Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

JORNAL DE DEBATES > TODOS vs. GOVERNO

A mídia fez uma aposta e perdeu

Por Jorge Lima em 28/11/2006 na edição 409

Eu sou ateu. Minha mulher é católica não-praticante. Aos nossos filhos não é imposta nenhuma forma de religiosidade. Nem sequer ensinamos a eles os dogmas cristãos. Mas, certo dia, minha filha, de 5 anos, contou à mãe a história de Cristo. A versão bíblica havia sido ensinada a ela por uma babá evangélica. Com a inocência da idade, minha filha disse à mãe que Jesus era bandido. Perguntamos por que ela pensava assim. Ela respondeu que ele havia sido preso, então devia ser bandido. Como uma criança de 5 anos faz essa ilação? A resposta é bem simples. É quase um silogismo. As premissas são as seguintes: ‘Meu pai é policial e prende os bandidos’; ‘Cristo foi preso’. A conclusão lógica, para uma criança de 5 anos, é: ‘Cristo era um bandido’.

Quem leu até aqui pode perguntar: ‘Tá, e daí? Onde é que tu quer chegar?’ Respondo: à forma como decodificamos as informações que recebemos. Nós processamos o conhecimento utilizando como referência nosso microcosmo. O ambiente em que vivemos e o conjunto de valores que nele impera. Então, vamos transportar esse referencial para a sociedade brasileira. Consideremos que, para muitas pessoas, tudo que é impresso e dito pelos apresentadores de telejornais é a verdade absoluta. São pessoas incapazes de elaborar um juízo crítico dessas informações.

Para essas pessoas o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores, submetidos a uma campanha de ‘desconstrução da imagem’, são a encarnação do mal. Durante 18 ou 19 meses a mídia desenvolveu uma campanha que, em termos militares, poderia ser definida como ‘bombardeio de saturação’, na qual procurou apresentar o PT e o governo como responsáveis por toda corrupção e malfeitoria que assolam o Brasil. É como se a corrupção tivesse surgido em 1º de janeiro de 2003. Até então vivíamos numa república de vestais.

Concorrência benéfica

Nada a questionar sobre a compra de votos para aprovação da emenda constitucional que permitiu a reeleição, cujo único objetivo foi impedir a vitória de Lula, porque o PSDB não tinha candidato viável, diga-se de passagem. Nenhum reparo à privatização das estatais compradas com moeda podre. Aliás, conheço uma pessoa que ganhou milhões negociando TDPs que eram comprados com deságio de 95% e aceitos, na compra de estatais, pelo valor de face. Em suma, um governo ‘ético’. ‘Ético’ no sentido de que sua ‘ética’ era beneficiar o ‘capital’. E a mídia, com raras e honrosas exceções, era cega, surda e muda nessa ‘quadra da existência’, como diria o ministro Marco Aurélio.

E agora, derrotada em seu projeto de definir a eleição presidencial, a mídia posa de vítima. A mim não comove. A mídia fez uma aposta e perdeu. Quem joga assume o risco. Se o que estava na mesa era o monopólio da possibilidade de disseminar a informação, nada mais justo de que esse monopólio seja quebrado. Que venha a democratização da mídia. A concorrência faz bem ao prestador de serviço e mais bem ainda ao consumidor. (Eu ia escrever usuário, mas lembrei de um comentário, atribuído a Bill Gates, que diz que todo mundo tem cliente. Só quem tem usuário é traficante e analista de sistemas.) Democratizar a mídia é bom para o Brasil e melhor ainda para os brasileiros.

******

Policial Civil, graduado em Direito e pós-graduando em Segurança Pública e Direitos Humanos, São Pedro do Sul, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/12/2006 Eduardo Guimarães

    Se eu ganhasse um centavo cada vez que pessoas como o comentarista deste artigo Ivan Berger, de Santos, respondessem às críticas objetivas, consistentes e amplamente exemplificadas contra a mídia com o chavão de que ‘será que foi tudo invenção, exageros da mídia?’, estaria rico. E o pior é que quem critica a mídia se mata de dizer que não, que não foi invenção, mas foi, no mínimo, um descomunal exagero as críticas que essa mídia fez ao PT. Críticas que essa mídia nunca fez, por exemplo, aos tucanos, que torraram mais de cem bilhoes de dólares do dinheiro da privataria e não se sabe onde a grana foi parar.

  2. Comentou em 30/11/2006 Marnei Fernando

    O Observatório da Imprensa é pouco visto… Diria que é muito pouco visto… E dentro desse site pouco visitado… Levando-se em consideração o número de brasileiros sem acesso à Internet… Abatendo-se deste total o enorme número de internaltas que não têm o mínimo interesse para com os assuntos aqui debatidos… Sobramos nós… Nós que ainda temos que garimpar dentro do OI para acessar esse tipo de artigo… Por que não encontramos este tipo de comentário na capa? Mesmo aqui é proibido falar e escrever o óbvio? Então concluo que a imprensa ainda tem um longo e tenebroso inverno a percorrer antes de se tornar imparcial e democrática… De qualquer forma… Deixo aqui nesse deserto meus parabéns pelo seu post.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem