Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > RENAN NA FOLHA

A explicação que o senador não deu

Por Alberto Dines em 24/09/2007 na edição 451

A Folha de S.Paulo fez muito bem em convidar Renan Calheiros para escrever um artigo na sua página 3 (‘Tendências/Debates’) de domingo (23/9). ‘Vozes isoladas’ é o título do texto que o senador escreveu ou mandou escrever [ver abaixo].


O político que em apenas quatro meses conseguiu desbancar Paulo Maluf na lista dos mais detestados em todo o país, queria dizer que são ‘vozes isoladas’ que protestam contra o seu comportamento a frente do Senado.


Ora, vozes isoladas não mereceriam o black-out informativo adotado no julgamento há duas semanas; vozes isoladas dispensariam o aparato autoritário, a sessão fechada, o voto secreto.


Renan não protestou inocência, não se defendeu porque nem ele acredita nas provas que apresentou. Mesmo hospedado no lugar de honra de um grande jornal que não lhe dá tréguas, Renan queria atacar a imprensa, apenas isso. O ataque àqueles que, segundo ele, atropelam a opinião pública não é dirigido à oposição, mas à mídia.


Renan Calheiros tirou a máscara de democrata lá no finzinho do artigo, ao dizer que a imprensa ‘não pode nem irá, jamais, substituir a representatividade do Legislativo’. Como já se viu, Renan fala mal e escreve ainda pior: duas linhas antes reconheceu que o sistema político-eleitoral está ‘completamente falido’. Então, qual a representatividade de um Congresso eleito por um sistema falido? Isso Renan não teve tempo de explicar.


 


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***


Vozes isoladas


Renan Calheiros # copyright Folha de S.Paulo, 23/9/2007


Quando vozes isoladas querem falar mais alto que a legitimidade popular, na ânsia de abalar e enfraquecer instituições democráticas, o que está em jogo são os pilares de nossa Constituição, é a própria base da cidadania. Porque são vozes isoladas -e mal-intencionadas- que têm propalado a idéia absurda de acabar com o Senado Federal e instituir o unicameralismo no Brasil.


O Senado nunca aceitou -e nunca aceitará- o papel de mero coadjuvante nas decisões nacionais. Nunca fugiu -nem fugirá- de sua responsabilidade de legislar e fiscalizar os atos da União. Nunca abriu mão -nem abrirá- de sua isenção, de sua autonomia. É por isso, aliás, que fez questão de aprovar o orçamento impositivo e restringir a edição abusiva de medidas provisórias, que tumultuam o processo legislativo e ferem a soberania do Parlamento.


É essa atitude de maturidade e de equilíbrio que engrandece a atuação do Senado como Casa da Federação -sempre pronta a impedir que as diferenças de peso econômico e político entre as unidades federativas ampliem nossas desigualdades regionais. Não podemos esquecer que a redução de tais desigualdades é um dos objetivos fundamentais da República brasileira. E é condição básica para que possamos trilhar o caminho do desenvolvimento sustentável.


Um pouco de história e um mínimo de senso político jogam por terra a proposta do unicameralismo.


Nosso Parlamento nasceu bicameral não apenas em razão da forma federativa do Brasil -a Câmara representa os interesses do povo, e o Senado, os interesses dos Estados e do Distrito Federal. O bicameralismo tem também o enorme mérito de evitar eventuais excessos de uma ou outra câmara. Se a Câmara dos Deputados ou o Senado propuser legislação injusta, aprovar ou rejeitar qualquer matéria com base em pressões ilegítimas ou sob emoção, haverá sempre a garantia de revisão pela outra Casa.


Mais. A memória do Senado se confunde com a memória da República e da democracia brasileiras. Nos períodos de instabilidade e até de ruptura, sempre soube reclamar a autonomia entre os Poderes, o respeito à oposição, a vigência dos direitos e garantias individuais. Foi assim na Revolução de 30, no Estado Novo, na morte de Getúlio, na instauração do regime militar. Nos momentos de renovação política, em que reconquistamos as liberdades democráticas, a atuação dos senadores também foi decisiva.


Nos últimos 180 anos, nossa Casa tem sido firme e coerente na defesa de uma Federação representativa, democrática. E não abrirá mão da responsabilidade em nenhuma hipótese. A missão primordial -e insubstituível- do Senado é garantir igualdade entre entes desiguais. É impedir que unidades da Federação usem o peso de seu poderio como rolo compressor sobre as regiões mais pobres.


Convém alertar também que cabem privativamente ao Senado decisões da maior importância, como o julgamento do presidente e do vice-presidente da República em crimes de responsabilidade, a autorização de empréstimos externos e a fixação de limites e condições para operações de crédito da União, Estados, Distrito Federal e municípios.


Investir contra o Senado Federal é investir contra o equilíbrio federativo, é investir contra o Parlamento e a democracia. Acima de quaisquer divergências partidárias, acima de quaisquer interesses políticos, o Senado sempre primou pela maturidade, pelo diálogo e pelo entendimento.


As divergências partidárias e o jogo de interesses políticos não vão deixar de existir. Mas é o interesse do país, a defesa de nossas instituições e de nossas conquistas democráticas que devem ter a última palavra na Casa.


A democracia, por natureza, nunca é perfeita. Costuma ter excessos, exigir aperfeiçoamentos. É esse seu maior mérito. Aperfeiçoar a democracia, no entanto, é completamente diferente de investir contra ela, completamente diferente de investir contra suas instituições. Não é o Senado ou o Congresso Nacional que devem ser atacados. É nosso sistema político-eleitoral -completamente falido- que precisa ser revisto, aprimorado. A mídia, com todo seu poder de influência, não pode nem irá, jamais, substituir a representatividade do Legislativo.


Triste o país que sucumbe a apelos demagógicos e chantagens políticas. O Senado não se deixará jamais pressionar pelos que desrespeitam a democracia e atropelam a opinião pública.


[Renan Calheiros, 52, senador (PMDB-AL), é o presidente do Senado. Foi deputado federal pelo PMDB-AL (1983-91), líder do governo na Câmara dos Deputados (governo Collor) e ministro da Justiça (governo FHC)]

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/01/2010 redacao floripanews

    Prezados colegas da imprensa,

    Somos do portal de informações http://WWW.floripanews.com.br e através deste e-mail queremos disponibilizar a nossa redação@floripanews.com.br para o recebimento de releases ou notas, que não sejam merchandise, aceitaremos notas informativas e com conteúdo.
    Por tratar-se de ser internet as notas precisam ser curtas e dinâmicas com no Maximo 3 parágrafos e 15 linhas, pedimos que no assunto do e-mail seja colocado antes do titulo a qual editorial esta relacionado, ex:
    Economia/ empresa investe 15 bi no …
    Turismo / empresa cria hotel tal tal tal …

    Em anexo segue um demonstrativo de acessos e abrangência do nosso portal, no mais contamos com a sua colaboração para escrevermos uma nova historia.

  2. Comentou em 25/09/2007 Cério S Santos

    Ao ser questionado sobre a omissão no que tange ao Caso Azeredo (que sequer virou caso para a mídia) e o Mensalão Tucano (que é mensalão mineiro ou caixa dois para a grande mídia) o OI disponibiliza apenas dois links que não são propriamente artigos, mas sim reproduções de entrevistas com o sr. Lucas Figueiredo. Um postado há quase quatro meses e outro postado há quase um ano. No suposto artigo “O crime organizado na política nacional”, verifica-se que o nome de Mares Guia (atual ministro de Lula) aparece, no texto, em ocorrências notadamente superiores (e de forma mais incisiva) do que o nome do próprio sr. Azeredo, o que denota algo tendencioso. No artigo (???) “Mídia omitiu a gênese do valerioduto”, simplesmente omitiu-se o nome do senador Azeredo. Ao passo que se formos pesquisar sobre o “Caso Renan” e o “Mensalão petista” veremos ocorrências em números infinitamente superiores e de forma mais incisiva e agressiva. Há de se questionar por que o sr. Dines como observador que é (ou deveria ser) não faz artigos direcionado ao “Caso Azeredo” e ao “Mensalão tucano”, da mesma forma que o faz no que guarda relação com o sr. Renan e o Mensalão petista? Noutro plano, por que se critica tão incisivamente o governo federal, PT e aliados enquanto visivelmente poupa-se o governo do estado de São Paulo e PSDB / DEMO ? RESPONDA DINES!!! E O SENADOR AZEREDO??? E O MENSALÃO TUCANO???

  3. Comentou em 24/09/2007 antonio capistrano capistrano

    Não adianta tentar se defender. Renan já foi condenado pela poderosa mídia, capitaneada pela Editora Abril e pelo Sistema Globo de Jornalismo, são eles quem pautam a imprensa brasileira, a notícia que sai no jornal da Globo é repercutida do mesmo jeito em todas as emissoras de rádio do país, sai no jornazinho do interior. É o consenso midiático. Cada representação que for arquivada será apresentada outra, basta alguém dizer que ouviu dizer que alguém disse que Renan talvez tenha recebido propina, pronto um novo processo, conselho de ética nele, e para isso conta com a mídia. Vale salientar que na mesa diretora do senado a maoria é de oposição e no conselho de ética tambem. É aquela velha história, se correr o bicho pega se ficar o bicho come. O lider do DEMO foi derrotado por Renan na disputa da presidência do senado. São muitos interesses contrariados. Nessa peleja só não existe o interesse pela ética e pela moralidade.

  4. Comentou em 24/09/2007 Antonio Carlos Silva

    Ô Carolina, não faça parte da falange dos indignados úteis dos golpistas de sempre, você precisa entender que a relação do Presidente da Repúbliuca Luiz Inácio Lula da Silva com o Presidente do Senado Renan Calheiros é apenas institucional ( Presidentes de dois Poderes da República). Estude, mas estude muito a história política brasileira para náo ser mais uma analfabeta política sendo utilizada pelas forças anti-povo.

  5. Comentou em 24/09/2007 Caroline Manhães

    É cada vez mais revoltante o que a população brasileira enfrenta com os polítcos que regem o país. Renan Calheiros infringe as ‘regras’ e não é punido por isso. Nem satisfação ele dá e, sem provas de defesa, consegue ser inocentado. Provavelmante por ser amigo íntimo do nosso querido presidente Lula. Se nós, a população insatisfeita, somos as vozes isoladas, de quem são as vozes que o Senador considera importante? Provavelmente a de políticos corruptos como ele e que o apoiam. Talvez ele se ache muito superior para nos dar uma respostas, afinal somos as vozes isoladas.

  6. Comentou em 24/09/2007 Renato Silva

    Dines, e o Azeredo?

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