Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > TRAGÉDIA DA GERMANWINGS

Imprensa, o copiloto e as conclusões apressadas

Por Luiz Claudio Ferreira e Jade Abreu em 31/03/2015 na edição 844

As notícias chegam muito rápido. Avião desaparece, 150 a bordo, equipamento é encontrado nos Alpes franceses, não há sobreviventes, encontrada a caixa-preta. O Ministério Público francês, tal e qual o brasileiro, tem prestígio de fonte de mais alta credibilidade. Foi um procurador que, em coletiva, anunciou dois dias depois do acidente com o avião A320 da Germanwings (que fazia a rota Barcelona-Düsseldorf), que o áudio da caixa-preta indicava que o copiloto Andreas Lubitz teria aproveitado a ausência do comandante da aeronave para, em silêncio e “com respiração forte”, jogar o avião no chão a mais de 700 quilômetros por hora. A cadeia de acontecimentos esboçada pela imprensa, mesmo com diferentes lacunas, é uma versão factível. No entanto, a divulgação apressada a partir de apenas um elemento da investigação pode contaminar a investigação, escancarar a privacidade de uma pessoa doente, além de eliminar outras hipóteses e contextos a partir da investigação de elementos da história que precisa ser reconstituída. No Brasil, o sigilo das informações tem se mostrado mais cuidadoso do que essas informações que chegam da Europa.

Fato é que a imprensa mundial, incluindo a brasileira, traz, a cada dia, novas informações sobre a personalidade do rapaz de 28 anos, com mais de 800 horas de voo. Personagens diversos entram na história, da noiva – que teria encerrado um romance de sete anos – a vizinhos do que já é apresentado como o vilão da narrativa. O copiloto sofreria de depressão, seria um sujeito tranquilo e amante da aviação. Mas teria ignorado os apelos, machadadas na porta e os gritos desesperados de quem estava a bordo. Claro que apenas a divulgação do áudio da caixa-preta, isoladamente, não é capaz de garantir o que ocorreu com essa ligeireza. Sons solitários são apenas partes dos elementos de uma apuração, mas para a imprensa, o mistério acabou. Não há ainda informações sobre os dados do equipamento, se o avião havia apresentado algum problema mecânico, em quais circunstâncias o copiloto estava sozinho, se é que era ele, na cabine de comando. Eis mais um exemplo em que a velocidade que a sociedade espera ter a confirmação de informações pode não acarretar benefícios esperados. A velocidade de uma investigação pode e deve ser em outra marcha.

O Ministério Público precisa mostrar agilidade no serviço. Mas a imprensa, como não tem capacidade de investigar os movimentos dos outros 149 a bordo e tão pouco entende sobre o complexo mundo da aviação, embarca em soluções prontas e, claro, possíveis. Ocorre que não são raras as mudanças de curso de uma investigação de acidente aéreo, dizem os próprios especialistas. Existe uma diferença contundente entre fazer jornalismo investigativo (ir além do que os dados se apresentam) e se apoiar nas investigações dos outros (Ministério Público e polícias). O risco disso é estar procurando um tesouro na estrada errada.

Minuto a minuto

Observar por amostragem os portais noticiosos no Brasil pode conferir a dimensão em que se apresenta o olhar de quem precisa se renovar em hipóteses várias vezes ao dia, como se fosse uma narrativa de um filme, novela ou série. Ao se apressar, esbarra nas ações declaratórias dos atores da narrativa. Assim ocorreu no UOL, por exemplo. Em notícia publicada no dia 26, às 9h, o promotor de Justiça de Marselha foi considerado uma espécie de porta-voz da investigação das “autoridades francesas”, afirmando que o copiloto teria agido deliberadamente. O texto não coloca a versão como hipótese, traz infográfico intitulado “Ato voluntário” e não apresenta qualquer dúvida ou contraponto. No material, já consta imagem do copiloto retirada de rede social. Três horas depois o mesmo portal publicou o texto “Saiba quem era o copiloto do avião de acidente na França”. No mesmo dia, o portal traz outros detalhes da gravação que seria “reveladora”, com o título “Passageiros gritaram antes da queda”. Um contraponto só se apresentou duas horas depois, com a informação de que o copiloto estava 100% apto para pilotagem.

