Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Usinas da trolagem

Por Lúcia Guimarães em 31/03/2015 na edição 844

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 30/3/2015; intertítulo do OI

“A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele” (Documento apócrifo que provocou a demissão de Ministro da Comunicação Social Thomas Traumann)

O anúncio da escolha surpreendente de Edinho Silva como titular da Secretaria de Comunicação Social, ou como apelidaram alguns, a dublê provisória de Ministério da Blindagem, chegou aqui quando lia um relato fascinante. No começo confinada ao website da Rádio Europa Livre, a reportagem teve farta distribuição na rede social pelo revelador testemunho de um ex-blogueiro russo, Marat Burkhard. Numa entrevista, ele relata seu trabalho na divisão do governo Putin conhecida pelo eufemismo Pesquisa de Internet.

Ignorado pelo público, o discreto edifício da Rua Savushkina, em São Petersburgo, abriga uma operação de 24 horas em dois turnos, destinada a inundar a rede social e os blogs com propaganda. As cortinas são mantidas fechadas e os funcionários não têm permissão para sair do prédio durante o turno. Há milhares de contas no Facebook, Twitter, LiveJournal e no VKontakte, o Facebook russo, abertas em nomes desses trolls, que ganham pelo menos US$ 700 por mês.

Não me incluo entre os que ficaram chocados com o documento que circulou no Planalto, revelado com exclusividade pelo Estado, que provocou a demissão de Traumann. A tecnologia digital apenas facilita ações que ideólogos ligados ao governo consideram justificadas. Além disso, depois de um ano acompanhando a guerra na Ucrânia, acredito que, em matéria de trolagem, o PT está apenas engatinhando.

O ex-blogueiro Burkhard conta que não foi fácil conseguir o emprego. Teve que submeter amostras “neutras” de seu texto, sobre assuntos mundanos como vegetarianismo. Em seguida, foi inquirido sobre temas controversos como a “ajuda humanitária” russa, de fato caminhões cheios de equipamento militar, no Leste da Ucrânia. Embora seja pró-Ocidente, ou anti-Kremlin, Burkhard conseguiu esconder com sucesso suas convicções e logo atingiu a cota diária da fábrica de propaganda: 135 comentários por jornada de 12 horas. A dissimulação não é fácil, ele recorda, e por duas vezes quase caiu na malha das constantes aferições ideológicas dos feitores da senzala de propaganda.

Muito a aprender

A descrição da operação revela detalhes como o departamento gráfico especializado em “desmotivadores”, ilustrações destinadas a minar a credibilidade de um país ou uma figura pública. Um exemplo seria Obama se curvando diante do novo rei saudita no dia em que a Arábia Saudita degola condenados. Uma tarefa na rotina dos trolls do Kremlin é se dividir em grupos de três para entrar em websites de cidades e vilas russas. O primeiro a entrar é o “vilão”, que faz crítica negativa, para conferir um ar de democracia ao debate. Seus dois colegas, em seguida, começam a discutir com o “vilão” no fórum e passam a reforçar a mensagem oficial. Notícias falsas, especialmente sobre a guerra na Ucrânia, são plantadas em múltiplos fóruns online, para que discussões sobre o que não aconteceu decolem com uma viralidade que deixe para trás as dúvidas sobre a origem da informação.

O ex-blogueiro destacou uma pauta hilariante e perversa. Quando Obama foi filmado mascando e cuspindo chiclete na Índia, ele recebeu instruções para escrever pelo menos 135 postagens e pegar pesado, sempre usando “Obama”, palavrões, mesmo representando o presidente americano como “um macaco negro que não entende nada” de outra cultura antiga.

Ao final de dois meses de labuta neste Absurdistão putiniano, Burkhard decidiu ir embora. Sabe que habitou, por um tempo, o Ministério da Verdade imaginado por George Orwell no romance 1984.

Os soldados da guerrilha de propaganda sonhada por ministros da verdade em Brasília ainda têm muito o que aprender.

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Lúcia Guimarães é colunista do Estado de S.Paulo, em Nova York

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