Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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JORNAL DE DEBATES >

A encruzilhada de uma profissão

Por Antonio Oliveira em 28/09/2004 na edição 296

Os donos de jornais (que sempre têm atrás de si redes de tevê, rádio, internet e empresas de construção civil ou megaempresas agroindustriais – só para citar alguns exemplos) transformaram a posse da diretoria da Associação Nacional de Jornais (ANJ) em palanque para atacar os profissionais que eles mais odeiam, os jornalistas, e sua idéia de organização pela criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ). E sentenciaram que a proposta só tem um destino: o arquivamento pelo Congresso Nacional. Fingem atuar em defesa de uma liberdade de imprensa e de opinião com a qual suas empresas nunca se preocuparam.

Os jornalistas brasileiros estão diante de uma encruzilhada histórica da qual só sairão vivos como profissionais se tomarem as ruas para garantir a criação do Conselho.

A ousadia dos patrões nos seus ataques para acabar com a profissão foi escancarada desde que o governo assumiu a luta da categoria e encaminhou ao Congresso uma antiga reivindicação para a criação do CFJ.

Um cálculo feito por um dirigente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), nos primeiros dias da discussão do assunto, mostrou nos jornais 70 artigos encomendados pelos patrões, contra apenas um de um jornalista defendendo o Conselho.

Este levantamento acabou sendo uma amostra aos olhos da população sobre o tipo de liberdade e de democracia que os patrões defendem.

Temos hoje, do Sul ao Norte do país, grandes e médias empresas de comunicação que pagam salários de miséria aos jornalistas (no Rio Grande do Sul, o mínimo profissional é de R$ 1.060) e empregam falsos profissionais para lucrar ainda mais. Esta é uma realidade que o Conselho vem para mudar.

Os donos da mídia vivem falando das dificuldades que enfrentam. Mas, ao lado das suas empresas de comunicação, com o dinheiro que arrecadam explorando o trabalho mal pago dos jornalistas, erguem impérios da construção civil e modernizam a produção agroindustrial em seus latifúndios.

Não é nas empresas dos patrões que vamos juntar forças nesta luta. A Fenaj e os sindicatos têm que pôr os jornalistas e estudantes nas ruas das principais cidades brasileiras, no contato direto com a população e com os parlamentares, para mostrar a todos os demais trabalhadores a justeza das suas reivindicações.

Bico’ para os amigos

Só o sucesso no trabalho das entidades sindicais pela criação do CFJ garantirá que os estudantes de hoje tenham mercado para trabalhar em jornalismo amanhã. Por isso, é no mínimo estranho o silêncio que mantêm até agora sobre o tema as universidades e as instituições que representam seus professores e estudantes.

Os patrões das empresas de comunicação social, que primeiro lutaram para que a profissão não fosse regulamentada, estão na Justiça para impedir que os jornalistas necessitem de um diploma de curso superior para exercer suas atividades. Para eles, serve qualquer escriba, desde que defenda seus capitais.

A eles não interessa a qualidade da informação que levam à população, pois quanto menos qualificada esta informação, mais fácil torna-se a manipulação da sociedade para efeitos dos seus desejos espúrios e dos grupos políticos aos quais servem de testas de ferro. Esta é a liberdade que defendem.

Sem o CFJ, os estudantes de Comunicação Social de hoje podem partir à procura de outro caminho profissional, pois o jornalismo se consolidará, definitivamente, como só um ‘bico’ para os amigos dos patrões, que não precisarão de uma formação específica.

Imperdoável

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que antigamente defendia a profissão, hoje alinhou-se com os patrões e seu atual presidente confessou em discurso em Porto Alegre que contra as empresas não adianta mais lutar.

Mas este é o pior caminho. O futuro dos jornalistas está num conselho forte, eleito pela categoria, que faça uma profunda averiguação da situação profissional de cada um que ocupe um posto de jornalista nas redações.

Se for falso jornalista, que seja eliminado do mercado. Como seria feito com um falso médico, um falso dentista, um falso engenheiro, um falso contador etc.

É lamentável que uma minoria de jornalistas, que alcançou posição de destaque, tenha optado pelo comodismo da defesa dos seus altos salários e, bancando os porta-vozes dos patrões, jogado às traças o futuro da profissão. E assim tem atuado contra os estudantes de Jornalismo e as lideranças sindicais das instituições de defesa da categoria.

A história da nossa categoria nunca perdoará, por exemplo, as insinuações do presidente da ABI, de que a Fenaj é uma entidade menor e não representa os jornalistas.

******

Jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul e ex-dirigente da Fenaj

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