Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > CASO DASLU

A arte de manipular a imprensa

Por Ligia Martins de Almeida em 18/07/2005 na edição 338

Está cada vez mais fácil manipular a imprensa. E o caso mais recente – a prisão de Eliana Tranchesi, uma das sócias da Daslu – é uma boa demonstração disso. A primeira manipulação foi feita pela própria Eliana, quando inaugurou a nova loja em junho. Conseguiu, com um marketing muito bem feito, ganhar um espaço exagerado da mídia. A segunda foi feita pela Polícia Federal, que convocou a imprensa – da mesma forma que tinha feito quando da prisão dos donos da Schincariol – para acompanhar a prisão da empresária e seus sócios, para fins de investigação. Desta vez com um resultado ainda mais espetacular na mídia.

O resultado pôde ser verificado na semana passada, quando a Daslu tomou o espaço que deveria ter sido destinado à CPMI, às malas de dinheiro apreendidas em aeroportos e outras mazelas que atingem o país. Falou-se em manobra diversionista do governo, em supostos complôs dos shopping centers e, é claro, da idéia de transformar a empresária num exemplo, ou melhor, num bode expiatório.

A imprensa, talvez pela necessidade de parecer imparcial, fez matérias mais contidas do que na inauguração da grande loja, mas acabou agindo como a oposição no caso da corrupção, querendo poupar Eliana como se tenta poupar o presidente Lula dos desmandos petistas.

Se o assunto é luxo…

A verdade é que a Operação Narciso trouxe a Daslu – e as mulheres – de volta à mídia. Como nunca antes, os jornais procuraram mulheres para falar de um grande acontecimento nacional. Como se elas só tivessem autoridade para falar de futilidade, luxo e compras. Mulheres como Yara Baumgart, que declarou ao Estado de S.Paulo (14/7), direto de Capri, Itália: ‘Parece que o PT está tão enraivecido que decidiu atacar o coração da elite brasileira. Tô passada com essa história da Daslu. Toda a elite vai se sentir agredida, como eu estou me sentindo.’

Ou como a empresária Erika Mares Guia, filha do ministro do Turismo, Walfrido Mares: ‘A Daslu continuará sendo a melhor loja do Brasil. É muito estranho isso. Muito agressivo’. Mas talvez a melhor defesa tenha sido a da embaixadora da Dior no Brasil, Bia Dória: ‘Enquanto existirem tantos impostos, é praticamente impossível declarar tudo. Sem esquecer que todas essas madames viajavam para o exterior e deixavam o dinheiro lá fora. Agora compram aqui na Daslu’.

De Eliana Tranchesi, o pivô de tanto falatório, só se conheceu uma declaração dada na época da inauguração da loja: ‘Faço a minha parte, pago impostos e acho que a gente acabou com a evasão de divisas’.

‘Ódio represado’

Mas, contrariando o show de futilidades das entrevistadas pelo Estadão, houve uma voz feminina na imprensa que chegou a fazer piada sobre o assunto. A colunista Danusa Leão, com sua crônica de quinta-feira (14/7): ‘As chiquérrimas estão sem rumo e quase de luto: onde vão fazer suas compras, onde encontrar os modelitos Prada e Gucci, onde passar suas tardes, como ocupar seus pensamentos, se a razão de suas existências era a Daslu? Mas elas não precisam se preocupar, pois a Daslu não vai fechar’.

E, de quebra, faz uma análise mais séria desse deslumbramento com a Daslu quando escreve:

‘Sempre haverá os que gostam e podem comprar coisas caras e luxuosas; mas os tempos estão mudando, e só não vê quem não quer. Passou a fase da exibição e da ostentação, e, nos dias de hoje, só os que têm pouco dinheiro querem parecer ricos; os ricos mesmo fazem tudo para parecer pobres. As verdadeiramente elegantes dizem que o vestido que usam foi comprado há 15 anos.Como consolo, as chiquérrimas podem lembrar do que dizia Chanel, que foi paupérrima e se tornou um ícone da moda: que o oposto do luxo não é a pobreza, mas a vulgaridade’.

Enquanto as mulheres falavam da perda e da injustiça, os homens puxaram a história para o lado político, tentando mostrar que mais grave que os erros da empresária é a ideologia da imprensa. E não foram poucos.

Na coluna de Cesar Giobbi de 14 de julho (O Estado de S. Paulo): ‘Foi a vez da Daslu, o templo do luxo, contra o qual é represado o ódio da esquerda mais radical. O afã de levantar poeira para desviar a atenção das mazelas do governo Lula e do PT são evidentes’.

Menino de cabelos Channel

A esquerda também é o alvo no artigo de João Mellão Neto ‘Luxo não é caso de polícia’, publicado no Estado (15/7) onde, a certa altura, acaba voltando sua ira contra os jornalistas, ao falar da excelente matéria sobre a favela vizinha da Daslu:

‘Qual não foi minha surpresa ao constatar que, por uma parte da imprensa, a nova Daslu foi recebida com reservas, escárnio e até indignação… Eu acreditava que o comunismo havia sido definitivamente enterrado nos escombros do Muro de Berlim. Não imaginava que ainda houvesse tanto rancor esquerdista por aqui. Pois os órfãos do marxismo ainda vivem. E uma parte deles assombra as redações de nossa imprensa. O discurso fácil do ressentimento ainda comove alguém? Parece que sim. Que a Daslu pague o que eventualmente deve ao fisco. Mas, feito isso, que finalmente a deixem em paz’.

Quando o articulista pede que deixem a Daslu em paz, talvez não esteja levando em conta que talvez a imprensa esteja apenas usando seu direito de informar, desta vez sem ser manipulada pelo marketing da loja.

O perigo é a imprensa continuar a ser manipulada, desta vez por outro marketing que desponta, o do jovem promotor do caso Daslu, com seu ar de menino e seus cabelos com corte Channel.

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