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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

A mãe da pátria

Por Tulio Muniz em 24/08/2010 na edição 604

Luiz Inácio falou, n´O Globo de 18/08: ‘O Brasil precisa de uma mãe.’ Os adversários reagiram, sobretudo Marina Silva que, em debate pelo site UOL, reiteradas vezes apontou para uma ‘infantilização’ do processo eleitoral. Entretanto, a estratégia da candidatura Dilma é a de unir dois elementos marcantes da sociedade brasileira: o patriarcalismo e o nacionalismo. Daí, Dilma evocar, simultaneamente, sua ‘gaucheza’ e sua ‘mineiridade’, endossada pelo ‘nordestino’ Lula.

Dilma associa sua imagem a dois dos presidentes mais populares da história: Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Se Getúlio, do Rio Grande do Sul, foi o ‘Pai dos pobres’ pelo viés populista, JK, de Minas Gerais, foi um ‘padrinho’ pelo viés nacional-desenvolvimentista.

É um tipo de reificação do que Sérgio Buarque de Holanda [Holanda, Sérgio Buarque de (2001), Raízes do Brasil, São Paulo, Companhia das Letras] chamou de ‘patrimonialismo’, que tanto o populismo patriarcal (‘matriarcal’, no caso) quanto o nacionalismo alimentam. O patrimonialismo é a assimilação de um modelo social e principalmente familiar. O mesmo, segundo Holanda, que determinava a ação do ‘homem cordial’, o ‘tipo brasileiro’ cujo modelo familiar é a antítese da sociedade urbana moderna, em que o ‘patrimonialismo’ prepondera sobre a ‘burocracia’ weberiana, um tipo social formado no interior da estrutura familiar, sob o peso das relações de simpatia, averso aos agrupamentos, às relações impessoais, ao Estado.

Inspirações patriarcais

O ‘homem cordial’ seria uma extensão do ‘familiarismo’ lusitano que José Gil apontou décadas depois de Holanda, mas com afinidades significativas. Em sua análise acerca do Portugal contemporâneo, Gil localiza uma determinada ‘antiga família’ que estaria desaparecendo, mas que marca a sociedade portuguesa nas limitações de suas relações exteriores ao espaço familiar:

‘Esse tipo de família gerou comportamentos, automatismos, maneiras de se relacionar material e espiritualmente tão poderosos que condicionaram globalmente o que se poderia chamar a afectividade social. Ou seja, o modo espontâneo, imediato, com que se estabelecia uma relação social qualquer, seguia um padrão determinado, o familiarismo, em que a afectividade familiar representava um eixo essencial. O familiarismo envolvia por dentro o mundo português, desde a família popular até o Estado. […] Os portugueses eram todos parentes. O familiarismo induzia uma vasta promiscuidade social, a famosa ‘gregariedade’ lusitana. […] Com estilos e intensidades diferentes, reinava na alta burguesia como no povo’ [Gil, José (2007), Portugal Hoje. O medo de Existir, Lisboa, Relógio D’Água, pg. 54].

Até agora, muitos governantes, inclusive Lula, se valeram dessas inspirações patriarcais, que geram uma aproximação direta e massiva com grandes estratos sociais, sobretudo os mais pobres, imensamente beneficiados com a adoção dos programas de distribuição de renda nos últimos anos.

Sociedades cada vez mais esclarecidas e exigentes

O caminho parece ter resultado positivamente para a campanha de Dilma, a quem a mídia adversária não consegue colar a pecha de ‘perigosa’ e ‘subversiva’, em especial as (des)Organizações Globo, como foi a infeliz capa ‘O passado de Dilma’, da Época de duas semanas atrás. Se a revista visou deteriorar a imagem da candidata ‘guerrilheira’ (como já havia tentado a Folha), a bomba explodiu em seu próprio colo. Na TV, a propaganda eleitoral devolveu com a imagem da ‘guerreira’, com todas as concepções positivas que o termo tem junto à população quando associado a uma mulher bem sucedida.

A Época falou em vão. A Folha OnLine de 21 de agosto veiculou pesquisa do DataFolha onde Dilma aparece com 17 pontos percentuais à frente de Serra, na primeira semana do horário eleitoral. A questão será saber se, no governo, a presidente Dilma não será refém dessa retórica patrimonialista, que tanto pode fortalecer programas sociais importantes quando fragilizá-los.

Sobretudo porque são muitos os casos de governantes que não promovem uma transição dos paradigmas que eles próprios criam. Se deixam seduzir pela fixidez de seus próprios discursos, no que FCH talvez seja o melhor exemplo, mas também os há nas esquerdas. Permanecem slogans esvaziados de sentidos e desfasados pelo correr do tempo e das novas demandas que surgem em sociedades cada vez mais esclarecidas e exigentes.

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Jornalista, historiador e doutorando em Pós-Colonialismo e Cidadania Global na Universidade de Coimbra, Portugal

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