Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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A insustentável leveza da web

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 27/06/2011 na edição 648

Em A Insustentável Leveza do Ser – romance de Milan Kundera publicado em 1984, depois levado ao cinema –, Tereza é uma repórter fotográfica que de maneira corajosa e quase compulsiva registra cenas da invasão de seu país, a então Tchecoslováquia, pela União Soviética, em 1968.

Suas fotos (como, na realidade, as dos verdadeiros fotógrafos presentes aos acontecimentos) serviram às forças da repressão para identificar e punir manifestantes que haviam se contraposto aos soldados invasores.

No filme, Tereza (vivida pela lindíssima e excelente atriz Juliette Binoche) vê, perplexa, o seu trabalho utilizado pelos agentes da polícia política para acusar oposicionistas.

No livro, ao ser informada de que o filho de uma conhecida havia sido condenado a cinco anos de prisão após julgamento em que a única prova material contra ele era uma foto publicada no New York Times,na qual ele aparecia agredindo um soldado russo, Tereza pensa sobre si própria e seus colegas: “Como tinham sido ingênuos! Acreditavam estar arriscando a vida pela pátria, em vez disso estavam trabalhando sem saber para a polícia russa”.

Esse episódio literário ilustra um dilema do jornalismo que já não era novo na época. William Shirer, um dos melhores correspondentes da história, reflete longamente em suas memórias – Berlin Diary: The Journal of a Foreign Correspondent –sobre sua constante preocupação a respeito da possível identificação de fontes a partir do teor das informações que publicava. Algumas delas de fato foram presas por anos pelo regime nazista.

“Justiça vigilante”

A questão de o jornalismo proporcionar a agentes do Estado a chance de saber quem cometeu atos considerados delituosos é, portanto, quase tão antiga como a própria atividade. O que se define como crime é também um problema nada recente: para as autoridades tchecas pós-Primavera de Praga os antissoviéticos eram criminosos, assim como os defensores de direitos humanos para as do Terceiro Reich. Certamente para muitos de nós essas pessoas não eram criminosas, mas as que as perseguiam e puniam o eram.

Não se pode deste modo e neste assunto (aliás, em quase nenhum assunto jornalístico) atribuir às novas tecnologias digitais de informação a responsabilidade por dificuldades profissionais de ordem ética que têm vindo à tona com mais relevância desde que elas se disseminaram.

No entanto, não há dúvida de que sua quase universalização tornou alguns pontos que já eram de complicada resolução mais agudos e comuns. Tome-se, por exemplo, os recentes incidentes de violência urbana na cidade canadense de Vancouver, após a derrota do time local na final do principal campeonato norte-americano de hóquei.

Na noite de 15 de junho, frustrados com o resultado da partida e muitos deles bastante intoxicados por álcool e outras drogas, milhares de jovens que haviam assistido ao jogo em telões na área central da cidade iniciaram arruaças que se estenderam pela madrugada, enfrentaram os policias enviados para detê-los, viraram e queimaram dezenas automóveis, destruíram e saquearam várias lojas, provocaram centenas de feridos e uma morte.

Nos cinco dias posteriores ao tumulto, a polícia de Vancouver havia recebido espontaneamente 3.500 e-mails com 53 vídeos, 708 fotografias e 1.011 links para mídias sociais como Facebook, mandados a ela por pessoas com a intenção de ajudá-la a identificar e punir manifestantes.

As denúncias chegaram a tal ponto que a própria polícia divulgou um comunicado para conclamar o público a “resistir à tentação de fazer justiça com as próprias mãos” e parar de usar as mídias sociais como instrumento de “justiça vigilante”.

Aparências enganam

Uma das mais assustadoras tendências sociais nos EUA, pelo menos desde os anos 1960, é a da “vigilância comunitária”. Em calmas vizinhanças de subúrbios de classe média alta de grandes cidades americanas, placas nas ruas avisam que os moradores estão de olho em todos e prontos a fazer denúncias sobre atividades suspeitas. Essa atitude coletiva de dedo-duro só se fortaleceu após 11 de setembro de 2001, tendo provocado, como se sabe, centenas de injustiças escandalosas contra cidadãos de origem árabe.

