Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES 2010

A manipulação do aborto

Por Cristiano Aguiar Lopes em 26/10/2010 na edição 613

Como em um passe de mágica, o aborto tornou-se o grande tema das eleições presidenciais deste ano. Em poucos dias, um assunto para o qual raramente a imprensa volta seus olhares virou a principal pauta de grande parte dos veículos de comunicação, ocupando páginas e mais páginas dos principais jornais e revistas do país. Seria leviano afirmar que o tema foi introduzido na agenda nacional pela equipe de campanha de José Serra – embora o candidato tenha se esmerado em colher seus dividendos políticos. Mas, como mostram dados que levantamos ao longo dos últimos 50 dias – de 1º de setembro a 20 de outubro –, podemos afirmar com absoluta certeza que houve um esforço coordenado e eficiente dos principais jornais e revistas do país para insuflar a polêmica sobre o tema com vistas a um fim eleitoral mais que óbvio: roubar votos de Dilma entre eleitores conservadores contrários à descriminalização do aborto.


Durante estes 50 dias, medimos as menções ao tema ‘aborto’ em 29 publicações – entre elas os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo; e as revistas Veja e Época. Os dados foram obtidos da resenha diária de jornais e revistas elaborada pela Câmara dos Deputados. Essa resenha privilegia matérias publicadas nas seções ‘Brasil’ e ‘Política’. Se, por um lado, essa mostra pode ter gerado uma sub-contagem do número de menções do termo ‘aborto’, ao não trazer a totalidade das matérias publicadas no período, por outro fez com que essa contagem se focasse em artigos com maior relevância na disputa eleitoral. E, mesmo com essa possível sub-contagem, os números impressionam.



A polêmica e a novidade


Como se pode perceber no gráfico, há um notável desequilíbrio da distribuição das menções ao termo aborto, com dois picos visivelmente pronunciados: em 30 de setembro, com 149 menções, e em 8 de outubro, com 430 menções. Também fica muito visível o timing da publicação de matérias sobre o aborto. A primeira escalada de citações do termo ocorre nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, com 149 e 67 menções, respectivamente – estávamos a dois dias do primeiro turno. A segunda se inicia logo depois do dia das eleições: 37 menções em 4 de outubro, 79 no dia 5, 219 no dia 6, 343 no dia 7 e impressionantes 430 no dia 8. Salta aos olhos o objetivo eleitoral desse timing.


A primeira escalada ocorre pouco antes do primeiro turno e tem como objetivo conquistar os votos de indecisos e de dilmistas não muito convictos. A segunda, bem mais intensa, busca transferir para Serra os votos de um grande contingente de eleitores conservadores – sobretudo católicos e evangélicos – contrários à descriminalização do aborto. Bom ressaltar que a segunda escalada ocorre na primeira semana após a realização do primeiro turno, justamente o período em que a maior parte daqueles que votaram em candidatos derrotados decidem o seu voto para o segundo turno.


Corrobora essa tese o fato de que, em uma análise qualitativa preliminar das matérias pode-se notar a construção simbólica de duas forças antagônicas sobre o aborto: Dilma, a ateia, cujas declarações contraditórias revelariam sua verdadeira opinião em favor da descriminalização da prática; e Serra, o religioso, que seria historicamente contrário à descriminalização. Ressalte-se que esta análise qualitativa ainda está sendo realizada, mas os primeiros dados corroboram fortemente a tese da construção desse antagonismo simbólico.


Uma mente mais cética questiona: não poderia ter sido isso uma grande coincidência? O tema aborto não teria entrado em pauta e ganhado tanto destaque simplesmente por um acaso do destino? Uma regra de ouro para um tema entrar ou não em pauta é o seu valor-notícia. E, dentre diversos fatores, dois são fundamentais no cálculo desse valor: a polêmica e a novidade. Caso encontrássemos fatores que dessem ao aborto esse valor-notícia estrondoso, que justificasse uma cobertura mais que intensa da mídia brasileira e justamente em momentos cruciais da definição das eleições, nossa hipótese iria por água abaixo.


Ação que empobreceu o debate


Que há polêmica sobre o aborto, não resta dúvida. Mas, e a novidade? Havia fatos novos que justificassem a publicação de matérias sobre o aborto justamente nesses períodos críticos das eleições? E há valor-notícia que justifique a manutenção de níveis altos de menção ao aborto nesse período entre o primeiro e o segundo turno das eleições? Pelo que pudemos analisar, a resposta é não para todas as questões. O único fato verdadeiramente novo sobre o tema que encontramos na mostra analisada ocorreu em 23 de setembro, no debate entre presidenciáveis organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na entrada do auditório da Universidade Católica de Brasília, onde foi realizado o debate, um grupo de 15 católicos e evangélicos estendeu uma faixa na qual se lia: ‘Dilma Anticristo, nós cristãos não matamos’. Segundo eles, Dilma seria a favor do aborto.


