Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

A dupla quer voltar a Bagdá

Por Luisa Alcantara e Silva em 25/05/2004 na edição 278

Em coletiva dada na Oboré, em São Paulo, no dia 8 de maio, os jornalistas Sérgio D’Ávila e Juca Varella falaram sobre como foi a cobertura da Guerra do Iraque, em 2003. Eles foram os únicos jornalistas brasileiros a estar lá; chegaram a Bagdá a tempo de ver as primeiras ofensivas norte-americanas, presenciaram a queda do regime iraquiano, no dia 9 de abril, e voltaram ao Brasil em 20 de abril. O problema principal com que eles se depararam foi a falta de segurança, ‘logo seguida da falta de dinheiro’, como contou D’Ávila.

Os enviados da Folha de S. Paulo disseram que as dificuldades começaram já no Brasil. ‘Logo de cara lidamos com a hipótese de morrer. Além de irmos para uma guerra, tivemos que tomar 12 vacinas em um dia’, informou D’Ávila, pois no Oriente Médio ainda existem doenças que já foram erradicadas do Brasil. ‘Teve também o problema do visto, que foi muito difícil para conseguirmos. Insistimos tanto com a embaixada iraquiana que eu acho que eles se cansaram de nós e acabaram dando (o visto)’, continuou o jornalista.

Varella, responsável por mais de 3 mil fotos clicadas, falou dos cursos que tiveram que fazer: ‘Passamos 10 dias na Argentina, e fomos preparados para algo bem próximo do que foi na realidade’. Um episódio que marcou D’Ávila foi quando terminaram um outro curso adaptado a jornalistas, dado por PMs brasileiros, e os policiais rezaram um Pai-Nosso: ‘Juca, o negócio é sério’, espantou-se o repórter.

No Hotel Palestine

Varella mostrou o colete à prova de fuzil, o capacete e a máscara contra resíduos químicos, equipamentos que tiveram que levar e que contribuíram para o encarecimento da tarefa. Para burlar o controle na alfândega iraquiana, os dois foram favorecidos por uma barra de chocolate que estava na mala: ‘Estávamos com um celular satelital, que é proibido por lá. A nossa sorte foi que, ao oferecermos o chocolate ao policial, ele nos liberou, sem ter visto o telefone’, contou D’Ávila. Além de tudo havia três condições para que eles pudessem ir: não serem judeus, não terem estado em Israel e não serem HIV positivo. Passaram por todas.

A última vez que um jornal brasileiro mandou uma dupla repórter-fotógrafo para cobrir guerra foi na Guerra do Golfo (1991), com William Waack e Hélio Campos Melo. Para ter mais conhecimento sobre o desafio, D’Ávila e Varella leram muito, pesquisaram e falaram com jornalistas, tanto brasileiros como estrangeiros, que já haviam realizado essa tarefa.

Saíram daqui no dia 16 de março e, na fila do aeroporto de Londres, onde fizeram escala, foram avisados que o vôo ia para um possível lugar de guerra. ‘Foi o vôo mais vazio de nossas vidas’, lembrou D’Ávila. No dia 17 de março, Bush havia dado o ultimato para Saddam Hussein se render; 2 mil jornalistas estavam em Bagdá. Apenas 180 ficaram ao estourar a guerra. Na noite do dia 18 chegaram à Jordânia e conseguiram então alguém que os levasse a Bagdá. ‘Todos os carros vinham em sentido contrário ao nosso, indo embora de Bagdá’.

Varella e D’Ávila chegaram ao Hotel Palestine (Bagdá) na madrugada no dia 19, pouco antes do início do bombardeio. O fotógrafo disse que ‘o primeiro sinal de que o terror estava começando foi o som de uma sirene e, logo depois, vimos os primeiros mísseis atingirem a cidade’. Com sua máquina, conseguiu registrar as explosões desde o início, pois, estudando uma planta de Bagdá, conseguiram achar uma lógica nos ataques.

Pauta cara

‘Enviei a foto que tirei da primeira explosão, e o pessoal da redação me perguntou se eu havia fotografado só aquele foguinho… foguinho no primeiro dia, depois eram grandes explosões’, disse Varella. Com os ataques, sentiam o prédio em que estavam chacoalhar. ‘Dava muito medo, era um barulho horrível e estragos terríveis.’

Os 180 jornalistas que lá estavam, todos no mesmo hotel, só saíam quando vinha um ônibus do governo iraquiano. ‘Saíamos do Palestine sem saber para onde íamos. O ônibus nos levava e, sem que nós entendêssemos, parava em algum lugar, ou em hospitais, onde havia muitas crianças feridas, ou em lugares atingidos por mísseis’, afirmou D’Ávila. Os dois ainda disseram que a população os tratava muito bem, apesar de poucos saírem de casa ou do abrigo antiaéreo em que ficavam para se proteger.

Sobre o fato de serem brasileiros? ‘Como jornalistas, tínhamos as mesmas chances de qualquer outro jornal’, disse D’Ávila, ‘o que praticamente inviabilizava o furo jornalístico. O governo tratava a gente com menos importância, pois nosso país não tinha influência na guerra’. Porém, Varella lembra de uma passagem em que sua nacionalidade ajudou. ‘Queríamos entrar em um prédio e não tínhamos a credencial que dava esta permissão. Conversando com o segurança do local, dissemos que éramos do Brasil e ele falou que havia namorado uma garota do Ceará. Logo depois, deixou que entrássemos’. Além deste episódio, Varella disse acreditar que ‘o boné com o símbolo do Brasil dava mais segurança que o capacete’.

Sobre a publicação dos textos, D’Ávila disse: ‘Do ponto de vista da liberdade era um sonho, ninguém da redação me perguntava nada. Os meus textos foram publicados na íntegra, era eu quem decidia o que ia sair ou não’. Durante o período em que estiveram lá, foram publicados 100 textos de D’Ávila e 68 fotos de Varella nas edições da Folha. A dupla, que prometeu voltar a Bagdá um ano depois de acabada a guerra, continua com este objetivo; ainda não voltaram porque o jornal não permite, por questões de segurança e por ser uma pauta cara.

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Estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, São Paulo

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