Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

A mentalidade conspiratória no Brasil recente

Por Eugênio Bucci em 14/10/2008 na edição 507

Ao longo do primeiro mandato do presidente Lula, um argumento ganhou relevo dentro e fora do governo: o de que a comunicação pública deveria servir de contrapeso ou de antídoto contra as notícias ‘tendenciosas’ publicadas na chamada ‘grande mídia’, que promoviam uma investida partidária de oposição ao presidente e seus ministros. Diante disso, as emissoras públicas deveriam assumir a defesa das causas governistas.

Sobre esse conceito esquisito, ‘grande mídia’, farei comentários mais adiante. Começo agora pela natureza do argumento que propõe aparelhar a comunicação pública para combater a ‘grande mídia’. Como escrevi em outras ocasiões, não pode haver razão mais sem sentido para quem defende estações públicas de rádio e televisão. Estas, mesmo quando os veículos comerciais distorcem deliberadamente o noticiário, não podem se deixar instrumentalizar por interesses mais ou menos partidários instalados no governo. Em primeiro lugar porque isso caracterizaria uma apropriação de equipamentos públicos para fins particulares, porque partidários. Em segundo lugar porque não resolve nada.

Não está no aparelhamento a solução para equilibrar o noticiário – a solução para isso reside na abertura do debate público, na diversidade de opiniões, na pluralidade de meios, fenômenos que se dão no âmbito da sociedade, jamais do Estado. A solução está na qualidade, na objetividade e no equilíbrio editorial de cada emissora. Os que não percebem isso embarcam em uma postura de proselitismo e de propaganda, transformando emissoras públicas em palanques governistas. Com isso, abandonam o dever de informar o cidadão e se entregam à servidão de agradar os governantes – não por acaso, um mal crônico da comunicação pública brasileira. Traem o público. E, pior, não chegam a lugar algum que não seja a sua própria ruína ética.

A distorção para um lado (nas emissoras públicas) não compensa a distorção que haveria para o outro lado (nas emissoras comerciais). No espaço público, a verdade não se constrói pelo saldo que resulta de duas distorções em sentido contrário. Duas distorções geram apenas duas mentiras – e a verdade dos fatos, bem como a saúde da opinião pública, não é a média aritmética entre opostos que se neutralizam.

Acreditar na suposição de que é moralmente justificável aparelhar uma emissora pública para compensar eventuais exageros difundidos pelo outro lado é acreditar que a opinião pública pode ser moldada pelo bombardeio da propaganda. Trata-se de um equívoco primário e desastroso. Os cidadãos têm autonomia para discernir em quem podem depositar confiança. Quem não sabe disso não acredita em democracia para valer.

Cada vez mais, os cidadãos têm consciência de sua própria autonomia. Por isso, as manobras dos estrategistas primários, de um lado ou de outro, não geram os efeitos desejados por eles. Geram, isto sim, o desgaste da credibilidade dos veículos que investem nessa linha. O público tem noção de que o papel dos bons veículos noticiosos é esclarecer o conflito das idéias, dando lugar a todas as correntes doutrinárias, e não subordinar sua própria linha editorial a uma dessas idéias em particular. Os que põem à venda sua linha editorial põem fogo na confiança que um dia receberam – ou que pretendiam receber – da sociedade.

A cobertura do escândalo do chamado ‘mensalão’ foi um acerto da imprensa

Ao final do primeiro mandato de Lula, não se revelou verdadeira a tese de que os meios de comunicação comerciais, em conjunto e em uníssono, tivessem constituído um bloco unificado e coeso para derrubá-lo. É fato que, na época, essa impressão surgiu com ênfase em muitos observadores de boa-fé, mas, hoje, quando o presidente desfruta de um índice sem precedentes de aprovação, quando seu nome é tratado com respeito e mesmo reverência nos principais órgãos jornalísticos, é ainda mais fácil perceber que a mídia brasileira não constitui um partido de oposição. Ela é mais complexa e mais diversificada que isso.

