional vive a incerteza do futuro e a sensação de que eles podem fazer muito pouco. A ideia de um engraxate se tornar, pelo trabalho duro e luta, um milionário é o conto de fadas, não funciona mais, são milagres. Há muitos e muitos anos, todos nós acreditávamos na chamada meritocracia. O que significa que nem todas as pessoas são iguais – isso é impossível, é inalcançável –, mas quem quer que esteja indevidamente abaixo na hierarquia social pode, estudando muito e trabalhando penosamente, tirar a si mesmo da miséria e prosperar, conseguir uma promoção e assim por diante. Não é mais o caso. Na Espanha, por exemplo, 50% dos graduados nas universidades estão desempregados, ainda à procura de emprego e não o encontram. Talvez seja um caso extremo, mas em toda a Europa temos o mesmo fenômeno, as pessoas que acreditaram nessa história de meritocracia realmente se esforçaram, foram para as universidades, trabalharam duramente, por vezes utilizando o crédito acima das suas possibilidades. E essas pessoas estão endividadas porque precisaram pagar por essa educação e têm que quitar esses empréstimos. Todos esses indivíduos estão frustrados porque pouquíssimos dentre eles começam em trabalhos que estejam de acordo com as suas competências. Eles adquiriram habilidades, trabalharam muito para isso, mas agora não há demanda para eles. Esses jovens estão desempregados ou, então, são forçados a aceitar alguns trabalhos péssimos, que não têm segurança, sem perspectivas de carreira e, acima de tudo, sem qualquer relação com as habilidades que eles se esforçaram tanto para adquirir.

Nessas condições, é muito difícil falar sobre a classe média. Uma de suas características era que essa classe média economizava dinheiro, eles estavam satisfeitos em dedicar a vida a garantir uma boa educação para seus filhos. Mesmo que eles não tivessem frequentado a escola, seus filhos disporiam de boa educação, que abriria um caminho, um bom e agradável caminho para uma vida prazerosa e gratificante. Não é mais o caso. Mesmo indo além das suas possibilidades para ofertar aos filhos uma boa educação, não há nenhuma garantia que lhes assegure o sucesso na vida. E é por isso que o termo precariado é muito mais aconselhável para ser usado, em vez de falar de classes médias. Estamos puxando as pessoas para fora de sua miséria no Brasil e colocando-as na classe média. Mas não é a classe média que elas sonhavam, é uma espécie de classe média que já é precária. Um dos efeitos dessa situação precária é que a classe média torna-se, antes de tudo, consumidora. Seus integrantes não veem muitas perspectivas para si próprios como criadores ativos, porque dependem do nível do mercado, que é algo muito oscilante, como sabemos. Dessa forma, eles estão vivendo no momento, o que é um aspecto muito importante e que define os consumidores. Consumidores em primeiro lugar, produtores em segundo e cidadãos em terceiro. Acima de tudo, consumidores.

Cultura agorista

Bem, é um tipo de vida em que se compensa a falta de segurança, ou a falta de perspectivas, pela tentativa de desfrutar o máximo do presente, vivendo para o presente. Sociólogos dão nomes diferentes para esse fenômeno, alguns falam sobre a “tirania do momento”, outros falam sobre uma “cultura agorista”. Quando o agora é imediato e “não venha me falar de longo prazo, eu não quero saber o que o ‘longo prazo’ vai trazer”, o agora é que é importante. Antes, era preciso trabalhar muito para adquirir aquilo que se queria. Era preciso economizar por muitos e muitos anos para se obter algo, sacrificando seu tempo de lazer ou tempo livre para estudar e trabalhar, até conseguir. Agora as pessoas não gostam disso, qualquer que seja o prazer ou experiência possível, nós queremos agora.

