Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > CASO JOÃO HÉLIO

A exploração mórbida da ‘comoção nacional’

Por Antônio Carlos Queiroz em 19/02/2007 na edição 421

O bárbaro assassinato do garotinho carioca João Hélio está servindo para expor, outra vez, a face mais brutal da sociedade brasileira: o gosto pelo linchamento, o prazer da lei do ‘olho por olho, dente por dente’, a sanha da tortura.

Nesses dias de ‘comoção nacional’, espalha-se de novo o sentimento casuístico de que o endurecimento das penas salvará o país de novas ‘comoções nacionais’. Quem sabe não está na hora de quebrar a pedra da cláusula pétrea constitucional que proíbe a pena de morte? A depender de alguns coleguinhas, talvez essa seja a solução. Como noticiou a Agência Estado na última terça-feira, 13/02, alguns profissionais da imprensa agrediram a socos e pontapés os suspeitos do crime, detidos na 30ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro. Segundo a agência, um operador de câmera declarou: ‘Eu não acho que tem que bater não, tem que matar. Eu tenho uma filha de 6 anos.’

Suspiros e lágrimas

Tradicional surfista das ‘comoções nacionais’, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) pretende aprovar um projeto de lei que reduz a maioridade penal. Pressionado pela chamada opinião pública, o novo presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), defende penalidades mais rigorosas para os delinqüentes ‘de menor’.

Profissionais da política, parecem naturais as reações de ACM e Chinaglia ao sobe-e-desce do humor do público. Acontece que essa gangorra não é definida por princípios mais, ou menos, elevados. Convenhamos: ‘comoção nacional’ é o que o Jornal Nacional, nos suspiros de William Bonner e nas lágrimas de Fátima Bernardes, define como ‘comoção nacional’. O caso João Hélio só se tornou uma ‘comoção nacional’ por causa de sua exploração mórbida pelo Jornal Nacional.

Sangue, fogo e enxofre

Por que será que não se tornaram ‘comoção nacional’ as recentes cenas de tortura praticadas por policiais paulistanos contra cidadãos que passavam na rua, nas proximidades da Estação da Luz? Filmadas por um cinegrafista amador, as cenas foram também veiculadas pelo Jornal Nacional. Não houve ‘comoção nacional’ porque o público, anestesiado, aceita a tortura, esse horror que é prática corrente nas delegacias de polícia.

Por que não se tornam ‘comoção nacional’ as evidências de tortura praticadas por policiais contra os detentos suspeitos do assassinato de João Hélio, conforme se percebe nas fotos da Agência Estado divulgadas na internet, ou na foto da Agência Globo, publicada nessa terça-feira, 13/02, na página 9 do Correio Braziliense (três suspeitos, algemados, sendo esganados por três policiais)? Não há ‘comoção’ porque a chamada opinião pública aceita a lei do talião, praticada todos os dias contra os suspeitos de sempre.

Cevada pelo Jornal Nacional, a opinião pública quer sangue, quer fogo e enxofre. Quer combater a barbárie com mais barbárie. Como o suicida do Canto XIII do Inferno de Dante, se não for detida, essa opinião pública alienada acabará transformando em patíbulo a própria casa, que é a nossa casa. Alguém tem que se rebelar contra esses baixos instintos que envenenam o país.

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Jornalista e vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/02/2007 Paulo Bandarra

    A segunda Guerra Mundial iniciou com a associação do Internacional Socialismo com o Nacional Socialismo (partido dos trabalhadores alemães) na invasão da Polônia, sob a chancela do Pacto Ribbentrop-Molotov (ou tratado de não agressão), que resultou no massacre de Katin, mais de mil oficiais do exército polonês presos e enterrados em vala comum, atribuído pelos soviéticos aos nazistas, depois que foi descoberto em 42. Um pacto contra o capitalismo e as democracias. Nesta época Olga Benário foi entregue aos socialistas da Alemanha, e Stalin não se importou pelo seu destino. Os nazistas e fascistas eram socialistas e anticapitalistas e antiamericanistas, nunca foram conservadores, democratas, liberais e usaram a mesma política revolucionária para atingir o poder. A força, a partido único, reformas socialistas, censura da imprensa, a KGB, eliminação dos opositores, anti-semitismo, execução em massa, o centralismo estatal na economia, a estatização, o estado como objetivo maior em que o cidadão perde todos direitos e garantias.Em 1940 Hitler invade a França, Hitler invade a Iugoslávia e “liberta” os croatas e os eslovenos, em pleno vigor do tratado com Stalin! Stalin só mudou de lado porque foi invadido e não por que era contra o socialismo alemão! Não porque o capitalismo fosse perdoável, mas porque perderia a guerra para os socialistas alemães, mais revolucionários!

  2. Comentou em 19/02/2007 Emílio Filho

    Sou a favor sim de penas duríssimas como prisão perpétua ou pena de morte para assassinos, sequestradores, estupradores e políticos corruptos e acho neccessário q haja exploração da comoção nacional pois são nestes momentos , mesmo q por apenas alguns dias, q a sociedade brasileira desperta de sua letargia e comodismo e age como um povo de verdade, exigindo, lutando p/ q sejam dados direitos humanos a quem é realmente humano e não a estes animais predadores q estão dominando as nossas ruas e o nosso governo. Pena q nosso ‘mal de Alzheimer’ crônico nos faça esquecer de tudo após algum tempo.Não me indignei por nenhum minuto com o enforcamento do Saddam(já foi tarde) e concordo plenamente com a afirmação do operador de câmera pois também sou pai e se acontecesse um fato semelhante com minha filha, podem ter certeza q eu não esperaria apenas por essa piada q é a nossa legislação penal, tb iria providenciar p/ q estes bandidos nunca mais tivessem oportunidade de praticar atos semelhantes nesta vida. Já chega dessa hipocrisia de achar q o Brasil ainda tem jeito com medidas sociais-educativas e partir p/ a extirpação desse câncer q são esses marginais q ameaçam a vida dos nossas famílas antes que eles tomem conta de tudo, se é q já não tomaram, e esse poder está em nossas mãos, nós q somos os patrões e não essa corja de incopetentes q por ignorância colocamos no poder!

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