Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > COBERTURA ELEITORAL

A imprensa desarvorada

Por Alberto Dines em 19/10/2010 na edição 612

Galvanizada pelas pesquisas, empurrada pelos debates televisivos, sedenta por novos escândalos e incapaz de situar-se na grande barafunda institucional, nossa mídia está devendo à sociedade uma cobrança rigorosa ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral sobre o destino dos votos dados aos candidatos sem ficha limpa. Se preferirem o prejulgamento, os fichas sujas.


Estão sob embargo judicial cerca de 250 candidaturas e mais de oito milhões de eleitores. Houve promessas solenes de que tudo seria resolvido antes de 31 de outubro. Até agora nada aconteceu: o processo eleitoral encerra-se em poucos dias e ninguém parece estar incomodado com a real possibilidade de assistirmos à proclamação do novo presidente da República numa eleição ainda sub judice. A questão não é protocolar: um pleito ainda não julgado, duvidoso, traz embutida uma sensação de desconfiança, desconforto e – por que não? – suspeição.


Situações-limite


O populismo anda à espreita, alguns dos seus expoentes estão no banco dos réus. Se prejudicados, ganharão uma coleção de bandeiras explosivas. Se beneficiados, garantem a impunidade e a perenidade da corrupção política.


Mesmo que os votos com destino incerto não se refiram à eleição para a chefia do Estado, esta incerteza traz consigo uma forte dose de intranquilidade. Um resultado apertado no topo do processo eleitoral pode potencializar insatisfações capazes de contaminar o processo inteiro.


Em meio aos rancores e ressentimentos produzidos numa campanha eleitoral excepcionalmente feroz, a incerteza jurídica relativa à Lei da Ficha Limpa acrescenta-se como fator de acirramento e exaltações. A percepção infelizmente generalizada de que a cúpula do Judiciário receia se pronunciar em situações-limite, graves, compromete ainda mais a imagem da República e a envolve no clima de desleixo e constrangimentos num momento em que deveria irradiar garbo, solidez e respeitabilidade.


Mundo em transformação


Quem tem autoridade para denunciar o descaso, o desmazelo e cobrar pressa? O chefe do Executivo abdicou do papel de magistrado e está praticando o seu esporte preferido – subir nos palanques. O Legislativo está em recesso e acéfalo: o presidente da Câmara dos Deputados é candidato a vice de uma coligação e o do Senado não tem credibilidade para fazer qualquer apelo cívico.


Resta a imprensa. Fragilizada por uma devastadora crise de identidade, pulverizada em centenas de recantos opinativos sem qualquer expressão, visivelmente desnorteada diante de um mundo que se transforma em todas as direções, o Quarto Poder corre atrás, desorientado, de língua de fora, sem agenda e sem projetos, incapaz até de se mirar na passada importância.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/10/2010 Alexandre Ramos

    Como a imprensa e a justiça não cumprem o seu papel, o palanque é o único espaço que sobrou para o presidente exercer o papel de magistrado, como o Dines gosta de dizer. Imaginem se não houvesse o palanque? Quem ía comparar o Serra com o goleiro chileno e a imprensa com partido político?

  2. Comentou em 22/10/2010 Roberto Almeida

    … continuação…

    Nem parece que se passou quase meio século, que o Brasil lutou e reconquistou a democracia e vivemos em pleno Estado de Direito um dos mais longos períodos de amplas liberdades públicas de nossa história, com crescimento econômico, distribuição de renda e desenvolvimento social.

    Faço esta constatação com muita tristeza, com dor na alma, pois a imprensa e a religião católica são importantes na minha vida desde menino, foram duas instituições fundamentais na minha formação. Sempre tive muito orgulho de ser jornalista e de professar a fé católica. Agora, confesso que muitas vezes sinto vergonha. Explica-se: sou do tempo de Cláudio Abramo e D. Paulo Evaristo Arns…

    Agora, ancorado aqui na internet com o meu Balaio e na Brasileiros, uma revista mensal de reportagens que ajudei a criar, acompanho de longe esta guerra santa em que se transformou a campanha presidencial, com igrejas, jornalistas, padres e pastores tomando partido fanaticamente a favor de uma candidatura e contra a outra.

    Jamais tinha visto nada parecido na cobertura de uma eleição – tamanhas baixarias, tantos preconceitos, discursos tão vis e cínicos, textos inacreditavelmente sórdidos publicados em blogs e colunas – desde os tempos em que não podíamos votar para prefeito, governador nem presidente da República.

