Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > COPA DO MUNDO

A arrogância histórica da Globo

Por Venício A. de Lima em 01/07/2010 na edição 596




Para Marco Antonio Rodrigues Dias e Geraldo da Rocha Moraes


Embora tenha apoiado o golpe de 64, o regime militar e se consolidado como a mais poderosa rede de televisão do país durante a ditadura, houve períodos em que a percepção de boa parte da elite fardada era de que a Rede Globo de Televisão representava uma ameaça real de controle da opinião pública brasileira e precisava ser enfrentada.


No governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), sendo ministro das Comunicações o coronel Euclides Quandt de Oliveira, foi certamente quando surgiram as maiores contradições e divergências entre o regime autoritário e a Globo. Documentos da época e sua análise estão disponíveis, por exemplo, no livro Dossiê Geisel, organizado por Celso Castro e Maria Celina D’Araújo e publicado pela FGV em 2002.


Encontro na UnB


Faço esta rápida introdução para relatar um encontro emblemático acontecido há 35 anos, entre professores do então Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília e altos dirigentes globais, entre eles Walter Clark (diretor geral), Luiz Eduardo Borgerth (diretor), Otto Lara Resende (assessor da presidência), infelizmente, já falecidos.


O contexto do encontro trazia, no mínimo, preocupações para as Organizações Globo:


1. A Globo havia perdido a disputa por um canal de TV aberta em João Pessoa, PB, por interferência direta do ministro Quandt que considerava um risco ‘aumentar o monopólio da emissora’.


2. O ministro vinha fazendo uma série de críticas públicas à televisão brasileira, todas de grande repercussão. Uma delas, a aula inaugural no curso de Comunicação do CEUB, Centro de Ensino Unificado de Brasília, sobre ‘A televisão no Brasil’ (17/2/1975). Na sua fala ele destacava os ‘perigos do monopólio’ tanto de canais, quanto de audiência, quanto na programação ‘alienígena’.


3. Estava em andamento a criação da Radiobrás [Lei n. 6301 de 15/12/1975] que era vista com desconfiança pela Globo pelo temor de que se transformasse em destinação preferencial de verbas publicitárias do governo.


4. Estava em discussão, dentro do governo, um pré-projeto de regulação da radiodifusão que deveria substituir o superado Código Brasileiro de Telecomunicações [Lei 4. 117/1962].


5. O Departamento de Comunicação da UnB era uma unidade acadêmica que produzia pesquisa crítica sobre a radiodifusão brasileira e acabara de elaborar um pioneiro projeto de unificação das televisões públicas que recebeu o nome de SINTIS – Sistema Nacional de Televisão de Interesse Social. Além disso, circulava que alguns de seus professores tinham acesso ao ministro das Comunicações e o abasteciam com dados nos quais ele fundamentava sua posição, direta e/ou indiretamente, contrária à hegemonia da Globo.


O objetivo do encontro, realizado por iniciativa da Globo, na UnB, era ‘trocar idéias’ sobre as comunicações no Brasil. O que acabou acontecendo, todavia, foi quase um bate-boca.


Apesar da conjuntura politicamente adversa – para a Globo – em que se realizava o encontro, a memória de professores presentes é unânime em afirmar a arrogância de seus dirigentes. Não houve diálogo possível e cada um saiu do encontro ainda mais convicto em relação às respectivas posições. Divergimos em relação à existência de um virtual monopólio na TV brasileira; às finalidades educativas da televisão (previstas em lei); à prioridade ao conteúdo nacional e à necessidade de criação de uma rede pública de radiodifusão.


No presente como no passado


Relembro este encontro e a memória que dele ficou para reforçar os inúmeros comentários já escritos e publicados na Agência Carta Maior sobre o enfretamento que a Globo faz a Dunga, aparentemente, por ele não ser conivente com os privilégios da emissora em relação aos demais veículos de mídia que estão cobrindo a Copa do Mundo na África do Sul. [Ver também, neste Observatório, ‘A guerra foi declarada‘, ‘Um não cede, o outro recua‘, ‘Futebol, Davi e Golias‘, ‘O fim do besteirol esportivo‘, ‘O técnico Zangado‘, ‘Tô contigo, Dunga‘, ‘Rede Globo vs. Dunga: críticas à arrogância e manipulação‘.]