O aparato tecnológico digital nas mãos de praticamente todos e esse espírito denuncista podem transformar o mundo no Estado policialesco que os adeptos de Stálin e Hitler julgariam o paraíso na terra. “A cena do crime se expandiu. Não é mais apenas o mundo físico, mas a nuvem da internet”, disse Todd Shipley, especialista em técnicas forenses dos EUA sobre o caso de Vancouver, considerado o primeiro significativo exemplo de uso de mídias sociais para identificação de possíveis transgressores da lei.

Essa prevalência do uso de tecnologia digital para localizar eventuais criminosos é demonstrada de forma bem-humorada e inteligente por uma reportagem fictícia da edição televisiva da genial revista satírica americana The Onion, que pode ser vista aqui.

As câmaras de vídeo e fotografias dos telefones inteligentes e o incentivo à prática do “jornalismo cidadão” podem tanto transformar as sociedades em lugares de convívio mais seguro quanto absolutamente intoleráveis pela total ausência de privacidade. Além disso, a falta de experiência profissional dos chamados “jornalistas cidadãos” pode também tanto esclarecer situações relevantes indecifráveis quanto induzir a erros mortificantes.

Se, por exemplo, o assassinato de John Kennedy tivesse ocorrido na era da informática, e não em 1963, talvez as dúvidas sobre as circunstâncias de sua morte não tivessem se mantido misteriosas por quase meio século.

O único documento visual daquele crime foi o célebre filme feito por Abraham Zapruder com sua câmera doméstica super-8, registro de notável importância histórica, mas insuficiente para determinar de maneira definitiva de onde vieram os tiros que mataram o presidente. Atualmente, qualquer fato similar é registrado por tantas pessoas que possivelmente todas as suspeitas tivessem sido em pouco tempo esclarecidas.

Por exemplo, a já famosa foto (abaixo) de um casal se beijando numa rua de Vancouver enquanto policiais e manifestantes se enfrentavam, interpretada em todo o mundo como demonstração de amor tão apaixonado a ponto de ignorar a violência que o circundava, na verdade era uma cena de algo muito diferente do que se supôs.

Valor maior

Um vídeo feito por alguém que estava numa varanda bem acima de onde estava o casal mostra que, de fato, o rapaz não estava beijando a moça com sentido erótico ou romântico, mas sim para tentar aplacar a quase histeria dela, após os dois terem sido agredidos por policiais. A ausência de traquejo jornalístico do “jornalista-cidadão” que registrou a cena fez com que ele perdesse grande parte da sequência, que teria sido muito mais esclarecedora se acompanhada em sua integridade, como se pode verificar aqui. Em vez de manter a câmara sobre o casal e os policiais que os agrediam, o cinegrafista moveu sua atenção para outros policiais mais à frente.

Os entusiastas acríticos do admirável mundo novo em que vivemos provavelmente acham tudo isso ótimo e também terão se regozijado com o fato de que a polícia federal dos EUA, o famoso FBI, igualmente se rendeu à mídia social com excelentes resultados de seu ponto de vista.

Depois de tentar com seus métodos tradicionais de investigação por 16 anos sem êxito localizar e prender um dos homens mais procurados do país, o líder mafioso James “Whitey” Burger (que inspirou o personagem Costello, que Jack Nicholson interpretou no filme Os Infiltrados, de Martin Scorsese), o FBI o achou e deteve em menos de 24 horas depois de postar nas redes sociais retratos da namorada dele. Os dois viviam tranquilamente em Santa Monica, Califórnia, e agora estão na cadeia em Boston, Massachusetts, à espera de julgamento pelos crimes de que são acusados, inclusive 19 assassinatos.

