Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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JORNAL DE DEBATES > CASO ISABELLA

A notícia, um grande espetáculo

Por Flávio Herculano em 22/04/2008 na edição 482

Terminada mais uma edição do Big Brother Brasil, entra no ar uma outra novela da vida real. Só que, desta vez, ao invés das trivialidades do dia-a-dia de um grupo de jovens, a trama do espetáculo é a morte trágica de uma menina de 5 anos de idade: Isabella Nardoni.

Para o público não faz muita diferença. O que vale é poder saborear a emoção de cada desdobramento da estorinha para poder comentar os últimos detalhes com amigos e colegas de trabalho, em rodas de conversa. E, como em épocas de Copa do Mundo todo brasileiro é técnico de futebol, agora todo mundo é investigador policial. Cada pessoa tem sua própria versão para responder a pergunta do momento: ‘Quem matou Isabella?’. Desde o assassinato de Taís, personagem da novela Paraíso Tropical, o brasileiro não exercitava tanto sua lógica investigativa.

Para aplacar tamanha avidez por novidades, haja exposição do tema na mídia. Todos os dias, a estorinha da morte da criança é contada e recontada na TV, no rádio, na internet e nos jornais impressos, do mesmo modo como é tratado o resultado do ‘paredão’, uma partida de futebol decisiva, um capítulo final de novela ou mesmo um detalhe picante da vida de uma ‘celebridade’ televisiva.

O que pouca gente consegue entender é que há uma inversão neste caminho. Não foi entre o público que surgiu o interesse pela morte de Isabella, demandando uma produção contínua de notícias sobre o caso. Foi, sim, a própria mídia quem construiu esse interesse, levando o público a uma comoção. Quem preferir pode chamar esta prática de manipulação, mas, no jornalismo, ela tem o nome de ‘agendamento’.

Insegurança e impunidade

A mídia precisa, permanentemente, de um tema palpitante para noticiar. Pode ser um escândalo político, um desastre, um grande evento ou… um crime. Depois do desastre aéreo da Tam e da seqüência de escândalos políticos do mensalão, do caso Renan e dos cartões corporativos, tentou-se emplacar o escândalo do dossiê, com a ministra Dilma Rousseff como personagem principal e o PT como coadjuvante. Mas o tema era de pouco apelo popular e a tragédia envolvendo Isabella veio ‘no momento certo’, para ocupar o espaço principal dos noticiários. A menina superou a ministra; o crime familiar superou os erros do corporativismo político no governo federal.

Nestes episódios de grande exposição, a mídia explora cada tema até a exaustão. Depois disso, os descarta. Afinal, quem, hoje, se importa com personagens como Marcos Valério, Delúbio Soares ou mesmo com João Hélio, aquele menino que foi arrastado por diversas ruas no Rio de Janeiro, preso ao cinto de segurança de um veículo, em uma morte que causou comoção semelhante à de Isabella.

João Hélio tinha 6 anos quando foi morto, em fevereiro de 2007. Junto à comoção por seu assassinato, vieram os apelos para que a legislação penal brasileira fosse revista, tornando-se mais rigorosa com os criminosos adolescentes. Na época, o Congresso Nacional ensaiou alguma movimentação neste sentido. Mas, como em todo agendamento jornalístico, o caso se esgotou em termos de mídia antes de ser concluído nos tribunais de justiça. Hoje, não se discute qual o destino dos assassinos de João Hélio e muito menos se clama por uma revisão em nosso Código Penal.

Conclusão: a espetacularização da notícia não colabora em nada com a sociedade, a não ser no agravamento de uma sensação de insegurança, de impunidade e de corrupção generalizada.

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Jornalista, Palmas, TO

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