Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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JORNAL DE DEBATES >

A outra guerra do Paraguai

Por Deonísio da Silva em 19/07/2011 na edição 651

A torcida brasileira ainda degustava a alegria da desclassificação da Argentina, eliminada pelo Uruguai depois de fazer quatro dos cinco gols possíveis nos pênaltis, quando os biliardários atletas do Brasil demonstravam o que a mídia sempre escondeu: eles jogam melhor fora de campo. Dentro das quatro linhas dão mostras sobejas de que não sabem sequer bater direito um pênalti, dar um passe correto ou ajudar o companheiro cercado por adversários.

O que se diria de um jornalista ou escritor que cometesse erros grosseiros de ortografia, errasse a regência de verbos conhecidos ou tropeçasse na concordância de gênero ou de número? Ficaríamos sem saber qual seria seu desempenho diante da necessidade insopitável de conjugar um verbo irregular, usar um anacoluto ou recorrer a outras figuras de linguagem, como metáforas, metonímias, elipses e silepses. Se não domina nem os fundamentos da escrita, é claro que se daria ainda pior no manejo dos sofisticados recursos de expressão.

Um redator assim seria classificado de analfabeto, burro, incapaz, apedeuta, cretino e outros adjetivos comuns aos insultos. Mas os jogadores da seleção brasileira, incluindo uma comissão técnica contratada por um presidente da CBF cujo prontuário é invocado com incômoda e reiterada insistência pela mídia, sobretudo nas derrotas, são tratados como deuses ou, no mínimo, heróis e super-homens, que fazem jus a biliardárias remunerações, angariadas pela venda de ingressos nos estádios e por contratos publicitários astronômicos.

Há alguns anos o futebol do Brasil não é mais o melhor do mundo. Mas uma mídia ufanista insiste em mantê-lo entronizado em lugar solitário num templo que realmente já foi seu, mas não é mais!

Mídia e marketing

Na busca de transformá-lo em negócio moderno, seus operadores jogaram fora o que esse esporte tinha de melhor: a consagração popular espontânea. Os antigos deuses do futebol, o rei Pelé à frente, chamaram a atenção da mídia e não o contrário. Garrincha não tinha assessor de imprensa, mas em campo desempenhava seu ofício com uma virtuose que nenhum jornalista ou radialista esportivo era capaz de demonstrar em narrações esportivas orais ou comentários escritos. Contritos, então, autores talentosos, cujo exemplo emblemático foi Nelson Rodrigues, reconheciam com humildade que suas laudas, por mais inspiradas que fossem, não valiam um drible dele.

Veio a modernização, os recursos tecnológicos postos à disposição da mídia esportiva beiram à perfeição, com câmeras ocultas ou explícitas postadas em todos os ângulos e rádios cujas ondas não fogem mais, e o que se vê é um duplo primarismo: no campo, jogadores toscos erram os fundamentos da arte e da técnica que praticam. E, transmitindo ou comentando o que eles fazem, já não temos mais um Mário Morais, um Pedro Luís, um Fiori Gigliotti, um Paulo Mendes Campos e outras referências da fala e da escrita sobre o futebol. Naturalmente, exceções como Ruy Carlos Ostermann e poucos mais ainda dão os ares da graça, mas estão envelhecendo sem contar com quem os substitua à altura.

Rareiam os craques em campo e ficam igualmente escassos os profissionais que sabem o que dizer ou escrever sobre o que eles fizeram ou deixaram de fazer. Ainda antes de entrarem em campo, ubíquos assessores de imprensa e outros profissionais a serviço do mercado do futebol já entulharam celulares e e-mails de assuntos extrafutebolísticos com o fim de dar visibilidade midiática àqueles para os quais trabalham.

Pato tem nova namorada. Neymar é capa de revista com um terno de grife. Seu corte de cabelo não foi substituído, substituído foi ele próprio em campo, por mau desempenho, por não fazer direito as únicas habilidades que de um craque como ele o povo exige. Ganso está indeciso se vai para a Espanha ou para a Itália. Robinho agora tem brincos mais brilhantes.

Da grama para a grana

E o futebol que os levou até ali, onde está? Não se sabe, não se viu. E provavelmente agora virão as desculpas esfarrapadas. Os jogadores brasileiros erraram todos os pênaltis que bateram! Mas por que chegaram aos pênaltis diante de uma seleção que, embora aguerrida, não é referência no futebol internacional e consagrada como a nossa?

Todavia os leitores e internautas não se aflijam! Para tudo a mídia tem e dará explicação! O goleiro adversário só precisou pegar um pênalti. Os outros três não precisaram dele, os jogadores brasileiros chutaram para fora.

A grande lição da derrota para o Paraguai talvez seja a seguinte: o futebol não está mais onde sempre esteve, na grama; há tempos ele mudou para a grana. A culpada, se culpada houvesse, seria a grana, não a grama.

Diante da grama, o menino criativo ensaia os primeiros toques de gênio. Mas quando chega a grana, ele sucumbe sem antídotos. Ele sabe lidar com a grama, não sabe lidar com a grana.

***

[Deonísio da Silva é escritor e professor]

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