Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > TRAGÉDIA DO BOEING

A mídia tem ‘memória’ curta

Por Samuel Lima em 27/02/2007 na edição 422

A tragédia com o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas no final de setembro de 2006, está nas manchetes outra vez. O assunto volta a ser notícia e a mídia nos oferece mais um bom exemplo de como a arte da edição pode contribuir, decisivamente, para desinformar a sociedade.

O jornal Folha de S.Paulo (18/2/2007) traz na manchete de primeira página: ‘Fitas revelam erros na queda do avião’. Três páginas do caderno ‘Cotidiano’ são dedicadas à pauta, suscitada pelo acesso do diário paulista às transcrições das conversas entre os pilotos do jato Legacy, Joe Lepore e Jan Paladino, e controladores de tráfego aéreo brasileiros.

Transponder oculto

A reportagem de Eliane Cantanhêde joga com a tese de que ‘uma sucessão de erros e mal-entendidos’ explicaria o desastre. Para os controladores de Brasília o adjetivo é ‘displicente’; quanto à falta de conhecimento dos pilotos norte-americanos acerca dos procedimentos de rotina do jato a palavra é ‘desconforto’.

Os dados da caixa-preta desnudam erros fatais. Um: o transponder/localizador (TCAS) estava desligado, e foi percebido três minutos após a colisão. Outro: os pilotos assumem não saber operar o sistema que gerencia os dados do vôo, como altitude e rota, o chamado FMS (flight management system). Por fim, uma verdade inconteste: os pilotos norte-americanos tinham decidido seguir uma rota à revelia do plano de vôo, que os mandava voar a 36 mil pés após Brasília, e não nos 37 mil, espaço exclusivo do Boeing, que voava de Manaus para Brasília.

Uma informação aparece ‘jogada’ entre dezenas de parágrafos, fotos e infográficos: ‘Conforme a Folha apurou, os investigadores aeronáuticos trabalham com a hipótese de um dos dois, Lepore ou Paladino, estar com um laptop aberto no colo, com a tampa escondendo a parte do painel onde se encaixa o transponder’.

Despreparo dos pilotos

O Fantástico (TV Globo) do mesmo dia repercutiu o fato novo. Os trechos da conversa selecionados responsabilizam tão-somente os controladores de vôo brasileiros e autoridades do setor. A reportagem diz que os pilotos norte-americanos tiveram ‘dificuldades com equipamentos’. O texto aponta, no máximo, alguma ‘confusão’ na cabine de comando do jatinho. A repórter Délis Ortiz ignora a confissão dos pilotos quanto ao desligamento do transponder, bem como o fato de não estarem habilitados para operar aquele tipo de equipamento. Sua conclusão é natural: foi ‘ouvir’ a Aeronáutica, ao invés de Paladino e Lepore.

Fazendo um contraponto, o Estado de S.Paulo também repercutiu o caso com outra angulação: foi ouvir profissionais da aviação a respeito do caso. O título da matéria publicada pelo jornal é contundente: ‘Caixa-preta mostra despreparo dos pilotos do Legacy’. A interpretação dessas fontes caminha em outra direção: ‘A transcrição da caixa-preta do Legacy foi publicada ontem pelo jornal Folha de S.Paulo. Com base nela, pilotos acreditam que Lepore e Paladino não plotaram – digitaram – corretamente o plano de vôo no Flight Management System (FMS), equipamento que gerencia todos os dados do trajeto. ‘Não souberam nem configurar o plano de vôo’, disse um comandante de aviões comerciais’.

Acúmulo de erros

O que mais chama a atenção nesse tipo de caso é a extrema dificuldade da mídia admitir seus erros, saliências e omissões, enfim, mostrar algum grau de ‘memória’. Lembro que aqui mesmo, neste OI, eminentes observadores louvaram a entrevista com Lepore e Paladino que a Folha publicou em 17/12/2006 e que, em linhas gerais, ‘isentava’ ambos de quaisquer erros no episódio. Na opinião do jornalista Paulo Henrique Amorim, ‘a imprensa brasileira e americana desempenhou até aqui um papel importante: dirigir a responsabilidade aos brasileiros incompetentes e relevar a falha dos eficientes americanos’.