Nos períodos mais traumáticos, como no ano de 2005, durante a chamada crise do ‘mensalão’, o que se viu não foi uma campanha orquestrada para interromper o mandato, embora algumas vozes mal-intencionadas tenham se levantado com essa bandeira. Houve, isto sim, uma avalanche de notícias dando conta de gravíssimas suspeitas de corrupção, algumas das quais seriam comprovadas mais tarde. Predominou, então, a busca jornalística por algo que tinha mesmo que ser apurado, investigado e amplamente difundido. Não houve complô.

Mesmo assim, houve quem sugerisse que as emissoras públicas federais, como as da Radiobrás e da TVE do Rio de Janeiro, assumissem o encargo de enfrentar a ‘grande mídia’, promovendo o que se entendia ser a defesa do governo. Se esse tipo de visão tivesse prevalecido, instrumentalizando as emissoras e contrariando princípios democráticos elementares, teria se armado um quadro na comunicação pública federal que apenas agravaria a crise e fragilizaria ainda mais a posição do próprio presidente da República, pois levaria à partidarização explícita de emissoras públicas, numa prática que viola princípios constitucionais como o da impessoalidade. Seria um erro a mais pelo qual o governo seria chamado a responder em seguida.

Para sorte de todos, principalmente do governo, as emissoras públicas federais, ao longo do período, apesar de alguns desvios governistas, não agiram como máquina de propaganda partidária. Trilharam o caminho justo. Vale reforçar que, mesmo que houvesse uma ação articulada dos principais meios de comunicação para caluniar as autoridades, a solução não passaria nem perto da partidarização dos veículos direta ou indiretamente vinculados à administração federal. Eu digo mesmo que houvesse porque, de fato, não houve ação articulada nos termos em que ela foi descrita naquele período. O que houve foi outra coisa: a indignação legítima da imprensa, indignação relativamente generalizada, diante da suspeita de desvios de conduta que mereciam, sem dúvida, investigação jornalística sem tréguas.

Ao investigar as suspeitas, a imprensa cumpriu seu dever. Como já tive ocasião de afirmar (veja-se, por exemplo, meu depoimento a Luiz Egypto, neste Observatório, ‘Por mais qualidade e mais isenção‘), o pior erro que a imprensa poderia ter cometido em 2005 não foi cometido: esse erro teria sido não cobrir a crise do ‘mensalão’. Claro que houve falhas graves nessa cobertura, muitas delas amplamente debatidas no Observatório, mas o movimento principal que a imprensa realizou, o de apurar e publicar o que apurava, foi um acerto. A democracia brasileira deve muito a esse acerto. O próprio governo também deve. Alguém é capaz de imaginar o que teria se passado no país se as notícias sobre o escândalo não tivessem vindo à tona?

O estranho e insustentável conceito de ‘grande mídia’?

Aqui precisamos fazer uma pausa. Essa expressão, ‘grande mídia’, deve ser mais examinada. Ela aparece com freqüência nas discussões sobre comunicação pública, sempre com um sentido pejorativo, condenatório, mas seu significado objetivo é um enigma total. O que quer dizer isso, exatamente, ‘grande mídia’?

Em princípio, é fácil constatar que a expressão é um sucedâneo de outra, ‘grande imprensa’, coisa que, nos dias atuais, também não quer dizer nada de muito preciso. Ambos os ‘conceitos’, ‘grande mídia’ ou ‘grande imprensa’, parecem querer designar o conjunto formado pelas principais empresas de comunicação do Brasil, que agiria sempre para defender as ‘elites’ e solapar as aspirações e as conquistas ‘populares’. O fato de que o governo federal é um núcleo do que quer que se entenda como ‘elite’ passa inteiramente ao largo da compreensão dos que empregam o conceito para fins retóricos.

Acontece que, quando se olha o conjunto que constituiria a ‘grande mídia’, esse conjunto parece não corresponder exatamente ao conceito que quer abarcá-lo. Desse conjunto fariam parte entidades tão diferentes como a Rede Globo e a Rede Record. Ora, não se pode atribuir às duas, igualmente, a mesma orientação partidária. Examinemos o ponto com um pouco mais de atenção.

