Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

A grande mídia e a grande mentira

Por Alexandre J. Eisenberg em 13/01/2009 na edição 520

‘Nunca passaria por suas cabeças inventar mentiras colossais, nem acreditariam que outras pessoas fossem atrevidas a ponto de distorcer a verdade de maneira tão infame. Mesmo que os fatos demonstrem claramente tratar-se de uma grande mentira, ainda assim duvidarão, hesitarão e continuarão a pensar que deve haver outra explicação’ [Adolf Hitler, Minha Luta, vol. 1, cap. X].

O trecho acima, retirado de um livro publicado em 1925, revelava uma verdade há muito conhecida por líderes e pensadores políticos, desde Tito Lívio, passando por Maquiavel, até os dias de hoje. As diferenças entre a antiga propaganda romana e as grandes empresas de comunicação de nosso tempo estão antes nos meios que nos fins. Os meios sofreram uma grande mudança no século 20 devido à adoção no Ocidente, após os horrores da II Guerra Mundial, do ‘ideal democrático’. Nas chamadas democracias, quando os meios se tornam impopulares é preciso trocá-los, o que não necessariamente implica em trocar os fins.

Se por um lado é verdade que o acesso à informação é hoje muito maior que em qualquer época passada, por outro lado a qualidade da informação, embora melhor que antes, não melhorou na mesma proporção. Isto porque aqueles que determinam o nosso futuro nunca abandonaram o antigo ideal romano de paz – a pax romana, que hoje as grandes empresas de comunicação, os governantes das democracias e a maior parte de nossos intelectuais exigem do Estado de Israel. Mas não apenas de Israel. Já o exigiram da ex-Iugoslávia, entregando a Croácia aos ustasha fascistas e a Bósnia aos radicais islâmicos, em seguida da Sérvia – que perdeu o Kosovo para os radicais islâmicos – e em breve também o exigirão da Índia e do Sri Lanka. Mas cada um a seu tempo, pois a grande mentira só é eficaz se ubíqua e duradoura, e não seria possível mentir tanto sobre Israel se a grande mídia dividisse o seu foco com a recente invasão de Kilinochchi e a arrasadora derrota, pelo governo do Sri Lanka, dos separatistas tigres tamil, que buscavam um Estado independente dentro daquele país, usando para tanto do mais bárbaro terrorismo, semelhante àquele preferido pelo Hamas e pelo Fatah na Palestina, ou Terra Santa, ou Terra de Israel. Nem seria possível mentir tanto sobre Israel se o foco fosse dividido com o recente genocídio de negros no Sudão perpetrado pela elite árabe que domina esse país. Afinal, quem olharia com tanta atenção para os cerca de 800 árabes mortos (a maioria dos quais militantes do Hamas) em Gaza nos ataques israelenses se fossem igualmente (isto é, diariamente pela TV) expostos às cenas do gigantesco mar de cadáveres (as cifras mais confiáveis variam de 300.000 a 500.000) e desabrigados-desapropriados-famintos (mais de dois milhões) do Sudão?

Omissão e desinformação

Mas a estratégia dos grandes empresários da mídia internacional, de quem a mídia brasileira cada vez mais reproduz informação, e cujos interesses são os mesmos dos governos dos países ricos, não se restringe à desinformação. Tão importante quanto desinformar é omitir. A cobertura do conflito árabe-israelense se divide em duas frentes: (1) a cobertura das guerras em si (não apenas a atual em Gaza) e (2) ‘resumões’ da história da região. Na cobertura das guerras, a mídia relega a plano secundário ou omite completamente os ataques do lado árabe, focando no que descreve como ‘desproporcionalidade’ e ‘desumanidade’ dos ataques israelenses. E os ‘resumões’ da história da região produzidos por meios como BBC, CNN, Time, Le Monde, O Globo ou Folha de S.Paulo, embora também desinformem, primam pela omissão.

No primeiro caso, o das guerras em si, o espectador (pois a força da cobertura está nas imagens pela TV) vê os ataques israelenses e seus resultados e apenas raras cenas de foguetes ou mísseis lançados pelo Hamas. As redes internacionais de TV não estiveram nas cidades do sul de Israel desde a retirada de Gaza em 2005 até o início da atual reação israelense para filmar as centenas de foguetes e mísseis lançados de Gaza às cidades de Sderot, Ashkelon, e mais recentemente Ashdod e Beer-Sheva, onde atingiram casas e escolas, matando, ferindo e traumatizando a população local. Se o público espectador tivesse recebido informações diárias sobre os ataques do Hamas e da Jihad Islâmica contra Israel a partir de Gaza desde 2005, no mínimo acharia estranho que, justo após a retirada israelense total de Gaza, com direito à expulsão sumária de 9.000 judeus que ali viviam, os árabes de Gaza, que tanto reclamavam da ocupação, viessem a retribuir Israel com foguetes e mísseis.

