Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

A doença infantil do jornalismo intensivo

Por Fausto José de Macedo em 22/04/2008 na edição 482

Em psiquiatria, se conhece o processo que torna agudo os sintomas de esquizofrenia. Isso vale para uma pessoa. No caso de uma doença social que atinja milhares de pessoas convergindo a uma situação de surto, isso também pode ser descrito e isolado desde que se tenha uma visão crítica do episódio, o que não ocorre com um indivíduo acometido da chamada esquizofrenia e muito menos no descontrole social que pode degenerar um fato excepcional – como a queda de um avião, ou o assassinato de uma criança, para descrever apenas dois fatos excepcionais em que ocorre um surto jornalístico de cobertura intensiva e devastadora.

Outros exemplos mais ou menos remotos podem ser escolhidos no noticiário. Assim ocorre com a dengue no Rio de Janeiro, ocorreu nas coberturas de escândalos como no caso do mensalão. Isto posto, acompanhemos por um momento, com isenção de ânimo, o caso da cobertura histérica que se dá ao caso de assassinato da pequena Isabella Nardoni, na zona norte paulistana.

Não é possível permanecer um mínimo de meia hora sem que toda a mídia não venha a começar a falar deste caso. É acachapante: basta ligar a televisão, pode ser uma rede não acostumada a cobertura intensiva dos acontecimentos, e lá está se falando à exaustão do fato, dos personagens, das investigações, das testemunhas, disso e daquilo correlato ao caso.

Na quarta-feira (16/4) houve ameaça de descontrole da multidão que cerca a casa dos Nardoni e foi clara a sensação de linchamento dessa família, independentemente se sejam machistas, frios, calculistas e venham a se revelar um bando acoitador de assassinos ou outra coisa diferente.

Bom senso já

E as pessoas, todas, acometidas de um delírio crescente, passam a fomentar formas de justiçamento noticioso em cenas de farisaísmo explícito como há muito tempo não se via em um caso policial. Espero, sinceramente, como jornalista, que essa fase de infantilidade que acomete todos os personagens ligados direta ou indiretamente (e são milhões) ao caso seja um episódio superável e de necessária existência para que possamos de esta parte a alguns anos rir dessa insanidade que toma conta do circo da notícia.

Pode ser trágico, mais ainda do que estamos assistindo nesta fase de inquérito. Nesse sentido, ultrapassamos de muito a histeria inicial do caso da Escola Base, que já deveria ter significado um passo para que nossa imprensa superasse seu infantilismo, mas… Bom senso já, colegas jornalistas.

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Jornalista, São Paulo, SP

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