Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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A mídia vai à guerra

03/09/2009 na edição 553

A partir das 5h45 de 1º de setembro de 1939 o mundo nunca mais seria o mesmo. Sob o pretexto de recuperar territórios perdidos após a Primeira Guerra, a Alemanha invade a Polônia e dá início ao conflito mais marcante da história da humanidade – a Segunda Guerra Mundial. Em poucas semanas, as maiores potências da Europa estariam empenhadas em derrotar o Eixo, liderado pelo ditador nazista Adolf Hitler. A vitória só foi alcançada seis anos depois, quando a guerra já cruzara o Atlântico e mobilizava também o Novo Mundo, com os Estados Unidos à frente.

No conflito bélico que exterminou mais de 70 milhões de pessoas, entre soldados e civis, uma arma foi capaz de efeitos revolucionários sem derramar uma gota de sangue: a mídia. Os diversos avanços tecnológicos permitiram que o potencial dos veículos de comunicação fosse plenamente explorado. Da manchete de jornal às ondas do rádio, dos acordes musicais à fotografia, das imagens em movimento projetadas em uma sala de cinema às histórias em quadrinhos vendidos nas bancas de jornais. Todos os recursos foram convocados para a luta.

Para relembrar os 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o Observatório da Imprensa preparou uma série de quatro programa especiais. O primeiro episódio, exibido na terça-feira (1/9) pela TV Brasil, analisou o uso os meios de comunicação de massa no conflito. No editorial que abre o programa, o jornalista Alberto Dines explicou que a série pretende fazer "o registro dos registros, rever o que foi noticiado. Em suma, lembrar. Lembrar para evitar repetições. Lembrar para aproximar. Lembrar a guerra para promover a paz" [ver íntegra abaixo]. A cada mês será exibido um episódio.

A guerra no papel

Os jornais impressos ainda eram a principal fonte de informação no mundo. Dines explicou que no Brasil havia uma grande variedade de publicações, matutinas e vespertinas. As que chegavam às ruas no início da manhã publicavam textos mais longos e elaborados, enquanto as que eram impressas à tarde tinham títulos mais vibrantes, textos curtos, mais fotografias e diversas edições. As agências telegráficas internacionais abasteciam as redações com informações do front. Em plena ditadura do Estado Novo, a imprensa brasileira era submetida ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e era preciso driblar a censura. "A guerra servia como pretexto para títulos antifascistas e pró-democráticos", disse.

Em meio às estantes da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que abrigam as coleções dos jornais publicados durante a guerra, Dines relembrou sua infância. "Essa guerra chegou à nossa casa, no Rio de Janeiro, de uma forma dramática porque trazia as notícias do avanço alemão da Polônia e do avanço soviético no lado oriental da Polônia. A publicação que chegava à minha casa era O Jornal, talvez o periódico mais dinâmico da capital federal. Através deste jornal nós acompanhamos a guerra. Nós, crianças, não estávamos, neste caso, tão interessados nos aspectos bélicos, nas armas. Estávamos sob o impacto de uma grande angústia, de uma grande tragédia. Como judeus, estávamos temerosos pelo o que aconteceria com as famílias do meu pai e da minha mãe, que viviam na fronteira da Polônia com a Rússia. Estávamos certos de que seriam aniquilados, como foram. Minha avó, mais de dez tios e mais de vinte primos-irmãos sumiram no Holocausto", lembrou.

A partir da entrada do Brasil no conflito, a mídia promoveu diversas campanhas de mobilização da população para o esforço de guerra. Os jornais estimulavam a doação de borracha, cigarros e peças de metais para a fabricação de aviões. As donas de casa tinham um papel fundamental. Convocadas pela imprensa, organizaram as Hortas da Vitória em escolas e clubes para diminuir o problema do abastecimento interno e colaboraram na economia do gás. Com a orla de Copacabana ao fundo, Dines relembrou o black-out imposto durante a guerra para evitar que a claridade fosse usada para guiar submarinos e navios do Eixo.

Em entrevista gravada no Monumento dos Pracinhas, no Rio de Janeiro, Dines pediu para o cientista social Renato Lessa avaliar a dimensão deste conflito. Lessa considera que a Segunda Guerra é o evento mais impactante do período que abrange o início da Era Moderna até os dias de hoje. "É estruturador e desestruturador ao mesmo tempo. Ela desorganiza uma forma de vida do mundo europeu e as suas cercanias e ao mesmo tempo estabelece uma série de problemas e desafios para o futuro. Problemas que até hoje não estão completamente resolvidos e sanados. Ela tem raízes profundas e por outro lado tem conseqüências que ainda não se esgotaram."