O acontecimento gerou 40 menções ao termo aborto nos jornais no dia 24 de setembro. E só. Pouco se falou sobre o tema nos dias seguintes. Até que, no dia 30/9, houvesse 149 menções ao termo devido à promessa de Dilma de não legislar sobre o tema. A declaração era resposta a uma onda de boatos, que havia se intensificado na internet nos dias anteriores, segundo os quais a petista seria favorável ao aborto. E a partir daí os únicos acontecimentos novos foram especulações ou declarações de ambos os candidatos sobre o tema.


O número de menções ao termo aborto, a falta de elementos jornalísticos que justifiquem tantas matérias sobre o tema e o timing de concentração das menções, que coincidem com momentos críticos das eleições, demonstram que a grande imprensa exerceu um papel fundamental no agendamento do tema aborto, com intuitos eleitorais muito evidentes. A ação da mídia empobreceu e continua empobrecendo o debate eleitoral ao quase centralizar a disputa em um único tema. Perde o eleitor. Perde a opinião pública. Perde o país. Mas ganhamos nós, analistas da mídia, que podemos observar em tempo real e com grande riqueza de detalhes as peripécias que a nossa imprensa anda realizando.

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Jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e consultor legislativo da Câmara dos Deputados; editor do blog Museu da Propaganda

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/10/2010 Boris E. Dunas

    Mostrando que ninguém pode ser uma completa nulidade em todos os assuntos, o nosso Consultor de PinTuras-não-petistas avisa que “brocha” é com “x”. Nesse particular não ouso contestar sua autoridade.

  2. Comentou em 28/10/2010 Marcio Augusto

    Realmente, é hilário como a direita troglodita tenta, de toda forma, reinventar as coisas. A tentativa de se confundir descriminalização do aborto com legalização do aborto é uma prova do nível real dessas pessoas. Certamente, acham que os outros só se informam por meio de Estadão e Veja. Entendo o desespero dessa gente, pela derrota acachapante que se avizinha no próximo domingo, mas será que não há mais vida inteligente na direita, que já deu ao Brasil um Roberto Campos, Delfim Netto, ou um Raymond Aron e um André Glucksmann, na França, por exemplo? E são tão limitados que qualquer um que os conteste é ‘petista’. Mais uma prova de sua sanha policialesca e de sua saudade dos tempos de ditadura, onde o perfil ideológico de um eventual oponente deveria ser rastreado. Patético.

  3. Comentou em 28/10/2010 Marcio Augusto

    Parodiando o hino do Flamengo, ‘uma vez fascista, sempre fascista’. Ou seja: uma vez mentiroso, sempre mentiroso. Uma vez distorcidos os fatos, vamos martelar até que a distorção torne-se a única versão possível das coisas. Herr Goebbels parece que fez escola nestas bandas e, ao que tudo indica, alguns de seus alunos frequentam este OI. ‘Descriminalizar o aborto não significa promover o aborto, mas significa perceber que a via penal não é a melhor forma de tratar a questão.’ Depois: ‘Se compararmos o número de abortos feitos e o número de processos se encontrará uma enorme discrepância. Nos últimos dez anos não se contabiliza, no Brasil, mais de 15 processos por aborto. A relação com o adultério nos serve, principalmente, para compreender o sentido da descriminalização. Criminalizar o adultério ocorria não apenas para proteger a moral familiar, mas a propriedade. Ou seja, era o meio de garantir que a mulher não teria filhos fora do casamento.’ http://www.universia.com.br/docente/materia.jsp?materia=8388

  4. Comentou em 27/10/2010 Igor M. Rodrigues

    Eu concordo com o Sr. Boris e o Sr. Fábio. Achei, inclusive, que o Fábio dissecou bem a questão. O PT, na verdade, não tinha toda essa bola dos 96% do Lula (dados divulgados na “PIG” e aceitos por petistas) para se transferir para Dilma. Precisavam de mais votos, que se concentravam na ala dos cristãos. Só que para isso, teriam que aceitar às determinações das igrejas, principalmente da ICAR. E foi o que aconteceu: o PT, que sempre teve como bandeira histórica o aborto, teve que se declarar contra. Em época de eleição, desonestidade vira manchete (sempre foi assim!), e acabou que o PT deu o motivo para tanta polêmica sobre o assunto. Se Dilma tivesse caráter e honestidade, teria uma postura ideológica e manteria sua posição favorável à descriminalização do aborto – e o assunto sumiria logo. Mas como o PT é 2º maior partido fisiológico do Brasil, e que eles mesmos não acreditam nos suspeitos 96% de aprovação do governo Lula, ela teve que mentir, e, na ausência de argumentos para sustentar a “mudança” de opinião, passou a posar de vitima.

  5. Comentou em 27/10/2010 antonio motta

    brilhante análise objetiva, pautada nos fatos, sem nenhum tipo de subjetivismos ou psicologismos.
    A interpretação fica à cargo dos leitores, que poderão escolher os óculos mais convenientes para suas conclusões já sabidas a priori.

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