Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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JORNAL DE DEBATES >

A deformação estrutural da imprensa

Por Alberto Dines em 29/02/2012 na edição 683

 

Crítico de cinema também é jornalista? As avaliações, resenhas e coberturas da cerimônia do Oscar revelam algo surpreendente: a grande maioria dos que escrevem sobre cinema não se sentem jornalistas, não reagem como jornalistas e, obviamente, não foram tocados pela maravilhosa alegoria contida no premiado O artista – uma celebração da perenidade da arte quando desafiada por novas tecnologias. Jornalismo também é arte; o que vale para o cinema, vale também para a imprensa.

O uso de venerandas linguagens abandonadas há oitenta anos foi um recurso para tornar mais contundente a motivação inovadora. A nostalgia pode ser revolucionária, essa é exatamente a mensagem do filme. Pelo menos para este observador. Seus autores pretendiam algo mais do que a história de um astro do cinema mudo que não se ajusta aos talkies.

Não se trata de um drama particular dentro de um ofício – neste caso o título seria O Ator. A ideia era transcender a crise produzida pela introdução do som no cinema e gerar uma provocação válida para qualquer gênero artístico quando ultrapassado pelo progresso tecnológico. Charlie Chaplin também não se adaptou àqueles tempos ditos modernos e produziu um hilariante e perturbador questionamento sobre a imposição da modernidade.

O artista é uma convocação a todos os artistas, inclusive àqueles que não se reconhecem como tal, para servir-se da tecnologia sem convertê-la em divindade inquestionável. Os convocados são os músicos, poetas, fotógrafos, pintores, escultores, atores, escritores e naturalmente jornalistas. É uma metáfora sobre o desafio que artes e artistas enfrentam há milênios quando a sua forma de expressão é repentinamente ameaçada ou transformada por fatores exógenos.

Película humanista

Como aqui já foi dito (ver “Dois filmes sobre filmes – A metáfora é o jornalismo”), O artista é um exercício generalizado de autoestima e devoção artística. Tal foi o empenho em sua realização que poucos escapam dos efeitos deste gostoso gostar coletivo.

O cinema é a matriz e ponto culminante do show business. Não se ilude e não ilude: é negócio, visa lucros, lucros fabulosos, e não obstante tem funcionando como um fabuloso gerador de emoções, prazeres e também ideias.

Hollywood entrou na Segunda Guerra Mundial muito antes da Casa Branca. A crise financeira de 2008 já produziu no cinema importantes representações (ficcionais e/ou documentais) que a mídia noticiosa sequer tenta emular, atropelada pela velocidade e pela fragmentação que ela própria gerou.

A grande verdade é que a imprensa não se estima porque não se encontrou. Não se reconhece. Suas insuficiências tornam-se cada vez mais visíveis – e não apenas para os críticos de mídia. O que era uma crise de identidade transforma-se aos poucos em deformação estrutural. Hoje, o padrão de excelência em jornalismo já não se mede pela escrita, pela coragem moral ou pela ousadia intelectual, mas pela versatilidade em usar novas tecnologias.

O artista é renascentista. Ou, se quisermos, humanista. Faz bem porque soma, incorpora o passado com suavidade e abre um sorriso para o futuro.

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