Sábado, 29 de Agosto de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº865

CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

A mídia como suporte à alienação

Por Julio Ottoboni em 08/08/2006 na edição 272

Quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Como o entendimento de uma questão varia entre indivíduos, muitas vezes drasticamente. Este início do século 21 dá sinais que a Era da Informação se instalou na sociedade moderna e trouxe como conseqüência um maremoto de informações, praticamente em tempo real, de todas as partes do mundo. Inexiste um ponto determinado e comum de convergência, o que capacita todos a serem emissores e receptores.


No meio deste oceano virtual surge então a tal ‘Aldeia Global’, envolta num caldo de cultura capaz de promover o surgimento de estruturas capazes de fazer e desfazer a realidade. Tentamos entender as múltiplas possibilidades de revolucionar comportamentos e subverter a ordem em alguns casos e consolidá-la, em outros.


O jornalismo também foi pego por essa onda e, para não se afogar, tem dado braçadas desesperadas. No meio do turbilhão, o cunho meramente informativo dos noticiários apareceu neste oceano como a tábua de salvação. Então, o jornalismo agarra-se a ela e sobrevive, mesmo a deriva. Registre-se: atualmente uma criança de 10 anos recebe e apreende quase o dobro de conhecimento obtido por um adulto na Idade Média, durante toda a vida.


Neste transbordo informativo, os temas científicos ganharam destaque nos noticiários. Assuntos que até pouco tempo atrás eram exclusividade da academia saltaram de teses, hipóteses e conclusões sem o ranço dos discursos herméticos. A popularização do conhecimento moldado pela ciência vai, aos poucos, sendo assimilado e recodificado em linguagens mais acessíveis. Tornando-se, enfim, mais democrático.


Embora seja preciso reconhecer que no plano ideal isto seja fantástico, o mesmo não se pode dizer no plano real. O jornalismo deixou de filtrar as informações e hoje se serve do que vê pela frente, seja de boa ou de péssima procedência. Tudo está nivelado pela vulgarização e pouco importa a qualidade e a credibilidade da notícia. Para saciar a ânsia da mediocridade – estabelecida como padrão pelo senso comum –, o jornalismo tem reforçado suas estratégias suicidas, imaginando batalhar pela sobrevivência.


Alienação consentida


O jornalismo hoje passou a ter um papel educativo fundamental tanto para as gerações contemporâneas como para as futuras, em especial o jornalismo que trata de assuntos científicos. Isto confere uma responsabilidade fundamental à imprensa, que transpassa questões de âmbito regional ou nacional. Por isso, é desastroso o prejuízo provocado por informações equivocadas e erradas na formação de um indivíduo – o que acaba por gerar uma nova forma de alienação, a consentida, e torna o indivíduo passivo e omisso.


Uma recente pesquisa sobre a importância das questões ambientais na vida das pessoas, realizada pela empresa Market Analisys Brasil em oito capitais brasileiras, revelou o seguinte:




‘A admissão da gravidade desses assuntos permanece desconectada do topo da agenda pública nacional. Crise ambiental simplesmente não está inclusa entre os maiores problemas que o país enfrenta atualmente, na opinião dos brasileiros. O dado surpreende, haja vista a crescente atenção da mídia a tais assuntos. Tomando como referência o número de menções aos assuntos pela mídia nacional, nota-se que o espaço dedicado ao efeito-estufa triplicou nos últimos oito anos, enquanto mais do que duplicaram as matérias sobre poluição da água. Só diminuíram ou permaneceram quase iguais as notas sobre gases poluentes ou espécies em extinção’.


Impressionante as observações feitas pelos pesquisadores advindas das estatísticas obtidas no estudo, que apresentam a tipificação da ‘alienação consentida’.




‘Mesmo diante das catástrofes naturais e do esgotamento dos recursos energéticos (e suas conseqüências ambientais) que caracterizaram os últimos anos, menos de 4% (3,6%) dos entrevistados mencionam espontaneamente problemas ambientais como poluição, superpopulação ou mudanças climáticas quando consultados sobre sua visão dos principais problemas do mundo. Apenas entre os formadores de opinião, a posição dos tópicos ambientais chega a ser importante – mesmo assim não chega a ser absolutamente prioritária.


É verdade que o assunto é preocupante para um em cada oito líderes de opinião (13,9%) e ocupa um lugar de destaque junto à violência/guerra/terrorismo e corrupção/degradação moral/intolerância. Ainda assim, perde para fatores vistos por eles como muito mais sérios globalmente, tais como a desigualdade e a pobreza.


A opinião de líderes e público geral coincide em apontar que questões ambientais, na melhor das hipóteses, fazem parte dos problemas do mundo, mas não do Brasil. Menções a questões desse tipo simplesmente somem da agenda nacional.’


O levantamento da Market Analysis mostrou que, em dezembro de 2005, a crise ambiental – poluição, superpopulação e mudanças climáticas – foi tida como o principal problema do mundo por apenas 3,6% dos entrevistados. Ou seja, ocupou o último lugar dentro das respostas espontâneas.


Diante deste quadro é praticamente impossível mobilizar a sociedade para o cumprimento da Agenda 21 ou levá-la a um grau de cobrança maior quanto à preservação da Amazônia ou mesmo sobre a prática do desenvolvimento sustentável. Pois por aqui se continua a achar que Deus é brasileiro e que somos ‘abençoados’ por não termos terremotos ou vulcões. Exclui-se, agora, os furacões, pois o Catarina quebrou a regra e, pelo que tudo indica, foi provocado pelo aquecimento global.

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Jornalista e pós-graduado em jornalismo científico

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