Lídice, o massacre emblemático

O primeiro país a tentar uma reação ao expansionismo nazista foi a Tchecoslováquia. Em junho de 1942, um atentado à bomba matou Reinhard Heydrich, protetor dos territórios da Bohemia e da Moravia. Dines comentou que Hitler ficou furioso ao saber do atentado. "A Besta Loura como foi chamado, ou Monstro de Praga era o braço direito de Heinrich Himmler, o chefe da Gestapo, muito respeitado pelo próprio Führer e foi o responsável por algumas das mais brutais e sangrentas ações nazistas, como a Noite dos Cristais, que destruiu milhares de lojas, fábricas e sinagogas dos judeus em toda a Alemanha, em 1938."

Heydrich preparou pessoalmente a Reunião de Wannsee, que implementou a "Solução Final da Questão Judaica", cuja meta era o extermínio de 11 milhões de judeus. "Ao saber da morte do `Protetor da Tchecoslováquia´, o Führer decidiu assassinar aleatoriamente 10 mil pessoas." A fúria de Hitler concentrou-se depois na pequena vila de Lídice, que teria abrigado os autores do atentado. Todos os habitantes foram mortos: cerca de 300 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Os países aliados criticaram duramente as mortes e diversas localidades foram batizadas com o nome da vila tcheca.

No Rio de Janeiro, dois meses depois do massacre, o distrito de Capivari, em Angra dos Reis, ganhou o nome de Lídice por iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ao lado do "Monumento à Fenix" erguido no centro da cidade, Dines comentou que, pela primeira vez, os líderes nazistas expuseram as crueldades cometidas. "Hitler e seu braço-direito da propaganda Joseph Goebells sempre procuraram esconder as violências que cometiam. Inventaram mil maneiras de mostrar que isso era conspiração de mentiras, que ele era um amante da paz, que ele não queria fazer nenhuma barbaridade. Mas no caso de Lídice ele assumiu pessoalmente a intensidade da represália. Queria mostrar aos países ocupados que não ousassem fazer algo parecido e queria mostrar ao mundo o seu poder destruidor", disse.

Imagens que viraram ícones

A impressão dos jornais era precária e as fotografias transmitidas por rádio – as radiofotos – não tinham boa qualidade. Durante a guerra, foi a fase de ouro das revistas fotográficas. O professor da Unicamp Fernando de Tacca disse que, inspirados em revistas alemãs, a americanas Look e a Life passaram por uma reformulação para valorizar a presença da fotografia em suas páginas. Tacca comentou algumas fotos que se tornaram ícones da guerra, como a da bandeira norte-americana sendo fixada em Iwo Jima, que correu o mundo rapidamente, o beijo do marinheiro após a vitória aliada e a da bomba de Hiroshima. O fotógrafo húngaro Frank Capa produziu diversas imagens importantes deste período e teve suas fotos publicadas na Life.

As ondas do rádio a serviço da propaganda

Ainda uma novidade tecnológica no final dos 1930, o rádio teve todo o seu potencial disseminador explorado durante a guerra. Sandra de Deus, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explicou que o Partido Nazista soube utilizar a capacidade do veículo na difusão de propaganda ideológica. Mesmo antes do conflito, o governo estimulava a compra de aparelhos, obrigava os bares e restaurantes a transmitir os discursos e instalava alto-falantes em locais públicos.

Pressionados pela ascensão dos regimes totalitários, a Inglaterra e a França, entre outros países, notaram no rádio um instrumento de invasão e de propaganda política do nazismo. O radialista Luiz Carlos Saroldi, mestre em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Rádio Nacional – O Brasil em sintonia (com Sonia Virginia Moreira), explicou que esses países perceberam já na década de 1930 "o que poderia acontecer em qualquer país onde chegassem as ondas hertzianas transmitidas" da Alemanha. Então, rapidamente, começaram a montar emissoras públicas fortes, sem comerciais, para enfrentar o regime totalitário, como a BBC de Londres. E o Brasil não ficou de fora. Lourival Fontes, homem de propaganda do governo Getúlio Vargas, também percebeu essa necessidade e encampou a Rádio Nacional, que se tornou a emissora mais forte do Brasil.