Do que reclamar, então? A proliferação das tecnologias digitais e sua instantânea circulação pela web aceleram a justiça, punem malfeitores, iluminam a opinião pública, promovem a participação coletiva. Não é tudo isso a simples e total realização dos melhores sonhos humanistas?

Antes fosse assim tão simples. Porque, além da dúvida fundamental do que seja crime ou ilícito de acordo com o tempo e o lugar em que se vive, e da duvidosa vantagem de se viver numa sociedade em que qualquer um pode ser um agente policial, ainda há o tema muito mais sério de que essa nova civilização está abrindo mão de modo célere e aparentemente inevitável de um dos maiores valores da que lhe antecedeu: o do direito à privacidade.

Leveza radical

No mesmo A Insustentável Leveza do Ser, seu autor Milan Kundera diz, ao relatar um incidente histórico verdadeiro de sua Tchecoslováquia recém-invadida pelos soviéticos (um colega intelectual foi preso e condenado com base em gravação secreta feita em sua casa durante um jantar e transmitida pela rádio oficial no decorrer de seu julgamento):

“Quando uma conversa com amigos diante de um copo de vinho é divulgada pelo rádio, uma coisa fica evidente: o mundo transformou-se num campo de concentração. (…) O campo de concentração é um mundo onde as pessoas vivem umas sobre as outras dia e noite. As crueldades e as violências são apenas aspectos secundários e supérfluos. O campo de concentração é a liquidação total da vida privada”.

Poucas imagens são mais expressivas da nossa realidade atual do que esta, do campo de concentração, em que a privacidade desaparece por completo. As pessoas agora se expõem voluntariamente ou são expostas desavisadamente em sua intimidade absoluta. Com efeitos que podem ser devastadores a ponto de provocar suicídios ou assassinatos.

O fabuloso Italo Calvino não chegou a presenciar este atual estágio da civilização, mas o prenunciou com grande clarividência em Seis Propostas para o Próximo Milênio, escrito em 1985. Ele trata do romance de Kundera, o qual diz ser…

“…uma constatação amarga do Inelutável Peso do Viver: não só da condição de opressão desesperada e all-pervading que tocou por destino ao seu desditoso país, mas de uma condição humana também comum a nós (…). O romance [de Kundera] nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapem à condenação”.

Em seguida, Calvino fala da informática, que ainda engatinhava como instrumento de socialização universal e cuja leveza insustentável ele já previa:

“É verdade que o software não poderia exercer seu poder de leveza senão mediante o peso do hardware [em 2011, até isso está deixando de ser verdade com o advento das nuvens cibernéticas]; mas é o software que comanda, que age sobre o mundo exterior e sobre as máquinas, as quais existem apenas em função do software, desenvolvendo-se de modo a elaborar programas de complexidade cada vez mais crescente”.

A leveza da web é fantástica e pode ser mais insuportável do que a do ser (aliás, a melhor tradução para o português de “unbearable lightness of being”, título em inglês do livro de Kundera seria “insuportável leveza do ser”).

Nas páginas iniciais de seu romance, o autor reflete sobre como algumas pessoas (o personagem principal da trama, por exemplo, o cirurgião Tomas) encaram a vida como algo de esplêndida leveza: “Como condenar o que é efêmero?”, pergunta ele. E o que há de mais efêmero do que a vida na web, pode-se perguntar agora?

Mas Kundera faz a ponderação:

“Por outro lado, a ausência total do fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, o ser terrestre, faz com que ele se torne semirreal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes”.

O referencial filosófico de Kundera é Parmênides, que dizia que o leve é positivo e o pesado, negativo. Mas o tcheco questiona:

“Teria [Parmênides] ou não razão? Uma coisa é certa. A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições”.

Nós todos, que conhecemos a dor e a delícia de viver nestes tempos da extrema leveza da web, poderíamos ao menos meditar um pouco sobre esta contradição antes de exaltá-la ou denegri-la por ser o que é. Antes que essa leveza radical possa se tornar radicalmente insuportável.

 

Leia também

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

***

[Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista]

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