Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > ENTREVISTA / MAURO PAULINO

‘O governo perdeu o controle da opinião pública’

Por Monica Gugliano em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido do Valor Econômico, 20/3/2015

Nos últimos 30 anos de vida democrática do Brasil não há registro de outro instante em que a opinião pública tenha nocauteado, com tamanha força e rapidez, a popularidade do presidente da República. “É um momento histórico”, afirma o diretor-­geral do Datafolha, Mauro Paulino. Menos de 80 dias depois de assumir seu segundo mandato, Dilma Rousseff era reprovada por 62% dos eleitores, de acordo com pesquisa que o instituto divulgou na quarta­-feira (18/3). “Neste momento, o governo federal perdeu o controle da opinião pública, não consegue responder de maneira adequada àqueles que representa”, diz Paulino. Para ele, a reação dos eleitores de baixa renda será decisiva para o governo daqui por diante. “Neste momento, pela primeira vez, esses segmentos também estão reprovando o governo petista de forma majoritária, acima de 50%.”

O Datafolha já registrou movimentos de rejeição a um governo tão rápidos e duros como esses?

Mauro Paulino – Em poucos momentos na história, pelo menos nos últimos 30 anos da democracia, vimos variações tão significativas na avaliação de um presidente. Tanto a que ocorreu em junho de 2013 quanto a detectada agora, no início do mandato. É um momento histórico de movimentação da opinião pública.

Surpreende mais a intensidade da reprovação ou a rapidez?

M.P. – Em início de mandato, mesmo que seja o segundo, é inédito. Teve o Itamar, que entrou com avaliação ruim, mas se recuperou rapidamente com o Plano Real e depois elegeu FHC. Teve o declínio de popularidade muito forte de Collor, mas foi com dois anos no cargo. Os movimentos de hoje guardam muita semelhança com as jornadas de junho de 2013. Observamos que os efeitos das jornadas continuam. Tivemos um hiato no ano passado, principalmente durante o período da Copa, quando se temia ainda pela segurança das delegações, uma crise etc. Mas o futebol acabou superando essa expectativa e a autoestima dos brasileiros, durante a Copa, aumentou.

Mas isso se manteve?

M.P. – Veio o período eleitoral e a campanha fez que a esperança dos brasileiros melhorasse com os partidos mostrando soluções para o país e dizendo que melhoraria. Mas, passado o período da Copa e da eleição, no começo do ano, a carga negativa que observamos em 2013 voltou, mais forte. O pessimismo em relação à economia veio mais forte do que em 2013 e um senso crítico que se espalhou por toda a sociedade. Partiu da classe média e se espalhou em relação a quem está no poder. Seja o governo federal ou o Legislativo, o Congresso Nacional.

O movimento tem viés partidário?

M.P. – Foi quebrado um recorde de brasileiros que não têm partido de preferência. Chega agora a 75%, dois terços dos brasileiros que dizem não ter partido de preferência. Esse recorde já havia sido quebrado em junho de 2013, tinha chegado a algo em torno de 65%, inédito na época. Essa taxa de eleitores que não consegue enxergar um partido político que os represente continuou crescendo e agora chega na mais alta já verificada pelo Datafolha, que faz esse acompanhamento desde 1989. Ou seja, essa crise de representatividade encontra seu ponto mais crítico.

Qual pode ser o significado num país com uma jovem democracia?

M.P. – Vejo como positivo. Considero isso o exercício pleno da democracia. Os brasileiros, nos últimos 30 anos, têm passado por experiências importantes no desenvolvimento da cultura política. Desde a campanha das Diretas, que ainda pode ser considerado o movimento político mais significativo das últimas décadas? a morte de Tancredo Neves? o impeachment de Collor? os brasileiros votando a cada dois anos. Foram aprendendo qual é o valor do voto, como os eleitos em todas as esferas interferem na vida cotidiana, quanto a política é importante para a definição do bem­-estar de cada um. Não só os brasileiros foram aprendendo a exercer o voto como também foram acompanhando cada vez com mais atenção o desempenho dos eleitos. É interessante que, neste momento, com Dilma eleita pela maioria, logo depois de sua posse, enfrente movimento crítico. É a avaliação que o povo faz de sua escolha. Tudo isso faz que se incorpore mais informação e se desenvolva cada vez mais a cultura política da população.

A população está fazendo uma autocrítica? Não seria uma avaliação muito rápida?

M.P. – Tudo isso é um reflexo de alguns fatores. O principal deles é que muitos brasileiros acreditaram em tudo o que foi dito durante as eleições. Perceberam, de forma repentina, que muito do que foi dito não era verdade. Estão sentindo, de uma forma muito forte e contundente, a crise econômica. A crise econômica chegou ao bolso dos brasileiros muito forte, desde o fim do ano passado. O pessimismo cresceu muito. Essa percepção de perda do poder de compra, de expectativa de que a inflação aumente nos próximos meses e de que a situação econômica vai piorar, faz que o noticiário sobre corrupção se torne mais revoltante.

Há uma crítica muito grande à capacidade de reação do governo diante dessa situação. Essa pesquisa é um sinal ainda mais contundente de que o governo está paralisado?

M.P. – Neste momento, o governo federal perdeu o controle da opinião pública. Não consegue responder de maneira adequada àqueles que representa. Mas acho que há ainda um aspecto que devemos acompanhar com muita atenção: qual será a reação do segmento do eleitorado que decide tudo. Decide a eleição, a avaliação de governo, tudo. É o eleitorado mais pobre, a imensa maioria dos eleitores. Nos últimos anos, foi o segmento que se mostrou mais favorável aos governos petistas. Neste momento, pela primeira vez, esses segmentos também estão reprovando o governo petista de forma majoritária, acima de 50%. Diante da reação do governo daqui para a frente, diante da maneira como o governo se comunicará com esse segmento do eleitorado, será interessante observar se eles voltam a avaliar melhor o governo ou se eles também vão decidir ir às ruas e se juntar aos eleitores de classe média. Esse é o ponto a ser observado daqui para a frente junto à opinião pública.

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Monica Gugliano, do Valor Econômico

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