Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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JORNAL DE DEBATES >

A ilusão de um programa’democrático’ e’pluralista’

Por Guilherme Cardoso em 10/02/2009 na edição 524

Que ridículo, esse negócio de idoso no Big Brother Brasil. Isto é programa para pessoas jovens e bonitas. Que não estão aí pra nada, dispostos a se exibir, simular, dissimular, namorar, beijar, se amassar, ficar com o outro. Descaradamente ou debaixo dos lençóis. Sujeitos que se transfiguram, mentem, adotam personagens e personalidades que não são suas, simplesmente para aparecer, sair do anonimato, melhorar de vida, ganhar algum dinheiro, em prêmios ou em ensaios eróticos ou nus explícitos para conhecidas revistas. Tudo aceitável para quem é mais novo.

Big Brother, reality show, é um programa tipicamente voltado para o público jovem. Embora seja visto por gente de todas as idades. Tem o perfil da ousadia, da emoção, da caretice, do imprevisível. É uma arena, onde os participantes se digladiam. Parecido com o mercado de trabalho, onde a disputa por um bom emprego faz as empresas aplicarem jogos e tarefas muito semelhantes para selecionar o candidato. Um lugar onde o mais astuto, o mais jovem, o mais habilidoso e o mais resistente fisicamente acaba sendo o ganhador de mais prêmios. O que não condiz com os participantes mais velhos.

Quando digo que idoso é velho, não estou discriminando, nem querendo ofender ninguém, pelo contrário. Tento ser coerente. Afinal, todos somos mais velhos, e não mais idosos que alguém. Basta ler no dicionário: idoso é velho mesmo! Errado é aceitar ser chamado de terceira idade, melhor idade. Pura estratégia de mercado. Marketing de vendas. Agora, tem um detalhe: por interesse meu, velho para mim é só a partir dos 70. Defesa de quem está chegando lá na idade.

Viagem de consumo e prazer

Ninguém se iluda pensando que a’grande irmã das comunicações’ quis ser democrática e pluralista colocando pessoas da terceira idade, velhos, participando do BBB9. Quis, sim, atrair mais patrocinadores, ganhar mais dinheiro, conquistar outro mercado consumidor, fidelizar nova faixa de audiência televisiva, recheada de pessoas mais experientes, cultas, boa situação financeira. Como fazem com a comunidade gay.

Insisto em dizer que não concordo e acho muito feio, deslocado até, um cidadão de cabelos brancos, rugas por todo o corpo, querer se portar como se fosse jovem, construindo fofocas, fazendo trejeitos, jogando olhares maliciosos, querendo dar em cima das mulheres da casa. Sabendo que não vai pegar nada! Apreciar belos corpos femininos alimenta o espírito e revigora os desejos. Até dos velhos. Mas sem manifestações públicas. De pessoas maduras, o público em casa espera um comportamento mais sério, reservado.

A Naiá, senhora simpática, também de cabelos grisalhos, deixa a desejar com suas atitudes juvenis e intempestivas, imaginando forças, querendo se igualar e competir com as belas moças da casa. Quer liderar, faz intrigas, provoca disputas e ciumeiras nos participantes, alegando estar jogando. Como o Norberto, deve sair logo do programa, de mãos abanando, sem levar nada em dinheiro e prêmios, sequer sem tirar proveito mercadológico de sua imagem para vencer lá fora.

Diferente dos mais velhos, os jovens, homens e mulheres, continuam lá, no Big Brother, se expondo ao ridículo, como palhaços no circo, mas eles sabem que estão jogando, competindo para ganhar qualquer coisa, dinheiro ou reconhecimento. Passaportes essenciais para prosseguirem mais facilmente a viagem de consumo e prazer que o mundo capitalista oferece somente para as pessoas vencedoras.

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Jornalista, Belo Horizonte, MG

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