Naquele período, era importante difundir os conceitos do nacional-socialismo nas colônias alemãs espalhadas pelo mundo. O professor João Batista de Abreu, da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou que "a idéia é que, em algum momento, os territórios se uniriam à `nova Alemanha´ e transformariam o sul do continente em um Estado associado". Somente para o Brasil eram emitidas por semana 56 horas de transmissões da Rádio Berlim e 10 horas de emissoras italianas. "Isso acabou aguçando o interesse dos países aliados", disse.

A Inglaterra começou a transmitir para o continente americano através da BBC em 1938. Nos anos 1940, os EUA criam o Escritório de Coordenação de Negócios Interamericanos (OCIAA, na sigla em inglês). Com o financiamento de empresas americanas, começaram a produzir maciçamente programas de dramatização, musicais e noticiários voltados para o continente. "Tudo isso faz parte da guerra psicológica, aquela guerra que, mais do que conquistar territórios, quer buscar aliados, quer que os civis entrem de cabeça no chamado esforço de guerra", disse João Batista.

O primeiro a dar as últimas

A política da boa vizinhança empreendida pelos Estados Unidos para aproximar o Brasil dos aliados trouxe para o país um gênero radiofônico que ainda engatinhava: o radiojornalismo. Em 1941, é lançado o Repórter Esso. "Esse programa já existia nos EUA, na Venezuela, Cuba e em outros lugares, e resolvem instalar no Brasil porque os americanos queriam uma base no Nordeste para aviação e defesa, disse Saroldi, sublinhando que o formato do programa revolucionou o jornalismo radiofônico no Brasil.

"O Repórter Esso vai ser um programa diferente porque não é uma cópia das notícias do jornal. Os redatores escrevem para o ouvinte, usam a linguagem oral, mais pontos do que vírgulas. As frases são curtas e passam a imagem do que está acontecendo", explicou o radialista. As quatro edições diárias de cinco minutos exatos favoreciam a narração do movimento da guerra, dos deslocamentos de tropas e das invasões. Foi escolhido um locutor exclusivo para o programa, Heron Domingues, o que conferiu credibilidade ao noticiário. João Batista de Abreu relembrou que, apesar de a Rádio Tupi ter anunciado o final da guerra 24 horas antes do Repórter Esso, a população carioca só saiu às ruas para comemorar quando Heron Domingues deu a notícia.

Dines foi ao Edifício A Noite, onde desde os anos 1930 funciona a Rádio Nacional, e comentou que o prefixo do programa "era um toque de clarim que levava o Brasil inteiro para o front da guerra". O jornalista disse que o Repórter Esso marcou a vida de muitos brasileiros, inclusive a sua, e relembrou uma noite inesquecível. "No dia 6 de junho de 1944, quando as tropas aliadas desembarcaram na Normandia, era o início do fim da guerra na Europa. Foi de madrugada. Como era junho, a noite ia bem adiante e as pessoas começaram a se telefonar, as luzes começaram a acender como se um toque mágico tivesse despertado a cidade antes da hora normal. As pessoas ligavam na Rádio Nacional, no Repórter Esso para ouvir essas notícias espetaculares", contou.

A guerra no escurinho do cinema

Os cinejornais, curtas-metragens informativos exibidos antes dos filmes de ficção, levavam as cenas de horror da guerra para salas de projeção de todo o mundo. Renovados semanalmente, tratavam também de outros temas, como moda e esporte. O historiador Wagner Pereira, da Universidade de São Paulo, contou que na Alemanha existiam várias produtoras cinematográficas que produziam cinejornais e filmes culturais, como a UFA, a Tobes, a Deulig e a Bavarian Kunst, entre outras.

"É somente a partir do início da Segunda Guerra Mundial que o Ministério da Propaganda de Goebbels vai querer controlar a informação total e, a partir daí, ele vai unificar esses cinejornais no chamado Die Deutsche Wochenschau (As atualidades alemãs), exibido semanalmente sob total controle do Ministério da Propaganda nazista", disse. Os grandes estúdios de Hollywood, como a 20 Century Fox e a Universal, produziram os principais cinejornais aliados daquele período, também controlados pelo governo.

O historiador mostrou as diferenças entra as narrativas: "No caso da propaganda aliada, se a gente for pensar nos Estados Unidos, que vai ser um dos modelos principais, o tom dos cinejornais vai estar muito valorizado na figura do narrador. Então vamos ter aquela narração over, ou narração off, e as imagens vão estar quase que complementando o noticiário. Já no caso dos nazistas e dos fascistas, o principal poder vai recair sobre as imagens, então eles vão trabalhar muito a psicologia de massas para valorizar esse potencial imagético acima da figura do narrador".