    …continua…

  3. Comentou em 21/10/2010 Luciano Prado

    “Resta a imprensa. Fragilizada por uma devastadora crise de identidade, pulverizada em centenas de recantos opinativos sem qualquer expressão, visivelmente desnorteada diante de um mundo que se transforma em todas as direções, o Quarto Poder corre atrás, desorientado, de língua de fora, sem agenda e sem projetos, incapaz até de se mirar na passada importância”.
    Não seria mais simples afirmar: Resta a velha e carcomida imprensa brasileira no limite da bandidagem.
    Pois, o que é o dossiê Serra/Aécio se não a ponta do iceberg da grande bandidagem que toma conta da velha e carcomida imprensa brasileira? O problema é que ninguém quer tocar no assunto. Fica-se na superfície. E a podridão consumindo o que resta de dignidade na velha mídia.

  4. Comentou em 21/10/2010 Vicente Senna

    Meu caro Dines, você e o OI têm nos mostrado o quanto anda desarvorada, sem rumo e até mesmo comprometida a nossa mídia. Escamoteia a imparcialidade que vende como meta. Então, pergunto: o rumo tomado por nossa mídia não seria um abuso da liberdade de imprensa? Ela está falhando enormemente no seu compromisso de de informar com isenção. E não aceita críticas. Ou seja: liberdade de expressão, para a mídia brasileira, tem mão única. A dela somente.

  5. Comentou em 20/10/2010 Elcio Machado

    Latim. Latim, professora Cristina Borges, de Fortaleza. Língua mais precisa, com menos ambiguidades, já usada por alguns ramos da ciência. E com uma imensa vantagem: o povão simplesmente não a conhece, não a entende. O problema é que as elites não a querem, exatamente porque não permite tantas interpretações. Já pensou o Dines defendendo a mídia, ao desancá-la, em latim?
    Não, a falta de assertividade é a marca do jeitinho brasileiro, das leis que ‘pegam’ e das que ‘não pegam’, do observador-mór, ele próprio em devastadora crise de identidade.

  6. Comentou em 20/10/2010 Elcio Machado

    Latim. Latim, professora Cristina Borges, de Fortaleza. Língua mais precisa, com menos ambiguidades, já usada por alguns ramos da ciência. E com uma imensa vantagem: o povão simplesmente não a conhece, não a entende. O problema é que as elites não a querem, exatamente porque não permite tantas interpretações. Já pensou o Dines defendendo a mídia, ao desancá-la, em latim?
    Não, a falta de assertividade é a marca do jeitinho brasileiro, das leis que ‘pegam’ e das que ‘não pegam’, do observador-mór, ele próprio em devastadora crise de identidade.

  7. Comentou em 19/10/2010 José Ximenes

    Ainda existem jornalistas que insistem nessa expressão antiquada e cafona, referindo-se a imprensa como ‘Quarto Poder’. No entanto, ainda sobrevivie a figura do ‘colega’. Ou, se preferirem, patrão.

  8. Comentou em 19/10/2010 galeno pupo

    Dines:
    ‘Resta a imprensa’? Qual imprensa Dines. Ela não existe no Brasil.!
    Morreu. Não é crise de identidade não, ela tem identidade sim. É de direita, conservadora, preconceituosa, retrógada, tangência ao facismo! Este OI está cego, do seu ‘belvedere’ só vê neblina. Mas usando de um lugar comum, ( as vezes o bom senso é comum) , A pior cegueira é aquela de quem não quer ver.
    Requiem para o OI – Observatporio da imprensa- morre nestas eleições, junto com seu objeto de estudo.
    Galeno de Almeida Pupo

  9. Comentou em 23/03/2010 Mariana Ribeiro

    Gostaria de saber qual e o numero do projeto de lei destacado nesta noticia de 9 de marco de 2010:
    ‘Projeto de lei aprovado pela Câmara Federal limita a meio minuto o tempo de imagens de flagrantes de disputas esportivas que podem ser exibidas em programas esportivos sem pagamento de direitos. Na legislação em vigor, esse limite é de 3% do tempo da partida -num jogo de futebol equivaleria a três minutos. O projeto ainda precisa passar pelo Senado e ir a sanção ou veto presidencial’

    Fiz uma pesquisa no site da Camara dos Deputados e nao encontrei nada a respeito.

    Gostaria de saber igualmente qual e lei mencionada que limita a 3% do tempo do jogo?

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