Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > CAIXA DE PANDORA

A deturpação da grande mídia

Por Gustavo Henrique Freire Barbosa em 08/12/2009 na edição 567

O uso da má-fé por parte de alguns dos nossos maiores meios de comunicação definitivamente não atende pela chamada sutileza.

Recentemente, o presidente Lula se pronunciou acerca das denúncias envolvendo o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do partido Democratas. Inquirido por jornalistas, o presidente afirmou não ser o momento adequado para que se realizassem juízos de valor acerca do episódio, principalmente por alguém que ocupa o cargo de líder maior da nação.

Eis o que Lula disse:

‘Não, mas vamos aguardar. Imagem não fala por si. O que fala por si é todo o processo de apuração, todo o processo de investigação. Quando tiver toda a apuração, toda a investigação terminada, a Polícia Federal vai ter que apresentar um resultado final, um processo, aí anuncia. Aí você pode fazer juízo de valor. Mesmo assim, quem vai fazer juízo de valor final é a Justiça. O presidente da República não pode ficar dando palpite, se é bom, se é ruim. Vamos aguardar a apuração.’

O teor das declarações do presidente é óbvio: manifestou-se sobre o assunto sem, todavia, adotar lado algum. A declaração de Lula, explicitamente, não diz nada. É um vácuo de informação, apesar das imagináveis convicções pessoais que deve nutrir no que diz respeito ao assunto. Em resumo, colocou o presidente que não queria dar sua opinião sobre o episódio. Nada mais.

As heróicas trincheiras da ética

Todavia, comum foi encontrar em portais de notícias manchetes tais quais ‘Mensalão do DF: Lula diz que imagens não falam por si’, em um notório esforço de alçar Lula à condição de advogado do diabo, de aguerrido defensor dos acusados. Algo no mínimo ilógico.

Primeiramente pelo fato de Lula não ser compartidário de Arruda, não alimentar política e administrativamente relações com o mesmo e fazer parte de uma sigla histórica, ideológica e politicamente oposta à do governador do DEM, conferindo caráter insuspeito às suas manifestações.

Não há também como se observar qualquer motivação política, pessoal ou de qualquer outra ordem que viesse a impelir o petista Lula a deixar de lado as suas tradicionais e atuais divergências político-partidárias com o demista Arruda e, em um inexplicável lampejo de solidariedade e altruísmo, sair inusitadamente em sua defesa quando o governador se encontra cercado não só pela opinião pública, mas pelos seus próprios colegas de partido.

As manchetes conduzem a um claro objetivo: ressaltar a frouxidão ética do presidente, que, de tão notória, não se avizinharia apenas aos seus iguais, mas também aos seus opostos, mostrando que sua falta de compromisso com a ética não tem cor, bandeira ou partido. Satisfaz a lascívia do presidente se portar de maneira aética, defendendo odiosos deturpadores da ordem indiferentemente de suas agremiações, apenas por compartilharem com ele a desvairada e contumaz admiração por condutas contrárias à moralidade. Ao passo disso, a ira e o inconformismo de nomes como Demóstenes Torres e José Agripino Maia com as denúncias deixam claro quem, de fato, compõem as heróicas trincheiras da ética. Veicularam, inclusive, uma suposta declaração do senador potiguar de que se Arruda não saísse do DEM, saía ele. Um primor.

Uma tradicional idiossincrasia

Utilizando-se do comum expediente da pesca de palavras ou afirmações retirando-as de seu contexto e lhes concedendo roupagem mais conveniente aos seus fins, deram outro sentido às indagações do presidente. De uma postura neutra, passou o mesmo a compor as dependências do Álamo de Arruda. Pura má-fé, de níveis absurdos e estratosféricos, mas muito comum na imprensa nacional.

O mais interessante é que, se o presidente tivesse observado o episódio como uma oportunidade para achincalhar o governador e o seu partido, provavelmente veríamos matérias no sentido de que Lula estaria se aproveitando do acontecido para dele extrair dividendos políticos. Seria corrente a afirmação por parte dos capatazes da mídia mainstream de que postura como tal não é digna de estadistas, pois incongruente com os protocolos presidenciais – protocolos estes tão comumente quebrados pelo presidente e razão das maiores críticas e regozijos por parte destes mesmos vassalos –, deselegante que é se aproveitar politicamente de tais desvios, antes, inclusive, da apuração dos fatos, apesar das avassaladoras imagens divulgadas.

Lula sabe disso. Sabe que não é interessante para o presidente da República dar entrevistas ou depoimentos com tais finalidades. Sabe que o protocolo referente à instituição cujo cargo ocupa desaconselha o aproveitamento político das acusações feitas a adversários políticos. Tanto que, no trecho acima reproduzido, fez o presidente menção à presidência da República enquanto instituição demandante de uma conduta neutra, comedida e discreta: ‘O presidente da República não pode ficar dando palpite, se é bom, se é ruim’. Lula pode metralhar quem for, sem dó nem piedade como já tanto fez; o presidente da República, não.

O senador José Agripino declarou ao portal Nominuto.com que ‘o assunto merece esclarecimentos maiores’. O senador, entretanto, foi categórico quanto ao seu posicionamento: ‘Mas só quero me manifestar quando isso tudo for devidamente explicado.’ O cerne da afirmação do senador é o mesmo da do presidente Lula: a escusa em manifestar qualquer juízo de valor. Ambos evitaram se posicionar prematuramente, no calor das denúncias e antes das apurações finais. Que Arruda tem seu naco de responsabilidade nas acusações qualquer um sabe, mas não fica bem para o presidente se aproveitar politicamente do episódio nem para o senador atirar contra um compartidário de forma tão açodada. Optaram, então, por não se posicionar, cientes, contudo, da culpabilidade do governador.

No entanto, as chances do também democrata José Agripino ser rotulado como defensor de Arruda se situam entre nulas e inexistentes, diferentemente de Lula que, por evitar falar, foi dito como quem falou. Uma notável e tradicional idiossincrasia da mídia brasileira.

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Acadêmico de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN

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