Música a serviço da guerra

Em todo o mundo, marchas militares e hinos encorajavam a luta. A Marselhesa, por exemplo, tornou-se um símbolo da liberdade, como o ilustrado em uma das cenas do filme Casablanca (1942). Canções como Lili Marlene foram usadas pelos dois lados do conflito, sendo cantada tanto em inglês como em alemão por Marlene Dietrich. Diversos artistas vestiram o uniforme e usaram a música com arma de guerra, como o band leader Glenn Miller, que se apresentava nos acampamentos de soldados aliados. Em uma dessas viagens, o avião que o transportava desapareceu.

O jornalista Sérgio Cabral explicou que, no Brasil, a música foi amplamente utilizada para enfrentar a guerra. "Era a coisa bem do carnaval, da música carnavalesca em que se falava de uma tragédia, mas se falava rindo e brincando. Era o carnaval. Assim como um cara fala na música que perdeu o seu amor e de um sofrimento danado, e você canta isso rindo, também a guerra deu para esse lado sonso da música popular", avaliou. O jornalista lembrou que ao mesmo tempo em que satirizavam a figura de Hitler, as marchinhas de carnaval exaltavam o presidente Getúlio Vargas. "Quem é que usa cabelinho na testa?/ E um bigodinho que parece mosca?/ Só cumprimenta levantando o braço?/ Êêêê, palhaço!", dizia a letra de uma delas, cantarolada por Sérgio Cabral.

Durante a guerra, três notas musicais curtas e uma longa eram capazes de reunir famílias ao redor de aparelhos de rádio em todo o mundo. Era o prefixo das transmissões da rádio BBC sobre a guerra. Em 1941, o primeiro ministro inglês Winston Churchill, lançou a campanha do "V para a Vitória". Em código Morse, três batidas longas e uma curta significam a letra V. Logo em seguida, a rádio escolheu o movimento inicial da Quinta Sinfonia de Beethoven para abrir suas emissões durante a guerra. Dines entrevistou o diretor artístico e regente da Orquestra Petrobras Sinfônica, Isaac Karabtchevsky, durante um ensaio no Teatro Carlos Gomes. Para o maestro, "os aliados não poderiam ter escolhido música melhor", porque ela transmite o sentimento de auto-superação. Beethoven já estava praticamente surdo quando a compôs, usando somente o ouvido interno para escrever esta peça. Ao final do programa, a orquestra executou o primeiro movimento da sinfonia.

***

Guerra e paz

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 518, exibido em 1/9/2009

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Há exatos 70 anos, em 1º de setembro de 1939, começava a Segunda Guerra Mundial, considerada pelos historiadores como o acontecimento mais importante dos últimos 500 anos. Não foi apenas um conflito bélico de gigantescas proporções, o primeiro de âmbito efetivamente global. O banho de sangue foi o maior de que se tem notícia: 72 milhões de mortos. O número de vítimas civis foi duas vezes maior do que o de soldados. A primeira guerra total, guerra absoluta, sem retaguardas. Todos estavam na linha de frente: as batalhas foram travadas em terra, no mar, no ar. Nas grandes cidades, vilarejos, desertos e selvas.

Como todas as guerras, visava a expansão territorial, mas também foi acionada por ideologias, ou melhor, pela intoxicação de idéias simplificadas através do rancor. Caso do milenar ressentimento anti-semita executado pelos nazistas em escala industrial.

Foi uma guerra decisiva para o Brasil: cruzamos o oceano para ajudar a derrubar Mussolini e Hitler enquanto o país estava mergulhado na rigorosa ditadura do Estado Novo. Aqueles poucos que conseguiram escapar do Holocausto e aqui se refugiaram trouxeram a idéia do país do futuro, que resultaria nos anos dourados da década seguinte.

Cada geração viveu a sua Segunda Guerra Mundial através do cinema, da literatura ou até pela TV. Porém, a banalidade do mal tornou-se uma realidade: hoje, muitos já não conseguem empolgar-se com os feitos ou comover-se com a imensa catástrofe. Pior: muitos não se importam em recomeçar tudo de novo.

A série de quatro episódios que o Observatório da Imprensa inicia hoje pretende fazer o registro dos registros, rever o que foi noticiado. Em suma, lembrar. Lembrar para evitar repetições. Lembrar para aproximar. Lembrar a guerra para promover a paz.

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