Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > DISCURSO CRÍTICO

O saldo devedor das democracias liberais

Por Rennan Martins em 27/01/2015 na edição 835

O professor Slavoj Žižek brindou-nos com o elucidativo artigo “Pensar o atentado ao Charlie Hebdo” no blog da editora Boitempo, onde traz diversas reflexões pertinentes à sociedade ocidental e seu relacionamento com o islamismo e o povo muçulmano. No último parágrafo lemos uma intrigante conclusão, que diz:

“O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.”

De fato, a democracia liberal está num processo de desgaste e perda de legitimidade frente aos cidadãos, tanto que muito se discute a dita “crise de representatividade”, ou seja, a incapacidade deste arranjo institucional responder aos anseios da população.

É possível notar que, historicamente, as elites detentoras do poder político e econômico tentaram por diversos meios tutelar os processos de abertura e aprofundamento democrático, impondo mecanismos que afunilam e até mesmo bloqueiam as reivindicações das massas.

No caso das democracias liberais dos países desenvolvidos, que tiveram muitas de suas instituições copiadas pelas nações do Sul global, a degeneração se deu tanto internamente quanto no âmbito externo, onde a agressividade dos EUA e União Europeia recrudesce, visando a garantir interesses econômicos e geopolíticos num momento em que se vive a segunda maior crise do capitalismo.

Pretensões democráticas “ameaçadas”

Internamente temos as configurações que permitiram influência demasiada do poder econômico nos processos decisórios e eleições no intuito de compensar o perigoso sufrágio universal. Este poder por sua vez corrompe tanto os políticos quanto o próprio sistema, garantindo que as “decisões democráticas” sempre favoreçam os interesses da oligarquia patrocinadora das campanhas eleitorais e do lobby.

Soma-se a isso a imprensa corporativa, que é uma verdadeira agência de publicidade, promovendo com eficácia e fervor os interesses de seus patrões, reproduzindo um pensamento único que retrata o mundo sempre do prisma neoliberal em termos econômicos, e conservador no âmbito social.

Exemplo ilustrador desse quadro é a pesquisa dos professores Martin Gilens, de Princeton, e Benjamin I. Page, da Northwestern Universisty, que teve por foco a “maior democracia do mundo”, a norte-americana. Nela fizeram um levantamento exaustivo de 1.779 questionários sobre políticas públicas entre 1981 e 2002. O que constataram foi um poder de influência que varia diretamente com o tamanho da conta bancária, ou seja, uma oligarquia. Diante disso, assim discorreram:

“… acreditamos que se os processos decisórios são dominados por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos influentes, temos que as pretensões democráticas americanas estão seriamente ameaçadas.”

A responsabilidade das democracias liberais

Na frente internacional, esta ainda mais importante pra pensarmos os últimos acontecimentos, temos ainda menos distribuição de poder. As democracias liberais portam-se tiranicamente em relação aos Estados em desenvolvimento, fazendo de tudo para esmagar qualquer indício de nacionalismo e anseio por um desenvolvimento autônomo, de propostas que divergem das oferecidas pelo globalismo do FMI e Banco Mundial. Em suma, o respeito à autodeterminação dos povos inexiste.

O atentado ao Charlie Hebdo é exposto como fruto de um pretenso “choque de civilizações” onde caberia ao ocidente desenvolvido impor belicamente toda sua “civilidade”, ganhando, neste ínterim, o controle de preciosos recursos, principalmente energéticos. Mas isso é só um detalhe.

A al-Qaida do Iêmen é a mais nova cabeça da hidra a ser cortada. Porém, a narrativa hegemônica “esquece” que o extremismo era minoritário e desprovido de recursos até que foi treinado e financiado pelas potências ocidentais e monarquias sunitas locais a fim de que a desestabilização por eles promovida catalisasse a promoção de seus interesses. O fato de o Estado Islâmico ter recebido rios de dinheiro europeu e norte-americano é pouquíssimo mencionado, e assim mais uma intervenção militar genocida se avizinha.

Como diz a frase a atribuída a Einstein, loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual. Há um quinhão de responsabilidade a ser cobrado das democracias liberais, e a liquidação da fatura é urgente.

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Rennan Martins | Via Desenvolvimentistas

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