Somente no dia seguinte, o portal publicou críticas de associações de pilotos a fala do promotor, mas na mesma data já havia a notícia de que o pai do comandante da aeronave não iria guardar raiva do “acusado” pelo acidente. Chamou a atenção a publicação na sexta (27/3) com destaques da semana uma legenda “Andreas Lubitz, o copiloto que derrubou o avião da Germanwings”. Outras manchetes tratam sobre “vida discreta” dele e a “informação” que o piloto teria tentado abrir a cabine com golpes de machado. Não é apresentada a evidência de que isso teria ocorrido. No sábado (28/3), o UOL traz uma notícia com um personagem citado em outras publicações, a ex-noiva de Lubitz. Ela lembra que o rapaz teria dito que saberiam para sempre o nome dele.

Um olhar semelhante para o portal G1 traz um roteiro de noticiário. Um exemplo é o foco dado nos transtornos psiquiátricos do rapaz, como foi publicado no dia 27 de março às 6h12. De acordo com o G1, em 2009 ele teve uma grave crise de depressão. Isso um dia após “as autoridades francesas” terem descartado a possibilidade de o copiloto estar ligado a atos terroristas. Já no sábado (28/3), o portal reproduziu a notícia do New York Times e informou que Andreas Lubitz tinha problemas de visão e que pode ter sido originária dos problemas psicológicos. O portal de notícias também informou no dia 29 que o copiloto já tinha transtorno de ansiedade, diagnosticado em 2010, problemas de sono e estresse excessivo.

Não foi só o histórico psicopatológico que a mídia levantou. O término do relacionamento também rendeu assunto aos portais. A ex-noiva disse aos jornais que o copiloto planejava algo grande, e esse era o título da notícia pelo G1. A matéria esteve entre os principais destaques e entre as mais lidas. Também esteve na manchete do dia 28 a publicação do G1, na qual o prefeito francês alega que pai do copiloto está “completamente arrasado”. Inclusive, as várias atualizações da cobertura estiveram entre as principais notícias da semana do portal. Em menos de uma hora de o G1 noticiar o piloto como o principal suspeito, já havia um texto explicando quem era o copiloto. As duas foram as matérias mais lidas do dia 26. As notícias já tinham fotos, vídeos, hiperlinks, relações com fatos anteriores, “entenda mais” etc.

No mesmo dia, o portal de notícias da Globo também informou que “é muito cedo para afirmar que a culpa é do piloto”. Entretanto, a velocidade das informações abafou a fala do especialista em gerenciamento de risco. O portal publicou cada vez mais detalhado o que se passou nos momentos antes da aeronave chegar ao chão. No domingo 29, por exemplo, o G1 divulgou que o piloto da Germanwings, enquanto tentava evitar a queda, pediu aos berros para que o colega abrisse a “maldita porta”, segundo informações do jornal Bild a partir da gravação da caixa preta. O portal, assim como o UOL, já tinha mencionado a tentativa do piloto derrubar a porta usando o machado.

No jornalismo online, dividir a história em espécie de capítulos garante a manutenção da audiência em que pese a problemática opção de não entregar dados mais contextualizados em uma única publicação. Preço da falta de uma exatidão para o modelo de negócio não privilegiar a reportagem, mas as notícias em partes.

Enigma no comando

A investigação de acidente aeronáutico acontece de duas formas paralelas. Uma é para esclarecer responsabilidade criminal. Outra, que é prezada pela OACI (entidade internacional pra a segurança da aviação civil), tem como objetivo expedir recomendações de segurança de voo para evitar que outros acidentes aconteçam. Nesse plano, esse apressamento em trazer dados a partir exclusivamente do áudio da caixa-preta, mesmo que de forma incompleta e atribuindo culpas antecipadas, torna possível a discussão sobre pressões e transtornos psicológicos que podem afetar quaisquer profissionais, incluindo os bastante exigidos aviadores.

Como a Aeronáutica brasileira tem tratado a saúde desses profissionais a cada exame periódico que é realizado em hospitais militares? Sob que tipo de pressão e em quais condições as empresas têm garantido tranquilidade aos funcionários que conduzem os equipamentos? Essas são questões que podem ser iluminadas com mais esse acidente. Mas muitas outras podem vir à tona desde que se trate com a seriedade com que merece esse assunto complexo. Respostas prontas depois de poucas horas de investigação… um roteiro que jornalistas deveriam saber bem: são necessárias prudência e responsabilidade.

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Luiz Claudio Ferreira é professor de Jornalismo e Jade Abreu é estudante de Jornalismo

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