A Rede Record pode ser tratada como uma instituição militante afinada com a Rede Globo? Dificilmente. Embora imensa, acachapante, onipresente, ou seja, embora grande, muito grande, ela não pode ser caracterizada como integrante do mesmo partido do qual faria parte a Rede Globo. Além da sua ligação notória com a Igreja Universal, o que faz dela uma rede com aspectos religiosos indiscutíveis, há também a sua proximidade ou, pelo menos, a proximidade de alguns dos expoentes da Universal com um partido político em particular – ao qual está filiado, entre outros, ninguém menos que o vice-presidente da República.

Por mais ácido que tenha sido o principal telejornal da Record durante um período, não se pode chamar a emissora de um ‘partido de oposição’. Sendo assim, quando se fala de ‘grande mídia’ com a intenção de se designar um grande ‘partido de oposição mediático’, é preciso excluir a Record. Ou seja: a ‘grande mídia’, para efeitos de estigmatização da mídia grande, não poderia açambarcar a Record. Temos aí, então, um recorte espacial do conceito, um recorte arbitrário. Sem esse recorte arbitrário no espaço, o ‘conceito’ perderia a carga ideológica doutrinária que a ele se quer atribuir.

E quanto à Rede Globo? Em diversas passagens ela veiculou reportagens e programas eivados de simpatia à figura do presidente Lula. A começar pela entrevista com o presidente eleito, em 27 de outubro de 2002, domingo, que foi transmitida ao vivo pelo Fantástico. Lula estava num hotel em São Paulo, próximo da Avenida Paulista. Em linha direta com o programa, viu, junto com os telespectadores, as declarações de Armando Panichi Filho, um dos dois policiais que o vigiaram quando ele esteve preso por 31 dias, em 1980. Ao Fantástico, o policial disse que apenas cumpria ordens, que jamais maltratou o então dirigente sindical e que até arranjou um televisor para que ele visse um jogo do Corinthians. Em resposta, ao vivo, Lula foi pacificador. ‘Sem mágoas’, declarou. O clima de congraçamento nacional, tão intenso naquele domingo eleitoral, ganhou ares de perdão.

Aquela entrevista – concedida por Lula com exclusividade para a Globo, em detrimento de todas as demais emissoras, que também pleiteavam o mesmo privilégio – teve o dom de recondicionar a memória nacional. Signos antes negativos passaram a ser tratados como a iconografia oficial, positiva e gloriosa da História do Brasil. Cenas do ABC nos anos 1980, com greves, prisões, passeatas e protestos – que antes indicavam baderna e desgoverno – foram exibidas como parte de um melodrama factual com final feliz.

A mesma Globo, no dia seguinte, segunda-feira, 28, abriu os estúdios do Jornal Nacional para o presidente eleito, ali mesmo, dos estúdios, conceder outra entrevista, esta ainda maior, lado a lado com os apresentadores do noticiário, por mais de uma hora. Dias depois a Rede Globo apresentaria um Globo Repórter inteiro que glorificava a figura do presidente. Pois então: seria essa a Rede Globo que lideraria um partido de oposição? Não, não pode ser. Portanto, se se quer falar de um bloco monolítico dos meios de comunicação no Brasil em oposição ao governo, há que se fazer um sinuoso recorte, agora não mais no espaço, mas no tempo. Sem esse recorte no tempo o ‘conceito’, outra vez, não funcionaria para fins retóricos.

A ‘grande mídia’ deu um golpe em si mesma?

À medida que vamos examinando a trajetória de cada uma das grandes empresas da chamada ‘grande mídia’, vai ficando claro que esse bloco monolítico não existe no mundo dos fatos. Na verdade, nunca existiu. Se olharmos para o universo das revistas semanais, encontraremos um cenário semelhante, marcado por diversidades naturais.