Em suma, o relatório da conversa no comando do Legacy indica, com relativa clareza que: (1) o transponder, que evitaria o choque, estava desligado; (2) os dois pilotos não sabiam operar o sistema de gerenciamento de dados do jatinho; (3) Jan Paladino e Joe Lepore descumpriram o plano de vôo.

Erros fatais, que custaram 154 vidas.

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Jornalista, doutor em mídia e teoria do conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do Curso de Jornalismo do Bom Jesus/IELUSC

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/03/2007 Pedro Afonso

    A emoção turva os olhos e desliga a razão. Na análise do trágico acidente há de se lembrar, já que estamos falando de memória, que para ocorrer um choque precisamos ao menos de dois objetos. Se a caixa-preta interpretada pelo eminente articulista leva a crer que a cabine do Legacy reinava a mais completa zorra, nada foi falado de como deveria estar a torre de controle de Brasília. Um (ou mais de um) controlador deveria estar monitorando o tráfego comercial, associado ao controle militar local da serra do Cachimbo (um dos locais mais vigiados do Brasil). Ora, se na tela do radar temos duas aeronaves em rota de colisão e não se permite precisar as alturas de vôo (na hipótese do transponder estar avariado ou desligao) o Controlador sensato tentaria se comunicar com os pilotos dos dois aviões e sugerir mudança de rumo. Não se tem notícia de contato com o avião da Gol e nem com o do Legacy. Portanto, caro articulista, para infelicidade geral, funcionários públicos brasileiros não cumpriram o seu papel de velar pelas rotas. Só para efeito de controvérsia, se o controle de tráfego aéreo é tão dependente dos equipamentos que existem nos aviões, tá explicado a facilidade com que aviões de contrabandistas e traficantes passeiam em nossos céus, ou você acredita que eles andam com o transponder ligado ? E, last but not the least, o Dines tem razão…

  2. Comentou em 03/03/2007 alfredo sternheim

    Samuel Lima foi feliz em seu texto, principalmente na maneira d elembrar como muitos jornalistas foram tendeciosos. Especialmente quando lembra que Eliane C, na Folha, ‘para os controladores de Brasília o adjetivo é ‘displicente’; quanto à falta de conhecimento dos pilotos norte-americanos acerca dos procedimentos de rotina do jato a palavra é desconforto. ‘ . Sempre percebi nos textos dela uma ênfase em ‘limpar a barra’dos pilotos americanos.Quando isso não foi mais possível, veio o texto, mas ressaltando ‘uma sucessão de erros’e não o mais grave dos erros: a desastrada conduta dos pilotos do Legacy.. Mas não vi nos comentários dela e de outros, nenhuma indignação pela festa que os pilotos americanos tiveram quando retornaram ao seu país. Uma ofensa às famílias das vitimas do acidente. É triste perceber que boa parte de nossa imprensa, até diante das tragédias, insiste em se comportar de modo eleitoreiro e atropelando a objetividade por causa disso. Depois, surge jornalista irado dizendo que existe um complô contra a mídia. É a mídia que está atirando em si mesma.

  3. Comentou em 02/03/2007 Célio Mendes

    É… Pelo visto essa matéria não merece uma chamada na primeira pagina, ela não atende aos padrões de relevância necessários, além disso, causa constrangimentos a um notório observador, … suspiro… , já não se faz observação da imprensa como antigamente por essas bandas, é realmente uma pena.

  4. Comentou em 02/03/2007 Célio Mendes

    É… Pelo visto essa matéria não merece uma chamada na primeira pagina, ela não atende aos padrões de relevância necessários, além disso, causa constrangimentos a um notório observador, … suspiro… , já não se faz observação da imprensa como antigamente por essas bandas, é realmente uma pena.

  5. Comentou em 01/03/2007 Carlos Alberto Saraiva

    O que realmente importa nesse caso é que se abriu mais uma caixa-preta do governo brasileiro: o controle aéreo do Brasil é totalmente inadequado, mas nada se faz ou se fará por que está na mão dos ‘ eficientes’ militares brasileiros!

  6. Comentou em 01/03/2007 Carlos Alberto Saraiva

    O que realmente importa nesse caso é que se abriu mais uma caixa-preta do governo brasileiro: o controle aéreo do Brasil é totalmente inadequado, mas nada se faz ou se fará por que está na mão dos ‘ eficientes’ militares brasileiros!

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