Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

A falta que o fato faz

Por Mozahir Salomão em 27/04/2004 na edição 274

A história tem ingredientes sensacionais: a partir de um telefonema grampeado, a polícia teria ficado sabendo que um dos mais conhecidos traficantes de Belo Horizonte (Nem-Sem-Terra) pretendia executar dois jogadores do Cruzeiro – o zagueiro Cris e o atacante Guilherme, que ainda comemoravam o título de campeão mineiro de 2004, conquistado no fim de semana anterior.

A informação circulou rapidamente e foi divulgada ao público na terça-feira, 20/4, numa entrevista em que, muito emocionado, o zagueiro Cris chorava diante das câmeras, confessando o seu medo de ser assassinado. Mesmo sem que ninguém explicasse exatamente quem e como se tinha chegado à tal gravação, e, pelo menos, se ela realmente existia, as repercussões tomaram conta dos noticiários de rádio e emissoras de TV na capital mineira: as entrevistas com jogadores, supervisores do clube, parentes. os cuidados que o Cruzeiro já estaria tomando para proteger os atletas, que jogariam no dia seguinte em Ipatinga, na estréia do Campeonato Brasileiro…

Motivos para Nem-Sem-Terra matar Cris e Guilherme não faltariam. Guilherme, por ter sido um dos ídolos do Atlético e hoje atuar pelo principal rival. Cris, por ter provocado os adversários ao festejar na frente da torcida do Galo, no Mineirão, o título de campeão mineiro (fato que levou a uma briga feia, ainda dento de campo, entre ele e o goleiro do Atlético, Eduardo). A história ganhou ar de veracidade mais ainda quando o coronel Severo, ex-comandante do Policiamento da Capital da PM de Minas, hoje responsável pela segurança no Cruzeiro, confirmou toda a história e as medidas que o clube já estaria tomando. Inspirados, quem sabe, pelo clima da Rocinha e a gravíssima guerra civil que envolve o tráfico no Rio, os repórteres mineiros insistiam junto às polícias Militar e Civil para saber quais seriam as ações para que se evitasse a ‘execução’…

Quando o jornalismo afunda em boatos

Argumento definitivo

Informações nem sempre se confirmam como fatos, e estes, por sua vez, nem sempre são notícia. Boatos não são nada. Mas podem fazer estragos sérios no jornalismo. E a imprensa nem sempre está imune a eles. Neste caso, a existência de fontes com autoridade (o coronel Severo e o próprio Cris) e com legitimidade (parentes e colegas de profissão do jogador) deram ao boato aparência de verdade.

E o bandido é cruzeirense…

Mas, diacho, se havia muitas e diversificadas repercussões sobre a ‘história’, ainda faltava o principal: o fato. O zagueiro Cris estava certo de que seria procurado pelos repórteres naquele dia para falar sobre o título conquistado – no máximo, sobre os socos e pontapés que trocou com o goleiro atleticano. Recebeu dos jornalistas a informação de que estava para ser morto por traficantes impiedosos que costumam cumprir suas promessas. Assustado, disse não estar entendendo nada, e chorou. A força ‘cênica’ do choro do Cris – que era real e espontâneo – durante a coletiva, por si só, praticamente patrocinou a ‘veracidade’ do caso.

Tento concluir este texto expondo outra inquietação: mesmo que tal gravação existisse: qual seria o fato? Ah… mas o Nem-Sem-Terra é traficante, criminoso, violento… Certo… mas, insisto, qual seria o fato para render uma cobertura como a que foi feita, e olha que em cima apenas de um boato? Tentando avançar, agora só como exercício de especulação: é razoável que escutas (que, ao que se espera, sejam sigilosas e, claro, autorizadas) tornem-se públicas dessa maneira? Mais ainda: em caso de ameaças e planos, qual a utilidade delas quando tornadas públicas?

Ainda na noite de terça-feira, dia em que uma emissora de rádio deu o ‘furo’, o próprio Cruzeiro já começava a desmentir toda a história. Ao mesmo tempo em que ninguém ainda sabia informar quem tinha feito a tal gravação e com quem Nem-Sem-Terra acertava o assassinato dos atletas cruzeirenses, foi feita entrevista com uma irmã do traficante. Muito preocupada com o que pudesse ser o início de uma verdadeira ‘caça’ ao traficante pela polícia, ela desmentia tudo e garantia que tal telefonema nunca existiu. E, ainda, oferecia um argumento definitivo: toda a família é cruzeirense. E o Cris, chorando…

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Professor de Jornalismo da PUC-Minas e diretor da PUCTV

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