A revista IstoÉ, por exemplo, faria parte do conjunto designado ‘grande imprensa’ ou ‘grande mídia’? Lembremos que em 20 de setembro de 2006 ela deu na capa uma entrevista exclusiva com os donos da Planam, Darci Vedoin e Luiz Antônio Vedoin, que acusavam José Serra, então candidato do PSDB ao governo de São Paulo, de envolvimento na máfia das ambulâncias. Ao disparar contra a candidatura de José Serra, os Vedoin estariam, ao menos na visão de alguns estrategistas primários – uns mais, outros menos aloprados –, a IstoÉ estaria favorecendo o PT. Isso no calor das eleições de 2006, não nos esqueçamos. Seria então a IstoÉ integrante da ‘grande mídia’ conflagrada contra Lula? Os adeptos da mentalidade conspiratória diriam que não. Ou, pelo menos, não naquela edição. O conceito de ‘grande mídia’, enfim, não poderia incluir a IstoÉ. Outro recorte arbitrário, este no espaço e no tempo.

É assim que, pouco a pouco, a noção de ‘grande mídia’ se revela mais ideológica ou opinativa do que objetiva ou quantitativa. Segundo a mentalidade conspiratória, a expressão ‘grande mídia’ designa apenas uma parte da, digamos, mídia grande: a parte que convém ser combatida. A ‘grande mídia’ não é outra senão aquela que devemos combater com todas as forças. Trata-se, como já vimos, de uma entidade mutável e mutante.

Do ponto de vista das teorias da comunicação, a categoria ‘grande mídia’ não se sustenta. Também não faz sentido à luz da realidade. Nas redes de TV, nas revistas e também nos jornais. Basta examinar o que eles publicavam. Muitos dos jornais que fariam ‘oposição sistemática’ ao governo federal também noticiaram, e bastante, mazelas de outros partidos. O mensalão do PSDB mineiro foi manchete nos diários. Deu primeira página no Estadão e no Globo ainda em 2008. A crise ética do governo tucano no Rio Grande do Sul também. Apareceu até no Jornal Nacional. O caso Alstom, nada favorável ao PSDB, mereceu destaque nas primeiras páginas. Não são condutas de uma imprensa oposicionista, mas de uma imprensa que, mesmo errando, e muito, dá sinais de que procura noticiar o que é relevante.

Em resumo, o conceito de ‘grande mídia’ tem, nesse caso, não uma precisão objetiva, mas apenas a função doutrinária de, ao generalizar, satanizar os veículos de informação. Presta-se, no fundo, a estigmatizar a instituição da imprensa. Por meio dessa estigmatização, pretende-se desqualificá-la e, em seu lugar, instaurar uma forma de comunicação estatal partidarizada. Por meio desse artifício retórico, e dos desdobramentos a que ele conduz, justifica-se a criação de meios públicos que sejam oposição a eles, aos ‘grandes veículos’, uma vez que eles já estão devidamente carimbados com a designação deformadores do noticiário. A comunicação pública seria necessária porque a comunicação comercial é perversa. Ora, e se a imprensa comercial fosse de boa qualidade, poderíamos mandar a comunicação pública às favas? O argumento não se sustenta, como fica demonstrado.

Como premissa para o estabelecimento de políticas públicas para a comunicação pública, esse tipo de raciocínio não contribui em nada. Apenas confunde ainda mais as coisas. Sobretudo quando olhamos o cenário atual, em que a imagem do presidente da República parece voar em céu de brigadeiro, essa discussão chega a parecer bizarra. O presidente se reelegeu, a vida seguiu, os casos de corrupção denunciados vêm sendo apurados, investigados e julgados dentro da normalidade. Contra quem aquela ‘grande mídia’ teria dado um golpe? Contra si mesma?

Mesmo assim, essa mentalidade conspiratória persiste. E, ainda hoje, como antes, os seus adeptos tentam fazer valer suas teses de usar os meios públicos para operações imaginárias de contra-conspiração. Por isso, será útil detalhar um pouco mais as componentes desse discurso. Trataremos disso no próximo artigo.

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Jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP

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