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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES 2010

A eleição da internet

Por André Faust em 03/08/2010 na edição 601

Um raro evento marcou um fim de tarde de verão em 2003 na maior loja de brinquedos do mundo, a Toys `R´ Us, da Times Square, em Nova York. Faltando pouco para o fim do expediente, um grupo de mais de 300 pessoas foi visto se aglomerando, de súbito, ao redor de um tiranossauro rex mecânico de mais de 3 metros de altura. Uma vez reunidos, os visitantes ficaram imóveis e, em silêncio, contemplaram a figura do dinossauro durante exatos 3 minutos. Em seguida, já de joelhos, eles passaram a responder, com gritos, aos rugidos mecânicos do bicho. Assustados, funcionários da loja trataram de desligar as engrenagens. E de chamar a polícia. Em segundos, como se nada tivesse ocorrido, a pequena multidão se dispersou.

Organizado por correntes de e-mail, o episódio acima é um dos primeiros flash-mobs, ou ‘aglomerações instantâneas’, de que se tem notícia. Em pouco tempo, reuniões desse tipo viraram mania em várias partes do mundo. O despropósito e a aparente falta de sentido desses primeiros eventos, porém, escondiam uma mensagem de grande significado para os novos tempos: a de que a internet possui, afinal, poder de mobilizar as massas. E mais: se serviu para reunir desocupados em torno de um dinossauro de ferro e silicone, poderia servir para qualquer coisa.

Larga experiência em tecnologia e redes sociais

A campanha presidencial de Barack Obama em 2008 foi a primeira grande demonstração do poder de mobilização e do uso efetivo da internet para fins eleitorais. Com uma rede de 750.000 voluntários, mais de 300 milhões de dólares arrecadados e páginas populares em redes sociais, como o Facebook e o MySpace, o sucesso de Obama na web passou a ser a referência obrigatória para qualquer campanha eleitoral. O Brasil, nestas eleições, não será exceção. Também por aqui nunca houve tanta expectativa em torno do uso da internet em um pleito presidencial. Os motivos são vários. O número de eleitores com acesso à rede mais que dobrou desde 2006, passando para mais de 67,5 milhões. A conectividade também cresceu – os internautas brasileiros hoje têm forte presença em redes sociais que, como o Twitter, ainda davam seus primeiros passos em 2006. A estrutura das campanhas online se profissionalizou – estima-se que as duas maiores custem em torno de 4 milhões e 7 milhões de reais cada uma. Mas o principal motivo para o acirramento de ânimos é outro: alterações na legislação eleitoral que garantem, pela primeira vez, o uso amplo da internet nas campanhas. O envio de e-mails em massa para eleitores está liberado. Não há restrições quanto à realização de debates entre candidatos na rede. E a propaganda de campanha, antes restrita aos sites oficiais das candidaturas, agora pode ser feita por qualquer um em blogs ou redes sociais.

Prever como se dará a primeira experiência real de cruzamento entre política e estratégias de internet no país não é tarefa fácil. ‘O maior impacto deverá ocorrer no nível organizacional, quando se incluem voluntários e colaboradores na campanha’, afirma Randolph Kluver, professor da Universidade Texas A&M e coautor de um estudo comparativo de campanhas online de dez países. O palpite bem poderia ter sido feito por qualquer um dos responsáveis pelas campanhas digitais de José Serra, Dilma Rousseff ou Marina Silva nestas eleições. Além de expectativas modestas em relação ao papel da internet, os três trazem em comum uma larga experiência em tecnologia e redes sociais – e nenhuma nos meandros eleitorais. O resultado disso, em termos de visão estratégica, não poderia ser outro. Poucas vezes no terreno da política se viu tanta unanimidade quanto a que parece existir nas táticas das campanhas digitais dos principais candidatos à presidência deste ano.