No segundo caso, os ‘resumões’ sobre o conflito na grande mídia omitem informações cruciais e, não raro, simplesmente desinformam.

Problema não é territorial

A Folha de S.Paulo, por exemplo, assim como toda a grande mídia, se refere aos habitantes não-judeus daquela região como ‘palestinos’ (confira aqui). Está desinformando, já que palestinos são todos os nascidos na Palestina, independente da etnia a que pertençam. Palestina nunca foi nacionalidade ou etnia, mas tão somente uma região geográfica (para a origem do termo, clique aqui). O uso do termo ‘palestino’ para designar o árabe da Palestina surgiu a partir de 1967 quando, após a derrota na Guerra dos Seis Dias, a OLP, aproveitando-se da simpatia das esquerdas ocidentais e da URSS por conta de uma nascente ajuda militar estadunidense a Israel no contexto da Guerra Fria, passou a usar o termo ‘palestino’ para forjar a idéia de que os árabes da região seriam autóctones e os judeus seriam imigrantes usurpadores – uma forja especificamente voltada para atrair a simpatia das esquerdas ocidentais, cuja irracionalidade em seu combate ao racionalíssimo establishment americano é responsável por sua decadência atual e conseqüente subserviência a este. Falhada a guerra convencional, teve início então a guerra da propaganda, que Israel vem perdendo desde então com incompetência vexatória.

Mas dois fatos-chave dentre os omitidos pela grande mídia são fundamentais para compreender a derrota de Israel na guerra da propaganda:

1) Ao contrário do que se reporta, a grande maioria dos palestinos não-judeus é descendente de imigrantes que chegaram à Palestina no fim do século 19 e início do século 20, ou seja, à mesma época das primeiras migrações sionistas. Parte desses imigrantes não-judeus eram muçulmanos de diferentes regiões do império turco – inclusive da Bósnia – realocados pelas autoridades turcas para a Palestina num esforço de evitar uma maioria judaica na região. Os demais imigrantes não-judeus eram árabes de outras partes do império turco atraídos para a Palestina por razões de oportunidades econômicas (veja documentação aqui), da mesma maneira que muitos árabes, judeus e magrebinos migraram de países islâmicos para a França ou EUA no século 20 atraídos por melhores oportunidades. A população árabe palestina de hoje é, portanto, em sua grande maioria, tão descendente de estrangeiros quanto a população judaica.

2) O barbarismo da violência de grupos como o Hamas e o Fatah contra Israel não tem nada a ver com a ocupação dos territórios da Judéia, Samária e Gaza a partir de 1967. Em 1929, o chefe religioso muçulmano da Palestina britânica, Amin al-Husseini, organizou o pior massacre de judeus na cidade de Hebron. Esses judeus não eram imigrantes, mas sim, nativos religiosos, descendentes dos poucos judeus que voltaram à sua terra natal pouco após a expulsão promovida pelos romanos no século 2, o que mostra que o problema não era territorial, e sim, a transgressão da dhimma, norma islâmica que obriga a submissão de judeus e cristãos em terras do califado.

Propaganda nazista

Mais adiante, durante a II Guerra Mundial, o mesmo Amin al-Husseini se tornou um nazista atuante, tendo sido responsável não só por recrutar um batalhão muçulmano na Bósnia para as forças alemãs (a divisão Handzar) como foi um dos arquitetos do genocídio que dizimou mais de 5 milhões de judeus europeus (ver documentação aqui). Foi procurado posteriormente por crimes de guerra não só na Alemanha, mas principalmente na Iugoslávia, onde foi pessoalmente responsável pelo assassinato de dezenas de milhares de sérvios, judeus e ciganos.

Al-Husseini, do mesmo clã de Yasser Arafat (cujo nome completo era Mohammed Abdel Rahman Abdel Raouf Arafat al-Qudwa al-Husseini) foi o mentor de Arafat e o pai ideológico do Fatah (documentação aqui e aqui). Quanto ao Hamas, sua origem está na Irmandade Muçulmana, sediada no Egito, a qual também se aliou a Hitler na II Guerra Mundial (ver aqui). A carta de fundação do Hamas é explícita em sua meta única de destruir Israel, e sua linguagem anti-judaica é inteiramente retirada da propaganda nazista (leia aqui).

