Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > CAIXA DE PANDORA

A lealdade de um jornal a seu governador

Por Rodrigo Mendes em 15/12/2009 na edição 568

A atenta crítica da mídia tem levantado a bola da cobertura feita pelo maior jornal de Brasília, o Correio Braziliense, do escândalo envolvendo o governador José Roberto Arruda e seu vice, Paulo Octávio. Em uma série de artigos para o Observatório da Imprensa, por exemplo, Venício Arthur de Lima, entre outros, tem explorado a disparidade entre a cobertura dada pelo Correio e a de outros jornais, como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo.

A conclusão de Lima é a mesma a que qualquer pessoa poderia chegar ao se analisarem as manchetes, dia a dia, dos jornais a respeito do caso; o viés das principais matérias e seu foco; as ligações institucionais entre Correio Braziliense e governo do DF. Primeiro, que toda a cobertura sobre o escândalo do mensalão envolvendo governador e vice passa ao largo dos dois. O viés dado pelo Correio tangencia, nem sempre de maneira miraculosamente habilidosa, as figuras do governador e do vice.

A idéia de que a cobertura do CB sobre o caso se utiliza do artifício do sujeito oculto é a mais precisa para descrever seus textos. A ambigüidade se tornou norma nessa cobertura, que relegou o nome ‘José Roberto Arruda’ para vigésimo plano, nunca estando presente nas manchetes ou nas primeiras linhas das matérias que tratam do assunto.

O que mais chama atenção é o Correio Brasiliense, nas palavras de Chico Sant´Anna, ‘(…) se recusar a informar que o governador é o alvo central da operação Caixa de Pandora comandada pelo Ministério Público Federal com autorização do Superior Tribunal de Justiça’, em texto para o Observatório da Imprensa (‘Cobertura do CB tem sujeito oculto’).

Juntas ultraflexíveis

Segundo, o Correio sempre trata do caso se mantendo um passo atrás das evidências. Portanto, enquanto todos já aceitavam que havia algo errado, enquanto Arruda já mostrava seu bailado ao tentar explicar, com panetones, os vídeos com maços de dinheiro sendo passados de mão em mão e sendo guardados em lugares íntimos, o Correio apenas admitia que houvesse ‘uma suspeita’.

Ao se apertar o cerco sobre Arruda, a extensa cobertura do CB trouxe diversas fotos envolvendo o ‘mensalão do DEM’. Nenhuma delas tinha Arruda. Uma, que ocupava um quarto de página, trazia Durval Barbosa, secretário de Relações Institucionais do governador do Democratas e responsável pelas denúncias e gravações secretas, ao lado do adversário e desafeto de Arruda, Joaquim Roriz, ex-governador. A legenda da foto lembra aos leitores que Durval ocupou o cargo de presidente da Companhia de Desenvolvimento do Planalto na gestão Roriz, tendo sido condenado por improbidade.

Quando se sabe que o governo candango é responsável por cerca de 10% das assinaturas do CB e seu dono participa de reuniões com o mandatário enquadrado, é praticamente impossível não apontar para uma completa falta de integridade na cobertura dos acontecimentos. Outros jornalões de alcance nacional estamparam por vários dias seguidos fotos de Arruda e manchetes peremptórias, apresentando-o ao público em seu devido lugar: o de eixo central de todo o esquema de propinas e, claro, das investigações.

Ao contrário do paradigma básico do jornalismo, de entregar o ouro logo de cara, dizendo no começo da matéria quem fez o que, aonde, como, quando e por que (o beabá do lide, repetido como mantra), o Correio demonstrou ter juntas ultraflexíveis ao rebolar para tirar Arruda do foco de sua cobertura, criando matérias que pareciam uma completa cobertura do caso mas, no fim das contas, diziam muito pouco sobre o que de fato aconteceu.

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