Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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JORNAL DE DEBATES >

A entrevista-emoção ao Fantástico

Por Ivo Lucchesi em 22/04/2008 na edição 482

É inegável que a Rede Globo conseguiu romper o cerco de silêncio, ao exibir, na edição do Fantástico de domingo (20/4), uma entrevista com os indiciados pelo assassinato de Isabella Nardoni. Sob o ponto de vista do chamado ‘furo jornalístico’, uma vez mais a TV Globo demonstrou o poder de suplantar qualquer concorrente.


Sabedor, de longa data, da máxima instituída por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (o Boni) de que a televisão deve provocar uma relação afetiva com o público, já supunha que a prometida entrevista viria carregada de emoção. Toda a programação concebida pela Rede Globo (e copiada pelas demais emissoras) tem de priorizar alta carga de emoção (essa é a palavra mágica). Telejornalismo, show, novelas, programas de auditório e coberturas outras devem ser capazes de injetar, no receptor, intensa dose de emotividade. Não importa que a gama de emoções possa adulterar verdade, distanciamento crítico ou objetividade. Tentemos, pois, compreender o que norteou a semiotização da entrevista.


Emoção sem perturbação


Primeiramente, destaque-se a duração da entrevista. Além de ocupar um bloco inteiro, ainda prolongou-se, com direito a intervalo, para outro tanto. Tempo, portanto, não faltou para fazer ao casal uma pergunta embaraçosa. Nada. O repórter foi incapaz de promover uma pergunta que, diante do já apurado, pudesse produzir alguma inquietação em qualquer dos dois entrevistados.


O que se viu, todo o tempo, foi uma madrasta chorosa que, segundo já havia sido noticiado pela imprensa, uma lágrima sequer derramou, ao longo de cinco horas de interrogatório, diante do delegado. Se eu sou o entrevistador, indagaria à madrasta esse comportamento, no mínimo, estranho. Ou será que, em nome do ‘furo jornalístico’, o teor da entrevista foi negociado, de modo a neutralizar o menor desconforto aos entrevistados? Se assim o foi, que valor jornalístico pode ter a entrevista?


Os indiciados nada acrescentaram, pois invocaram inocência. O repórter nada indagou que propiciasse qualquer perturbação. Que sentido, pois, terá a entrevista? Demonstrar quanto a Língua Portuguesa é desconhecida pelos entrevistados? Revelar que se trata de pessoas frágeis e de limitada densidade cultural? Permitir ao espectador deduzir que os indiciados são um casal que adorava a ‘filha-enteada’?


Será que o repórter desconhecia o fato de que, após a saída do casal do supermercado, com os filhos, todos foram a Guarulhos, no prédio dos pais da madrasta, para uma festa na qual, em dado momento, por algo que Isabella teria praticado, fez com que o pai, em tom grave, a repreendesse e, a partir daí, a família se retirou, com a promessa (ameaça) do pai de que ‘aquilo’ não ficaria assim? Será que o repórter, apesar do ‘segredo de justiça’, não poderia ter perguntado sobre o que ocorreu na tal festa, fato que a mídia já havia divulgado? Não, o ‘furo jornalístico’ limitou-se a dar ‘voz’ aos indiciados. A única questão invocada pelo entrevistador foi a respeito do sangue encontrado no carro, o que permitiu ao casal, simplesmente, responder que desconhecia.


Sentido do equilíbrio


É claro que não se poderia cobrar do repórter o papel do delegado. Entrevista não é interrogatório. Repórter não é delegado. Sim, quanto a isso, nada a obstar. Então, outra questão se apresenta: se, ao longo de 12 horas, somando o tempo do interrogatório dos indiciados, nada foi revelado por nenhum dos dois, o que esperaria o repórter extrair deles? Menos ainda, sem confrontação? Que finalidade jornalística, portanto, teve a entrevista exibida pelo Fantástico? Apenas uma: repassar ao receptor mais uma carga de teor emocional que, pela estética dominante, mais serviu à defesa do que para a imagem da polícia e da perícia.


Sou levado a crer que, pela flagrante expressão de fragilidade emocional dos indiciados, que a maior parte de telespectadores terá sofrido alguma alteração subjetiva na sua avaliação a respeito do caso. Quem, ao longo de dois blocos, acompanhou todos os momentos da entrevista tem tudo para deduzir que o casal jamais seria capaz de praticar o abominável crime. Trata-se, pois, de uma cobertura unicamente favorável à defesa, em detrimento do que a polícia e a perícia já haviam concluído.


Jornalisticamente, a entrevista teria o dever de preservar o sentido do equilíbrio: dar voz aos acusados, sem enfraquecer a denúncia contra eles. Se tal não ocorreu, o que se esgarça é a democracia. Estaremos no caminho certo? Não sei. Uma coisa, porém, é certa: mídia e democracia ainda não se afinaram.


***


Em tempo: O presente artigo foi escrito e expedido tão logo encerrada a entrevista; portanto, a avaliação levou em conta a entrevista em si. Eis, porém, que a edição do Jornal Nacional de segunda-feira (21/4) ofereceu belo exercício de telejornalismo crítico, pontuando e contrapondo declarações e comportamentos dos indiciados. Se tal estratégia estava planejada, ou se a própria emissora, após a exibição da entrevista, deduziu que precisava reajustar o enfoque, não importa. O que vale é o fato de, 24 horas após, a mesma emissora, em programa jornalístico, ter propiciado ao público uma abordagem destituída da perigosa ‘emocionalidade’, aspecto que pode induzir eventuais telespectadores a um juízo mais oscilante, quando expostos a matérias de maior apelo sensorial. Assim, quem, porventura, com a entrevista do Fantástico, tenha alterado sua avaliação até então (contra ou a favor do casal indiciado) teve, no dia seguinte, a oportunidade de reconsiderar, com base numa matéria que reduziu a zero a taxa de exploração da emocionalidade.

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Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da Facha (Rio de Janeiro)

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