Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ENTRE ASPAS > YOANI SÁNCHEZ

A mulher embargada

Por Eugênio Bucci em 06/11/2009 na edição 562

Há pouco mais de 15 anos, no Estado de S.Paulo, comentei a decrepitude da ditadura cubana – decrepitude, sim, já naquela época. Foi no ‘Caderno2’, onde assinei, por dois anos, uma coluna semanal sobre TV, chamada ‘Sintonia Fina’. No dia 16 de julho de 1994, minha coluna se dedicou a um bom documentário sobre Cuba, levado ao ar no programa Documento Especial, do SBT. Reproduzo, a seguir, trechos do parágrafo final do velho artigo, cujo título foi ‘A utopia virou refém da tirania em Cuba’.




‘A Revolução cubana, 35 anos atrás, deve ter sido de uma euforia magnífica, de uma dignidade sem par. Hoje, ela é um poço de desencanto. Ou de desespero. (…) Por certo, e isso ninguém contesta, em Cuba as crianças não morrem de fome como aqui. Nem ficam sem escolas como aqui. Mas somos obrigados a reconhecer, ainda que seja tarde: a utopia virou refém da tirania. Para os cubanos, a escassez é a regra; o padrão de sobrevivência, humilhante. E na `bolsa negra´ ninguém acha liberdade para comprar.’


Na década de 1990, a ‘bolsa negra’ – o mercado ilegal – já tinha ocupado todos os espaços da vida social em Cuba. Uma reportagem esplêndida de Humberto Werneck, publicada em maio de 1994 na revista Playboy, contou em detalhes como isso aconteceu. Sob o título ‘Viver em Cuba ¡no es fácil!’, o longo relato – que mais tarde seria republicado no livro Habana Vieja, com fotos de Claudio Edinger (DBA, 1997) – descreveu em detalhes os malabarismos da sobrevivência em Havana, cujos moradores eram sufocados por cerceamentos políticos e práticos. No plano político, tinham de declarar em gestos e palavras sua total anuência à discurseira fálica dos ícones do regime: homens barbudos, revólver na cinta e charuto na boca, que se esganiçavam ao microfone. No plano prático, muito mais premente, tinham de recorrer a métodos heterodoxos se quisessem driblar a fome. No plano político, fingiam concordar para se safar. No plano prático, transgrediam para se alimentar.


‘Estou cansada’


Numa de suas passagens inesquecíveis, a reportagem narrava os apertos dos cubanos que começaram a criar porcos dentro do apartamento, sem que as autoridades percebessem, para depois vendê-los na ‘bolsa negra’. Eram tempos de desespero. A União Soviética já não podia subsidiar a economia e, com isso, a subsistência virou um desafio de vida ou morte para a imaginação e para a fibra de cada um. Werneck sintetizou muito bem esse estado de coisas:




‘Sem gasolina e sem automóvel, sem gás e sem fósforos, sem rum e sem charuto, sem luz, sem sabonete. Falta tudo para o povo. Tudo, menos criatividade.’


Em 1994, muitos ainda acreditavam que as escolas e os hospitais em Cuba funcionassem direito. Eu, por exemplo, acreditava que lá as necessidades básicas estariam atendidas. Só o que parecia injustificável era a ditadura, embora não se possa falar em justiça social e em direitos humanos num país em que não há liberdade. Agora, em 2009, o quadro é bem pior. Já não se pode dizer que a ditadura exista ‘apesar’ das conquistas sociais. Ao contrário, a opressão fardada só está lá para ocultar à força o fiasco das tais ‘conquistas sociais’. As estatísticas oficiais não são confiáveis. No plano político, o regime é uma usina de falsificações. No plano prático, um despachante da escassez.


Em 1994, a cubana Yoani Sánchez não tinha 20 anos de idade. Estava apenas começando a se cansar dos comícios intermináveis de Fidel Castro. Agora, em 2009, ela está farta, como deixa bem claro no blog que criou em abril de 2007, Generación Y:




‘Estou cansada do macho envolto no seu uniforme verde-oliva, do adjetivo `viril´ associado à coragem, dos pêlos no peito mandando mais que as mãos na escumadeira. Toda a minha progesterona aguarda que essa parafernália tão robusta dê lugar a palavras como `prosperidade´, `reconciliação´, `harmonia´ e `convivência´.’