Versão islâmica de Hitler

Diante desses fatos, pode-se observar que a atual propaganda anti-Israel predominante na grande mídia se usa, em alguns casos inadvertidamente, exatamente da tática da ‘grande mentira’, descrita na citação que abre este artigo. O objetivo da demonização de Israel na mídia é a deslegitimação deste país e sua possível dissolução através de tropas internacionais, provavelmente da Otan, como foi no caso da Iugoslávia. Trata-se de uma empreitada difícil, mais difícil do que foi a dissolução da Iugoslávia nos anos 1990, pois é preciso primeiro convencer o Ocidente de uma malignidade intolerável do Estado de Israel através justamente de uma campanha de propaganda maciça, como a que vemos hoje em toda a grande mídia, bem como nas mídias alternativas de extrema-esquerda e extrema-direita, semelhante à campanha de demonização dos sérvios que preparou o Ocidente para o bombardeio de Belgrado.

Na Alemanha nazista, a ‘grande mentira’ era a de que os judeus eram perigosíssimos porque conspiravam pela dominação do planeta. De nada adiantava olhar para a realidade nua e crua da pobreza da maior parte dos judeus europeus, pois os séculos de doutrinação anti-judaica das igrejas pesavam mais que aquilo que os olhos podiam ver por si mesmos. Os europeus só caíram em si quando tiveram de olhar de frente para os horrores do Holocausto, que tacitamente lhes revelou que o ‘grande poder’ dos judeus era uma farsa que levou a Europa à ruína.

Mas o Holocausto passou longe do Islã e por isso a doutrinação nazista de Amin al-Husseini e da Irmandade Muçulmana nunca arrefeceu. Ao contrário, fundiu-se com a jihad conclamada pelo líder muçulmano dos árabes palestinos que havia escapado dos tribunais europeus, dando origem ao Fatah e posteriormente ao Hamas. A propaganda anti-Israel da grande mídia hoje nada mais é que a versão islâmica, devidamente ocidentalizada, da ‘grande mentira’ de Hitler, por herança direta do próprio.

Expansão muçulmana na Ásia

Resta compreender por que o Ocidente comprou o islamo-fascismo disfarçado de socialismo e anti-colonialismo. Como foi possível jogar no lixo as duríssimas lições da II Guerra Mundial a ponto de termos hoje ‘a grande mentira’ de novo estampada em todos os jornais e canais de TV, nas grotescas inversões de um José Saramago, para quem Israel é ‘um Estado nazista’, um cardeal Martino, alto representante do Vaticano, para quem Gaza é ‘um campo de concentração’, ou um ex-estadista, Jimmy Carter, para quem Israel pratica o apartheid?

A tática de Hitler, a mesma de Tito Lívio e Maquiavel, funcionou então e está funcionando hoje. Não basta mentir pouco. É preciso dizer que preto é branco e que branco é preto para obter credibilidade pelo medo. É preciso que o mesmo Vaticano que articulou a dissolução do partido central católico alemão para que Hitler chegasse ao poder, e que hoje canoniza o homem que realizou este feito, diga que Gaza é um ‘campo de concentração’, ou que o mesmo Jimmy Carter que, na contramão da história ocidental, patrocinou o islamismo radical para erradicar a URSS, diga que Israel é um apartheid para que o Ocidente mais uma vez acredite que os judeus, hoje na forma de seu país, são um grupo maldito e perigoso, cuja perfídia ameaça a todos.

Quando a grande mídia banaliza ou destrói o significado de palavras como ‘genocídio’, ‘campo de concentração’, ‘nazismo’ ou ‘apartheid’ é porque o Ocidente mais uma vez está por afundar no caos e, obviamente, não será a dissolução ou destruição do Estado judeu que resolverá o problema, assim como o assassinato em massa dos judeus europeus entre 1939 e 1945 não resolveu este mesmo problema há apenas 63 anos.

Por fim, o foco único da grande mídia sobre a guerra em Gaza tem por objetivo a dissolução do Estado judeu, que é o preço exigido pelo Islã para apoiar o projeto estratégico dos EUA e seus aliados europeus de fomentar e financiar o separatismo das enormes minorias islâmicas da Índia e da China e a radicalização das antes seculares repúblicas soviéticas de maioria islâmica. Sem a expansão do terrorismo islâmico na Ásia – a única força capaz de conter e sabotar o crescimento econômico das potências asiáticas –, a hegemonia ocidental sobre o planeta tem os seus dias contados. Dissolver Israel pode custar caríssimo em perdas humanas numa grande guerra regional, mas talvez não tão caro quanto custou o financiamento do III Reich pela elite americana. Portanto, para os donos do dinheiro vale o risco. Talvez não seja por outra razão que o príncipe saudita Alwalid bin Talal, o quinto homem mais rico do mundo, já possua bilhões de dólares investidos tanto na News Corporation (Fox News e outros), como na Time Warner (CNN e outros), supostamente concorrentes entre si. Afinal, a propaganda não é a alma do negócio?

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Professor universitário

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