Há, inclusive, agências de viagens que anunciam “experiências imortais”, basta pagar pelas férias. É muito interessante. Viagens para ambientes exóticos que serão uma experiência imortal. Com isso, mesmo a imortalidade se torna algo para uso imediato. Torna-se algo como o café instantâneo, sabe? Você apenas derrama o pó na água e, imediatamente, pode desfrutar de um café fresco, previamente preparado. Estamos vivendo em uma sociedade de consumidores – o que é verdadeiro – e todos participam dessa sociedade. E o que é mais notável, na minha opinião, o impacto mais criminoso da cultura consumista é que cada loja, independentemente do que está em suas prateleiras, do que anuncia e dos objetos que vende, todas essas lojas são farmácias. Elas vendem medicamentos para problemas da vida. E todos os tipos de problemas da vida, todos os caminhos para a felicidade, todos eles passam pelas lojas. O que, naturalmente, leva à desqualificação social dos indivíduos contemporâneos. As pessoas costumavam ter habilidades para lutarem contra os problemas da vida real por conta própria. Bem ou malsucedidas no risco de combater seus problemas, havia um risco e as pessoas desenvolviam as habilidades para enfrentá-lo. Agora, essas habilidades foram substituídas por compras.

Se, em algum momento, você tiver filhos, como uma mãe amorosa, buscará dar o seu amor a seus filhos. De que as crianças precisam? Elas precisam de amor. Mas o amor para as crianças significa a mamãe ou o papai passando muito tempo com elas, ouvindo atentamente o que está acontecendo na escola, que tipo de lição de casa foi passada para hoje, se há um valentão tornando suas vidas desagradáveis. Significa partilhar a vida e receber aconselhamento, sentir que alguém se importa.

Certo, mas assim como na sociedade, nas escolas há símbolos. As crianças olham umas para as outras e são ridicularizadas por seus colegas se usam o tênis do ano passado, em vez da última edição, por exemplo. Então, temos de supri-las para torná-las felizes: eles precisam do iPhone 6 em vez do iPhone 5 e assim por diante. Por isso, é uma relação muito dispendiosa. Você ama seus filhos, então quer dar-lhes todas essas coisas porque ele ou ela tem medo de voltar à escola e ouvir toda essa crítica. Mas, a fim de fazer isso você tem que trabalhar duro, certo?

E a divisão entre tempo de trabalho e tempo pessoal foi abolida. A divisão entre o tempo no escritório e o tempo em casa também. A qualquer momento seu chefe pode te ligar e você não tem desculpa de que estava fora e, portanto, o telefone estava fora de alcance. É preciso levar o telefone com você aonde quer que você vá – ao banheiro ou a um passeio em um bosque. E não é permitido descartá-lo, se você se esqueceu de pegá-lo, é uma tragedia. Em alguns casos, você pode trabalhar não sete ou oito horas, mas 24 horas. E, então, você promete a seus filhos que irá levá-los ao zoológico no domingo. Mas no sábado você tem que dizer-lhes que o seu chefe quer aquele relatório em sua mesa na segunda-feira de manhã. Agora as crianças estão frustadas. “Mãmãe não me ama, papai não me ama, eu estou sozinho e abandonado”.

Portanto, é um mecanismo de autopropulsão, a fim de satisfazer e fazer felizes as pessoas que você ama, sob as condições de uma sociedade de consumo. Você tem que satisfazer a sua própria liberdade pessoal, dedicar-se a trazer mais dinheiro para sua família. Isso se você tiver sorte o suficiente de ter um bom emprego, que pague bem; muitas pessoas não têm, e elas têm dificuldades maiores. Portanto, você precisa fazer isso. Só que, aí, você passa a ter uma consciência culpada porque não demonstra o seu amor, você não compartilha a sua vida; você sabe que deveria fazer isso, mas não pode fazê-lo. E, então, você tem que comprar presentes ainda maiores e mais caros para os seus filhos, a fim de compensar e de acalmar sua consciência. Por isso é um círculo vicioso. O maior sucesso do mercado, por assim dizer, consiste precisamente em suas farmácias estarem fornecendo remédios, oferecendo promessas para problemas reais que a sociedade contemporânea cria.