‘Procuramos atingir em especial jovens’

Sócio licenciado de uma agência de comunicação digital que tem no portfólio campanhas para empresas como LG, Deca e Intel, Sérgio Caruso é o homem à frente da candidatura de José Serra na internet. De São Paulo, ele coordena uma equipe que tem como missão principal disseminar as mensagens do candidato entre os internautas – estejam onde estiverem. A ideia é que o site oficial funcione como irradiador de conteúdo, que pode ser desdobrado em mais de 250 canais e redes sociais, tanto por perfis oficiais quanto por voluntários. ‘Queremos que os simpatizantes levem nossa mensagem para as comunidades de que participam, e não criar uma nova rede ou fazer com que eles tenham de vir a nosso site’, diz Caruso.

Outro pilar da estratégia tucana é o Mobiliza PSDB, um portal criado para estimular todo tipo de colaboração voluntária – seja alimentando simpatizantes de informações sobre o candidato, seja oferecendo manuais para tornar mais efetiva a distribuição da mensagem serrista na rede. Os eleitores são estimulados a clicar no botão ‘Gostei’ e a comentar vídeos no YouTube, por exemplo. Assim, a candidatura tenta diminuir parte da relativa vantagem normalmente atribuída ao PT nos quesitos militância organizada e engajada. Os resultados já animam a equipe. ‘Chegamos a receber e-mails de voluntários que, como se fizessem parte do time oficial, pedem desculpas por ausências durante as férias’, afirma Caruso.

Com apenas 1 minuto e 20 segundos de tempo diário na TV – menos de um quarto de seus principais adversários –, a campanha de Marina Silva quer usar a internet para compensar a pouca exposição a que terá direito nas mídias tradicionais. Para essa missão o escolhido foi o jornalista Caio Túlio Costa, ex-presidente do iG e um dos fundadores do UOL. O site oficial, o Minha Marina, é a grande face pública da campanha (a semelhança com o MyBarackObama, um dos alicerces da estratégia do então candidato democrata, não é mera coincidência). A ideia é organizar e atrair simpatizantes em torno de uma espécie de rede social própria. ‘Procuramos atingir em especial jovens que já se identificam com a mensagem e que passam bastante tempo na internet’, diz Costa. A inspiração nesse caso vem das últimas eleições presidenciais da Colômbia, onde Antanas Mockus, candidato do Partido Verde, conseguiu, com estratégias de grande penetração entre os jovens, saltar de 3% de intenções de voto para um lugar na disputa do segundo turno.

O primeiro grande teste

Após muito barulho e meses flertando com integrantes da campanha digital de Obama em 2008, a candidatura Dilma Rousseff entregou a Marcelo Branco, ex-diretor da Campus Party (o maior evento de tecnologia do país), o cargo de estrategista de redes sociais. Uma das principais apostas da campanha de Dilma é estimular a produção de conteúdo sobre a campanha pelos próprios apoiadores em seus blogs e redes sociais. A ordem é descentralizar – mesmo que isso signifique, na prática, abrir mão de parte do controle sobre os rumos da campanha. ‘Sugerimos pontos que podem ser abordados, mas não podemos definir o que vai ser feito pelos apoiadores’, diz Branco. ‘O espaço é deles.’ Essa postura também significa admitir, por exemplo, que um post favorável de um blogueiro de audiência cativa no Nordeste do país pode ter mais eficácia do que os canais oficiais. ‘A expectativa é de que a audiência dos espaços voluntários na web somados supere de longe os oficiais’, diz Branco.

Como tudo o que envolve mudanças em processos do porte de uma eleição presidencial, porém, uma dose de realismo nunca é demais. No quesito doações pela internet, por exemplo, as diferenças em relação às eleições americanas são significativas. Enquanto nos Estados Unidos a arrecadação começa na pré-campanha, no Brasil a legislação permite doações apenas nos três meses de campanha oficial. A predominância de estratégias que valorizam a mobilização e a expectativa criada em torno da qualidade dessas contribuições, por outro lado, também podem ser fonte de frustrações. Não há como excluir aspectos culturais dessa conta. Segundo a com-Score, empresa americana especializada em pesquisas sobre internet, apenas 2% dos internautas brasileiros acessam páginas de conteúdo político. Nos Estados Unidos, a proporção é de 9,8%. Não há dúvida de que o Brasil irá passar neste ano pelo primeiro grande teste do poder de mobilização das redes. Resta saber se já com força para ajudar a eleger alguém presidente – ou se ainda no estágio loja de brinquedos.

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