Ao longo de sua existência, uma característica da Rede Globo tem sido ignorar que a televisão é apenas a concessão de um serviço público que tem como soberano o cidadão e seu interesse. Ao contrário, a Globo tem historicamente se comportado como proprietária das concessões de radiodifusão.


A própria Seleção Brasileira de Futebol constitui um patrimônio cultural do país que não pode ser apropriado por interesses privados. No entanto, o futebol brasileiro – não só a Seleção – tem sido explorado comercialmente pela Globo como se sua propriedade fosse.


A Globo, por óbvio, não tem mais em 2010 o poder que teve na década de 1970, enfrentado, por razões próprias, pelo regime militar. Mas conserva a arrogância.


Por outro lado, uma diferença do passado para o presente é que o inconformismo em relação à Globo não está mais restrito a alguns professores isolados em departamentos universitários. Repetindo a resistência que se expressou em outras situações históricas no lema popular ‘o povo não é bobo, abaixo a rede Globo’, a internet fornece hoje o suporte tecnológico necessário para que milhões de pessoas se mobilizem em torno de iniciativas como ‘cala a boca Galvão’ e ‘cala a boca Tadeu’. Além disso, dezenas de blogs e sites alternativos tornaram pública a opinião daqueles que fazem contraponto à TV hegemônica.


Outro mundo possível


Resta manter a esperança de que – um dia – a transmissão de jogos dos campeonatos locais, regionais e nacional de futebol e a cobertura dos jogos da Seleção Brasileira não serão exclusividade de concessionárias comerciais, mas estejam disponíveis nas redes públicas de televisão.


Em se tratando de um patrimônio cultural brasileiro, as redes comerciais privadas não deveriam remunerar as redes públicas para distribuir e comercializar este tipo de conteúdo?


O episódio Globo versus Dunga – que certamente ainda não terminou – deixa claro que já existe no país não só uma ampla consciência da arrogância e dos privilégios históricos da Globo, como também novas e eficientes formas de expressar inconformismo diante dessa situação. E mais importante: novas e eficientes formas de apoiar aqueles que, como Dunga – correndo o risco de perder o emprego – não se curvam ao poder de concessionários de um serviço público que continuam a se comportar como se dele fossem proprietários.

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Professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher,2010.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/07/2010 Carlos Fochesatto

    Ora! Somente aqueles que estão hipnotizados pela Globo não conseguem enxergar. Uma constatação clara e de fácil comprovação. Onde em países ditos ‘primeiro mundo’, eventos esportivos começam as 22:00 horas? Não conheço nenhum.

  2. Comentou em 02/07/2010 Cristiana Castro

    Esseé o poder da Globo, quem está contra o monopólio da Globo é petista De onde mais poderia ter saído essa pérola da genialidade política? Marx e Engels podem dormir tranquilos, nós estamos depertos. De resto,é não desistir, não se desiste na primeira tentativa, o #diasemglobo foi só o primeiro passo e é assim mesmo. Nós temos a dimensão do esforço que nós fizemos e o resultado foi mínimo. Dá mesmo vontade de desistir. Mas, se a gente desiste, serão mais 45 anos. Há 30 anos atrás, eu ouvia de meio mundo que eu era ingênua pq acreditava que um cara como o Lula poderia ser alguma coisa no Brasil.O resto a gente já sabe. A TV Globo exorbita suas funções e foi criada para isso mesmo. Não representa os interesses nativos e isso, parece, não ser problema para os que tem alternativa. Qto aos que não tem… bem, esses não tem alternativa. A lei é clara e proíbe esse tipo de monopólio. Se a lei não vale para eles, não vale para ninguém. O OI inteiro já tá careca de saber que sou pela cassação da concessão, com base na lei. Mas, se a idéia é lutar por direitos já conquistados e positivados, então, não podemos desistir mesmo.Perder um, significa a possibilidade de perder qq um.

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