Vidas fragmentadas

Pode-se ser humano de formas diferentes. Bem, em Londres, fala-se cerca de 90 idiomas, você pode imaginar? Eu presumo que em São Paulo exista a mesma quantidade. Tenho ouvido e lido sobre São Paulo, que as pessoas que podem pagar tentam proteger-se contra a cacofonia, contra o tumulto da rua, isolando-se em condomínios fechados, cercadas apenas por pessoas como elas, onde estranhos não são permitidos. Entretanto, quando elas saem, são novamente imersas nesta realidade multicultural. Então, se torna dolorosamente consciente que existem diferentes maneiras de ser humano. Diferentes territorialmente, diferentes do ponto de vista da cultura e tradição e, também, diferentes em termos de tempo, pois muda-se o tempo todo o tipo de conjunto de valores que são considerados essencialmente humanos.

Uma diferença da época em que eu tinha a sua idade para hoje, por exemplo, é que o acesso à Internet faz parte do que é ser humano agora. Se você não pode acessá-la, se você é privado disso, isso é uma injustiça social. Isso não existia no meu tempo. Se você queria falar com uma pessoa, precisava sair e encontrar os amigos, ir à casa do seu vizinho ou convidá-lo à sua. Agora, é outra história.

De um modo geral, há sim algo que temos de possuir. Cada um de nós precisa possuir habilidades sociais a fi m de viver em sociedade. Aristóteles disse que fora das cidades, só os anjos e os animais podem viver. Mas nós não somos anjos e nós não queremos ser animais, por isso estamos condenados a sermos humanos, e o ser humano não pode viver fora das cidades. A Sócrates foi dada uma escolha entre ingerir veneno ou ser exilado de Atenas. Ele escolheu o veneno, porque não poderia existir fora de Atenas. Temos mudado consideravelmente em nossa essência, mas ainda precisamos de algo para funcionar no mundo off -line. Ir para a rua, para o local de trabalho, atender aos colegas de trabalho, levar os fi lhos à escola, ir a locais onde encontraremos estranhos com os quais teremos que passar algum tempo juntos, trocando pontos de vista e cooperando, colaborando. Tudo isso requer habilidades sociais. E o que a sociedade consumista está oferecendo é abrigo dessas habilidades, tornando-as redundantes.

As habilidades não são mais necessárias. Não é mais preciso estudar, experimentar, expandir-se; basta comprar o produto certo. Para cada problema, há algo esperando para fazer o trabalho por você, sem a sua participação. Sua única função é alcançar um cartão de crédito ou cheque.

Esse é um processo relativamente recente. Quais são suas consequências a longo prazo? Nós ainda não estamos preparados para avaliar, não sabemos. Uma quantidade crescente da população não conhece por experiência pessoal um mundo sem televisão, telefone celular, internet ou computador. Eles não podem imaginar que poderia haver uma forma diferente de ser humano. É a única maneira que eles conhecem.

Por enquanto, o mercado tem tido bastante sucesso na luta pelo monopólio de lidar com essa questão. Portanto, repito, o que está realmente em perigo é a nossa capacidade de interagir socialmente. Só para dar um exemplo, ao trancar-se em um condomínio fechado, talvez se tenha a ilusão de estar seguro em casa, certo? Mas o que estamos perdendo é a capacidade de interagir com pessoas reais do lado de fora, com estranhos. É a verdadeira e difícil arte que temos que aprender. Conversar com pessoas parecidas conosco é fácil, elas estão preparadas para aplaudir o que dizemos, são agradáveis e, antes de a conversa começar, elas já nos entendem. Mas discutir assuntos com pessoas que possuem diferentes pontos de vista, dos quais não gostamos, negociar algum tipo de acordo e de compromisso, um modus vivendi com essas outras pessoas, isso é uma habilidade. Mas, simplesmente porque temos substitutos para essas habilidades, elas estão se enfraquecendo e desaparecendo. Isso tem um impacto grande e de longo alcance no modo pelo qual vivemos juntos em sociedade, mas ainda é muito cedo para avaliar.

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Nara Almeida é editora da revista Comunicação Empresarial

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