Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > VOZ DAS URNAS

A eleição passada a limpo

Por Alberto Dines em 04/10/2010 na edição 609

Na sua derradeira manifestação eleitoral, o presidente Lula voltou a atacar a imprensa. Na carreata do sábado (2/10) em São Bernardo do Campo (SP), o presidente acusou aqueles que confundem liberdade de imprensa com autoritarismo da imprensa.


A declaração é infeliz por dois motivos: porque não consegue disfarçar um ressentimento algo autoritário e porque, além disso, é extemporânea, impertinente. Numa segunda leitura fica escancarada a tática de atacar a imprensa como recurso preventivo quando se sente em desvantagem.


É evidente que àquela altura o presidente já fora informado pelos especialistas em sondagens de que a possibilidade do segundo turno era concreta, tanto assim que na manhã seguinte, ao votar, admitia abertamente esta possibilidade. Significa que o confronto governo-imprensa era falso, mero pretexto para colocar a disputa entre os principais candidatos em segundo plano.


Mais pluralismo


O recurso não honra a celebrada e comprovada sagacidade do presidente que encerra um importante embate eleitoral – talvez um de seus últimos – compartilhando atitudes de aliados em países vizinhos sem a sua biografia, estatura e atributos. Para usar uma metáfora futebolística, o presidente saiu contundido desta partida tanto por este fecho como pelo desfecho estatístico-eleitoral.


Por outro lado, também ficou claro que a imprensa brasileira precisa se reentender e se reinventar. Ela é panfletária, mesmo quando se dispõe a investigar e a denunciar ilícitos ou malfeitorias. Ela precisa desvencilhar-se dos cacoetes marqueteiros da última década que só valorizam a banalização e a fragmentação.


Pouco adianta que jornais e revistas agora reclamem da ausência de debates sobre idéias e programas no primeiro turno. Os responsáveis por esta insensibilidade e indiferença são os próprios jornais e revistas que habituaram os leitores a um jornalismo raso, montado dentro dos paradigmas do espetáculo e do entretenimento.


Se a mídia critica uma arrogância do presidente no tocante ao seu desempenho, esta mesma mídia precisa despojar-se da onipotência para começar a conviver com a crítica e o conceito de pluralismo.


Obsessão pelo pesquisismo


A idéia de um organismo autorregulador é positiva, mas insuficiente. As gestões que o presidente do Senado José Sarney começou a fazer nos últimos dias para ressuscitar o Conselho de Comunicação Social são mais que bem-vindas. Ele o liquidou, cabe a ele devolver este importante órgão ao convívio institucional.


O que não pode ser esquecido nestas primeiras avaliações é que a pesquisite e o pesquisismo sofreram um sério revés, alguns institutos de opinião mais do que outros. De qualquer forma, ficou claro que a obsessão da mídia pelas sondagens terá que ser refreada na cobertura eleitoral. Ou os entrevistadores não souberam escolher os entrevistados para compor tendências ou os entrevistados enganaram os entrevistadores. O que parece mais provável.


A disputa eleitoral vai ser passada a limpo. Isto é ótimo. Desde que não seja uma reprise.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/10/2010 Rodrigo Cardozo

    Alberto Dines foi,como de costume,muito preciso na sua análise.Com serenidade e lucidez expõem os interesses e erros cometidos dos dois lados,mídia e governo.Mesmo assim,alguns distorcem e preferem fingir que não entenderam o que está escrito.Chegam até à constatação delirante de que havia disposição crítica naquilo que Lula disse sobre a imprensa,e não um explícito interesse eleitoral.Enfim,cada um tem o direito de acreditar no que quiser,até mesmo num Presidente supostamente mais preocupado em corrigir os desvios da imprensa do que em ajudar sua candidata a ser eleita.

  2. Comentou em 04/10/2010 jaime hofliger

    A mídia, segundo o articulista, precisa se reinventar porque é panfletária, marqueteira, banaliza e fragmenta a informação, é a responsável pela indiferença do leitor por força de um jornalismo raso e espetaculista; pensa ser onipotente, não aceita crítica. Crítica foi o que o Presidente fez. Eu só queria entender.

  3. Comentou em 04/10/2010 Newton Alberto Chaves da Silveira

    Bom dia, Dinses.
    Gostaria de saber por que será que toda a vez que um político se refere à imprensa (do Brasil), defendendo-se de injúrias/difamações (merecidas ou não), vem a acusação de que está atentando contra a liberdade de imprensa/expressão ou contra a Democracia Brasileira? Será que não há nada por trás disso? A liberdade só vale para a imprensa e não para o cidadão?
    Nos EUA o Presidente Obana disse que um grande jornal (de lá) estava se comportando como um partido político e que não deveria agir daquela forma. Nem por isso ele foi acusado de atentar contra a democracia de seu país e o jornal não se sentiu tolhido de sua liberdade de expressão. Aqui, a nossa grande imprensa(mídia) só quer liberdade, de uma via, só para ela,Lembram-se o que essa mesma imprensa(principalmente a Veja) fez com o Ibsen Pìnhero? E mais recentemente, o que ele realmente tem feito, como imprensa livre, para o povo brasileiro,? Muito pouco. Pois está preocupada em atender aos interesses/mazelas de seus patrióticos patrões/clãs midiáticos. Coitados dos jornalistas(?) que estão vendendo as suas conciências para agradá-los., atendendo a estes grupelhos que se assenhoriaram das comunicações no Brasil. Que liberdade eles querem? é só para eles? Então tá.

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