Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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JORNAL DE DEBATES >

A manipulação nas pesquisas

01/09/2009 na edição 553

As críticas à Folha de S.Paulo que se seguiram à divulgação da última pesquisa de intenção de votos para a presidência da República, no último dia 16/08, e à avaliação do desempenho do governador José Serra, no dia 17/08, pelo Instituto Datafolha, com foco principalmente na comparação dos dados levantados e divulgados pelo Instituto Vox Populi, no dia 20/08, são justas e pertinentes.

Digo isso muito mais pelo passado e pelo presente do que tem feito a Folha no que entendo como blindagem e na relação de compadrio que o jornal mantém com o governador tucano José Serra do que pela credibilidade absoluta e cega pelas pesquisas conduzidas pelo Vox Populi.

A verdade é que os números apresentados pelos dois institutos se chocam frontalmente: No Datafolha: José Serra (PSDB), 37%, e Dilma Rousseff (PT), 16%; no VoxPopuli: Serra, 30%; Dilma, 21%. Uma diferença de 7% entre os resultados levantados pelos dois institutos. Daí, a surpresa e a suspeita generalizada. E o que se seguiu foi uma intensa guerra na internet, entre os blogs, oficiais e oficiosos, de apoio ou de combate às duas candidaturas.

Mas mais do que mostrar uma fotografia do atual panorama pré-eleitoral, os números do Vox, que colocam a pré-candidata petista, a ministra Dilma Roussef, em situação bem mais favorável na corrida presidencial, os resultados, transformados em tabelas e gráficos, mostram como as pesquisas podem responder mais aos interesses dos seus aliados políticos e econômicos do que ao interesse do cidadão, do eleitor comum.

Oscilação dentro da margem de erro

Digo isso respaldado na análise da cobertura que a própria Folha faz com relação às pesquisas realizadas pelo seu Instituto, quer seja a de intenções de votos para presidente e para governadores, ou de avaliação do desempenho do governo paulista. O que se lê nas páginas deste jornal já se pode classificar como acinte, com indícios de manipulação das informações, sempre tendenciosa pró-governador José Serra.

Com relação às análises dos resultados obtidos pelo Serra na pesquisa de intenção de votos para a presidência, a Folha sonega de seus leitores informações preciosas que ajudariam a desenhar um melhor quadro da sucessão presidencial agora em 2010. Não há, por exemplo, uma única linha sobre o cruzamento entre grau de conhecimento dos candidatos pelos entrevistados e o desempenho deles na pesquisa. Por que a omissão? Com certeza esta é uma informação tão preciosa que precisa ser devidamente ‘ocultada’ dos seus leitores. Um absurdo!

Mas a divulgação dos resultados da pesquisa de intenções de votos para o governo paulista e de avaliação do desempenho do governo tucano também chamam a atenção para um espetáculo de dissimulações que mais se aproxima de artimanhas editoriais. Em primeiro lugar, o jornal afirma que o desempenho do governador paulista atingiu a sua melhor avaliação em dois anos e meio, com 57% de aprovação, frente aos 56% da pesquisa anterior. Ora, fica claro que a oscilação deve ter ficado absolutamente dentro da margem de erro da pesquisa.

Índices de aprovação de Lula

O uso da expressão ‘deve’, quando me refiro à margem de erro da pesquisa, não é por acaso, é intencional. Ao analisar o grau de avaliação da aprovação do governo paulista, a Folha não faz qualquer menção à margem de erro da pesquisa, que pode ser sempre para mais ou para menos.

O editor esqueceu deste ‘pequeno’ detalhe? Creio que não. É que não interessa ao jornal chamar a atenção para o fato de que a aprovação do governador Serra, ao contrário da oscilação positiva, pode, na verdade, ter recuado, o que seria desastroso para quem tem ambições de renunciar ao cargo para se candidatar à presidência da República em 2010.

Outro fato curioso é que, quando as pesquisas se referem a Serra, ele oscila um ponto positivamente e isso é destacado pelo jornal como demonstração de que ele ‘atinge o seu melhor patamar’. Desde quando uma oscilação de apenas um ponto percentual em pesquisa de opinião passou a ser relevante do ponto de vista estatístico para justificar afirmações deste nível? Só para quem quer mesmo dar uma mãozinha ao seu candidato.

Não foi assim, na edição do dia 16 de agosto deste ano, quando a própria Folha, de forma correta, analisou os índices de aprovação do presidente Lula: ‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva consegue, até o momento, atravessar a mais nova crise política nacional e manter sua popularidade entre os brasileiros no mesmo patamar. Para 67%, seu governo é ótimo ou bom, variação dentro da margem de erro na comparação com a última pesquisa, feita em maio, quando Lula atingiu 69% de aprovação’.

Problemas e barreiras

Analistas também apontam para o que pode ser um indício de manipulação na base de dados da pesquisa: seria o peso excessivo do interior na formação da base de dados. Assim, ao atribuir peso menor à capital e à região metropolitana, que sofre com o agravamento dos problemas de trânsito e de segurança pública, e maior ao interior, o Instituto estaria ampliando a possibilidade do governador receber avaliação mais positiva dos paulistas. É ver para conferir. O Datafolha poderia fornecer informações mais claras e precisas sobre a metodologia que usa em suas pesquisas.

O melhor, no entanto, fica mesmo para o final. Ao divulgar a pesquisa de intenção de votos para o governo de São Paulo, as análises sobre o desempenho do Serra ganharam a relevância das notas de rodapé em enciclopédias: isto é, irrelevância pura.

Se houvesse, por parte do jornal, uma postura crítica e efetivamente isenta, o fraco desempenho do governador em uma possível candidatura à reeleição – ele está em seu primeiro mandato de governador e tem o direito constitucional de tentar um novo mandato – os 36% de intenções de votos que ele atinge é que seriam a manchete da edição, e não o desempenho do ex-governador Geraldo Alckmin que lidera a corrida pelo PSDB, com índice de 43%, em seu melhor cenário.

Para um governador que comanda o mais populoso e economicamente mais poderoso estado da federação, e que aspira concorrer à presidência, fica evidenciado que ele tem problemas e barreiras a superar em seu próprio estado.

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Advogado, Belo Horizonte, MG

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