Sob embargo


Como fazer um blog em Cuba também ‘no es fácil’, pois o acesso à internet é controlado pela polícia, Yoani foi obrigada a lançar mão da velha criatividade dos cubanos para postar seus artigos na rede. Um de seus truques é se passar por turista alemã e entrar na rede dentro dos hotéis internacionais. Ela teve ainda de aprender a conviver com agentes da repressão que a seguem por toda parte e, mais de uma vez, levaram seu marido, o jornalista Reinaldo Escobar, a prestar esclarecimentos. ‘O machismo tem só um lado positivo’, ela escreve. ‘Confrontados com o dilema de quem prender, era meu marido que levavam toda hora.’


O esforço deu resultado. Generación Y transformou sua autora em celebridade mundial. Em 2007 ela foi eleita uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Depois foi agraciada com vários prêmios internacionais, mas não pôde recebê-los pessoalmente porque o governo não lhe concede a autorização para sair do país (ver aqui nota deste Observatório). Yoani Sánchez está sob embargo do regime. Sob bloqueio.


Na sexta-feira (6/11) à noite, ao lado do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e do professor e editor Jaime Pinsky, participo de um debate, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, para marcar o lançamento do primeiro livro de Yoani Sánchez no Brasil: De Cuba, com Carinho (Editora Contexto). A obra reúne relatos que ela publicou no blog. São crônicas inspiradas, com flagrantes de uma realidade em que a ‘normalidade’ é ultrajante. Dona de um estilo literário que se lê com prazer, Yoani pensa com desenvoltura, sem escorregar pelas pregações doutrinárias. É uma ‘intelectual verdadeira’, como a define o posfácio de Demétrio Magnoli. Ela repudia os que lhe dizem que discordar do governo é trair a pátria.


Ah, sim: no debate, como é óbvio, Yoani Sánchez não estará conosco. O seu corpo continua sob embargo, acorrentado à ilha dos irmãos Castros. Mas as suas ideias escaparam e seguem escapando, para bem da verdade e da melhor criatividade do povo cubano.


Leia também


‘Cuba me dói’ – Mauro Malin entrevista Yoani Sánchez

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Jornalista, professor da ECA-USP

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/11/2009 Max Suel

    O tempo passou na janela e só Carolina ( e Joel, João, Herman e Dante) não viu. Nada justifica um regime de partido único, de jornal único, de ditador eterno e único, de crítica zero, de liberdade de ir e vir zero, de economia falida (et pour cause …) Viva Yoani ! receba virtualmente nossa solidariedade em sua luta. Viva Cuba (que um dia será livre dos ditadores e deste regime fracassado e opressor).

  2. Comentou em 07/11/2009 João Humberto Venturini

    Acho q essa história de ela se disfarçar de turista alemã pra acessar a internet do hotel é meio furada. Se é ditadura e tem agentes da repressão q a seguem por toda a parte, então como ela conseguiria entrar no hotel sem q eles soubessem? Q raio de ditadura é essa? Ou será q eles só a seguem de vez em qdo? Ela é conhecida no mundo e principalmente pelas autoridades, então se é ditadura mesmo, ela não conseguiria fazer isso e estaria presa. Uma professora q tenho contato e não é simpatizante do regime foi para Cuba no final dos anos 90 e em2002. Ela passou 1 mês lá e disse q o país é pobre mesmo e falta muita coisa, mas a questão de educação e saúde ela disse ser bom mesmo. Ela visitou escolas e disse q embora não tivessem infra-estruturas modernas, todas as crianças estudavam, todos tinham uniforme e a disciplina era fantástica. Lá ela disse q as famílias tem os médicos q vão até as casas e fazem um trabalho muito bom. O problema é q a remuneração é baixa, mas o desenvolvimento da medicina lá é inegável. Acho q Cuba é um país simbólico no q restou do ranço da guerra fria. Ranço esse q a mídia ainda possui e se esforça pra mostrar a falta de liberdade de expressão naquele país, mas aqui fecham os olhos para a censura q ha por aqui. Se Yoani morasse aqui e fosse critica do governo Serra por exemplo, ela nem sequer seria ouvida por essa imprensa.

  3. Comentou em 06/11/2009 Max Suel

    Excelente artigo do prof. Bucci. Não há nenhuma justificativa moral para este impedimento de um cubano viajar para o exterior. Brava Yoani, perfeita a colocação: ‘Ela repudia os que lhe dizem que discordar do governo é trair a pátria.’ . Assim é por aqui também … não se pode apontar erros deste governo lulo-petista-base alugada que logo vem os mesmos com a cantilena… PIG, etc, etc; ou então, que o partido de oposição fez pior, etc.

  4. Comentou em 06/11/2009 Ney José Pereira

    Sim, o tal Israel é mesmo um país-satélite dos states (USA ou EEUU ou EUA) -Estados Unidos da América!. Mas, a tal Cuba também foi um país-satélite da então URSS-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas!.

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