Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

JORNAL DE DEBATES > CONSELHO FEDERAL DE JORNALISMO

A lógica de Aristóteles

Por Marcelo Oliveira em 31/08/2004 na edição 292

A afirma que B mente, B afirma que A mente. Quem fala a verdade? O governo Lula vem recebendo graves críticas desde que defendeu a idéia da criação do Conselho Federal de Jornalismo. Uma das teses alega que os meios de comunicação estejam faltando com seu compromisso com a verdade para defender interesses obscuros, e por isso um órgão de fiscalização deveria ser criado. A recente repercussão do caso Ibsen foi citada como justificativa para tal, argumento refutado amplamente por todos os meios de comunicação.

Não é meu interesse aqui discordar dos ilustres jornalistas. Seja por cautela, pois certamente destruiriam qualquer idéia saída desta mente pouco abastada com sua elevada destreza comunicativa. Ou por mero pudor, já que correria o risco de defender ingenuamente a censura, o fim da liberdade de imprensa etc.

Tiro certo

Para adentrar em tão perigoso território, como bom covarde preferi me esconder embaixo da toga de Aristóteles, de modo que, se por ventura o seguinte argumento alimentar a fúria de alguns, que esta recaia sobre o grego de Estagira, e não sobre mim, um mero consumidor da informação produzida por vocês jornalistas.

O raciocínio é simples: qualquer idéia que sugira que o ‘mau jornalismo’ é praticado por qualquer grande veículo de comunicação levará a um argumento relevante para a criação do famigerado conselho. Começarei pelo caso Ibsen, mas não o usarei da forma em que foi colocado por alguns na defesa da criação do órgão. Recairei sobre a briga entre a revista Veja e a IstoÉ originada na polêmica do caso. As premissas: a revista IstoÉ acusa sua concorrente de manipular intencionalmente informações que levaram à injusta cassação do político na matéria publicada há 11 anos, e insistir no erro de ‘manipulação’ nos seus recentes contra-ataques. A Veja se comporta de maneira semelhante, e acusa a IstoÉ de ‘jornalismo fraudulento’ ao publicar as acusações.

Aí, pela lógica: se uma afirmação contradiz a outra, ao menos uma das duas não é verdadeira. O que significa que ao menos um desses respeitáveis meios de comunicação está faltando com a verdade. Qual deles? Não importa, ao menos para o desfecho indiscutível deste humilde texto: há algo de podre no jornalismo brasileiro, e talvez (talvez!) um Conselho Federal de Jornalismo não seja uma idéia tão estúpida assim.

Ou ainda: neste tiroteio editorial, o único tiro certo é no próprio pé, o da credibilidade jornalística.

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Analista de sistemas, Brasília

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