Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Militância automática

Por Renato Cruz em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido do Estado de S. Paulo, 22/3/2015; intertítulo do OI

A agência de notícias Associated Press (AP) tem usado robôs para escrever sobre finanças. Criados pela Automated Insights, eles geram reportagens sobre resultados de empresas com mais rapidez e precisão que qualquer humano. O uso de robôs começou há seis meses e, a cada trimestre, são produzidos automaticamente cerca de 3 mil textos.

Na semana passada, Valmar Hupsel Filho e Ricardo Galhardo mostraram neste jornal como age outro tipo de robô. Segundo documento da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), “a partir de novembro, as redes sociais pró-Dilma foram murchando até serem quase extintas. (…) Os robôs que atuaram na campanha foram desligados e a movimentação dos candidatos do PT foi encerrada”.

Esses robôs não são tão espertos quanto os da AP. A militância automática de que fala a Secom não escrevia, apenas compartilhava conteúdo favorável à presidente Dilma nas redes sociais durante a campanha. “A tática do PSDB foi exatamente a oposta”, continua o documento. “Cerca de 50 robôs usados na campanha de Aécio continuaram a operar mesmo depois da derrota de outubro.” A estimativa da Secom é de que a oposição gastou cerca de R$ 10 milhões entre novembro e março para gerar e distribuir conteúdo contra o governo.

O documento da Secom confunde campanha eleitoral e comunicação governamental, como se uma fosse continuação da outra. “A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele”, sugere, ao mesmo tempo em que defende uma retomada do “diálogo” entre blogueiros e Secom.

Reforço em São Paulo

Além do problema de tratar partido e governo como se fossem uma coisa só, o documento coloca como solução importante para a crise que Dilma enfrenta a compra de apoio nas redes sociais. Faz isso quando lamenta o desligamento dos robôs da campanha, o distanciamento entre blogs e governo e os R$ 10 milhões supostamente destinados pela oposição para fazer campanha contra Dilma desde as eleições.

Em determinado momento, a Secom chega a dizer que a “militância orgânica dilmista” deixou de defender o governo nas redes sociais. Ora, em linguagem de internet, “orgânico”, sinônimo de espontâneo e gratuito, se contrapõe a pago. Mais uma vez, é uma forma de o documento pedir reforço de militância remunerada.

Mas acontece que não basta arranjar quem fale bem. Como a própria Secom destaca, “a principal página do Facebook pró-Dilma não oficial, a Dilma Bolada, começou a perder fãs em fevereiro”. A Secom sugere reforço da propaganda em São Paulo para melhorar a imagem do prefeito Fernando Haddad. Na cidade, tentaram uma estratégia parecida com a “Dilma Bolada”, com o perfil “Haddad Tranquilão” nas redes sociais, mas não deu tão certo.

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Renato Cruz é colunista do Estado de S. Paulo

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