Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DO LEITOR > MÍDIA PARAENSE

A antiimprensa vive

Por Lúcio Flávio Pinto em 09/02/2010 na edição 576

O jornalista Jorge Amorim divulgou no seu blog ‘Na Ilharga’ a seguinte nota:

‘Hei, Liberal! Na cerimônia de posse do Dr. José Raimundo Trindade, na presidência do Idesp, entre os especialistas que participaram da abertura do ciclo de debates estava o jornalista Lúcio Flávio Pinto, nome que o jornal se recusa a publicar como se não existisse, mas existe e presta inestimáveis serviços ao estado do Pará.

E é bem maior do que esses editoriais hipócritas, como o de hoje, que pretensamente defende a liberdade de expressão, assunto sobre o qual O Liberal não tem nenhuma autoridade moral para sobre ele discorrer, dado o seu longo histórico de ligações com o obscurantismo e o desrespeito às liberdades cidadãs’.

Mandei uma mensagem ao blogueiro, agradecendo por sua gentileza:

‘O grupo Liberal é poderoso, mas, quando agride os fatos e os escamoteia do seu registro jornalístico, trai sua razão de ser (bem informar os leitores) e joga uma rosa amarela e medrosa sobre o seu epitáfio: aqui, a história não aconteceu’.

A exclusão do meu nome do registro em todos os veículos de comunicação da família Maiorana já é um caso patológico. Ainda assim, constitui uma anomalia, que cumpre denunciar, além de não ser a única. Certa vez, o recentemente falecido Tadeu Ponte e Sousa foi mandado em avião fretado a Marabá para cobrir um debate sobre o maior empreendimento econômico então em andamento no país, a fábrica de cobre da Salobo Metais, controlada pela Companhia Vale do Rio Doce. O encontro foi em pleno domingo, mas lá estava o repórter enviado de Belém e a equipe local da TV Liberal. A razão? A Vale tinha se recusado a continuar a patrocinar o Salão Arte Pará. Flagrada em pecado mortal, apanharia até voltar a comparecer ao cofre do grupo Liberal.

Agressão aos fatos

Aquela era uma oportunidade que não podia passar em branco. Todos os preparativos sugeriam que haveria críticas à empresa, que hoje é a maior da iniciativa privada no Brasil. Só havia um problema: eu era o único palestrante. Tadeu me procurou e expôs seu problema. Lamentei não poder ajudá-lo. De volta à sede, ele escreveu um bom e longo texto reconstituindo o intenso debate. Só não identificou o autor das afirmativas aspeadas, que tantas polêmicas provocaram. Era uma oração com sujeito oculto. Ou psicografada.

Quando o público, formado por mais de 500 pessoas, se surpreendia diante de algumas informações que eu lhe fornecia, lembrava-lhe que os dados já tinham sido publicados no Jornal Pessoal. Só não se tornaram de conhecimento mais amplo por se tratar de uma pequena publicação alternativa. Infelizmente, não apareciam nas páginas da grande imprensa, como de O Liberal, presente naquele momento, com seu enviado especial na primeira fila. Sugeri aos presentes que consultassem a edição do dia seguinte do jornal para verificar o que iria sair. A reação deve ter sido semelhante à de Jorge Amorim agora.

Uma empresa jornalística que assim procede sistematicamente (e não apenas contra um desafeto tão visado, como eu) pode manter a ilusão de credibilidade por algum tempo, mas não tanto quanto imagina – nem sobre tantos leitores quanto apregoa. O crescimento do universo de espaços jornalísticos, semi-jornalísticos e antijornalísticos na internet se deve, em grande parte, a esse modo de proceder tão pouco profissional, ético e moral. Se a crença nesse tipo de imprensa se estiola, permanece de pé um axioma: jornal que agride os fatos agride a si mesmo; se suicida involuntariamente.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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