Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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JORNAL DE DEBATES >

A humanidade ferida em Pernambuco

Por Washington Araujo em 10/03/2009 na edição 528

A repercussão do caso me trouxe à memória uma das primeiras aulas do curso de jornalismo: cachorro morder homem não é notícia, mas homem morder cachorro, sim, é notícia! Estou trocando confidências com meus botões com a liberalidade com que o arcebispo de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou, na quinta-feira (5/3), um médico e a mãe da menina de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto na cidade de Alagoinha, em Pernambuco. O arcebispo não se fez de rogado e respondeu por seus atos ante diversas emissoras de televisão. Fala mansa, rosto cansado e vincado pelos anos, alheio ao desconcerto dos entrevistadores, afirmava num e noutro canal que se tivesse que excomungar de novo não hesitaria.

Trata-se de um caso no mínimo exótico por sua barbaridade: um padrasto a quem a segurança de sua enteada de 9 anos estava entregue deixou-se galopar pela mais sórdida baixeza humana, a de não exercer controle sobre seus instintos animais, estuprando a menina – e quem sabe quantas vezes assim não procedeu? – e deixando-a grávida de gêmeos. Não é necessário esquentar bancos de faculdades de medicina por longos seis anos e mais dois de residência médica para saber que nessa idade uma criança ainda não se desenvolveu nem física nem emocionalmente. E foi esse o entendimento dos médicos que a atenderam, optando para lhe preservar a vida que lhe havia sido tão terrivelmente sequestrada, e realizando o aborto.

Manda o senso comum que ante mistério muito impressionante não há o que discutir. Os médicos, além de prestar reverência ao juramento de Hipocrates, também precisavam urgentemente prestar contas à sua própria consciência. E então, o que deveria ser gesto digno de louvor transformou-se pelo gesto do arcebispo de Olinda e Recife em sua excomunhão. A mãe da menina também foi excomungada. O arcebispo livrou da severa punição eclesiástica o estuprador, o padrasto, o que não hesitou ao praticar seu ato perverso ferir a própria consciência espiritual e moral. Porque o arcebispo não puniu o delinquente? Sua resposta pausada: ‘O aborto é muito pior do que o estupro’.

Excesso de interatividade

O papel da mídia nessa história, ainda em seus primeiros dias de divulgação, tem sido apenas este: repercutir em espaços reduzidos que contrastam a olho nu com a enormidade do caso. Trata-se de uma notícia em toda a sua inteireza. Tem ineditismo e raridade por qualquer ângulo que se avalie: autoridade máxima da igreja católica em uma das mais antigas dioceses do país excomunga pessoas que autorizaram e que realizaram o aborto de uma criança de 9 anos estuprada pelo padrasto. Por inverossímil que pareça, o destaque não está no fato de a vítima ser uma criança mas sim no fato de os que lhe salvaram a vida praticando o aborto terem sido excomungados do seio de sua própria crença religiosa.

Vemos nesse caso uma justaposição de personagens. O arcebispo sequestra o espaço da vítima, passa a ser ele quem melhor encarna o valor-notícia, e a criança vitimizada passa ser mera coadjuvante. Não pudemos, enquanto audiência, verificar a repercussão do caso por meio das aspas de psicólogos, advogados e juízes, militantes dos direitos humanos. Telejornais colocaram o foco na fala do arcebispo e este acabou criando outros rastros a serem perseguidos, como o de comparar temas e histórias diversas a pretexto de se ter um mesmo parâmetro de justiça. Foi quando invocou o holocausto dos seis milhões de judeus na Alemanha nazista nos anos 1940 com a tragédia que se abateu sobre a criança vítima do padrasto.

O arcebispo foi enfático. Para ele é algo assim escandaloso que pessoas se compadeçam com o assassinato de seis milhões de pessoas e façam ouvidos de mercador ao que chamou de ‘o holocausto silencioso’ representado pela marca dos 50 milhões de abortos realizados anualmente em todo o mundo – e o Brasil estaria realizando 1 milhão de abortos a cada 365 dias. Não vou entrar no mérito pois o assunto em si já dá panos para as mangas e, se brincar, para um traje completo de cavaleiro medieval. O fato é que a TV Globo repercutiu que no Vaticano a decisão do arcebispo foi bem recebida. Feito isso, parece que se esgotou por completo o valor-notícia: já não havia mais o que apurar.

Mas, ora, a essa altura da divulgação dos fatos envolvendo esse caso, o que mais falta é apuração. O público precisa ser informado sobre coisas como:

1. Quando e onde começaram os abusos contra essa criança?

2. Familiares ou outras pessoas teriam sido coniventes, cúmplices ou até vítimas do mesmo crime por parte do mesmo indivíduo?

3. Em que situação o padrastr confessou o estupro e como o caso veio a público?

4. Teria o padrasto estuprado outras crianças, jovens e adultos, além de sua outra enteada de 14 anos?

5. Que tipo de assistência médica e psicológica será provida à (criança) vítima?

6. Neste caso como se aplicariam as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente?

7. Como a sociedade será protegida do criminoso e qual a punição a que ele estará passível?

8. Existem estudos sérios sobre a ocorrência de casos como esse no Brasil?

9. Como relacionar este caso específico com a CPI Contra a Pedofilia em funcionamento no Senado Federal?

10. Em uma época marcada pelo excesso de interatividade nos programas de televisão, jornalísticos ou não, por que emissoras de televisão não interagem com sua audiência instando-as a se posicionar quanto ao acerto ou não das excomunhões decretadas pelo arcebispo de Olinda e Recife?

Peso-pesado

Por outro lado, nossa mídia está tão expert na cobertura de crimes financeiros, corrupção e escândalos políticos, quando não um misto dos três, que assuntos como este aqui abordado – que bem poderia ser a ponta do imenso iceberg – recebe a cobertura ditada apenas pelo sensacionalismo e pelo inusitado, e não aquela devida à sua gravidade e consequências putrefatas de uma sociedade complacente com a violação cada vez mais gritante dos princípios básicos que sustentam isto que chamamos de dignidade humana.

É fato que fiquei estarrecido com todas as cores do caso. Talvez fique mais tranquilo se constatar que nas próximas semanas (ou meses, vá lá) algo mais foi feito pela mídia. Por exemplo, uma entrevista com o arcebispo de Olinda e Recife em talk show como o Roda Viva e o Programa do Jô, um programa de jornalismo investigativo tratando sob vários enfoques das causas, efeitos, estatísticas, prevenção e regularidade da ocorrência de estupros de crianças no Brasil, algo nos moldes dos pastosos Globo Repórter e SBT Realidade, pesquisas de opinião pública nos atualizando sobre quais as situações em que o aborto oficialmente poderia ser permitido, por institutos de renome como o CNT/Sensus, Datafolha e Ibope. Na mesma linha também se poderia perguntar sobre a propriedade da excomunhão, já que cerca de 80% da população brasileira afirma ser de confissão católica apostólica romana.

Implementadas essas sugestões, somente então poderia dizer no silêncio da minha consciência que a humanidade de cada um de nós não foi ferida em vão, que este caso levantou o manto de impunidade que no Brasil costuma ficar colado, como se pesasse centenas de toneladas, sobre crimes dessa natureza.

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Mestre em comunicação pela UNB e autor, entre outros, de Nova Ordem Mundial, novos paradigmas; Viajar é preciso; Macabéa vai ao cinema; Liderança em tempo de transformação; Direitos Humanos – conquistas e desafios. Criou o blog Cidadão do Mundo

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