Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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JORNAL DE DEBATES >

A polêmica unificação dos títulos nacionais

21/04/2009 na edição 534

Caro senhor Antônio Carlos Teixeira, não tenho o prazer de conhecê-lo, mas tomei a liberdade de lhe enviar esta mensagem por ter sido citado em seu artigo de 31 de março, neste Observatório, sob o título ‘Os campeões de fato e de direito‘. Tratei do tema da unificação dos títulos nacionais no dia 24 de março, logo depois do lançamento do dossiê dos clubes relatado em seu artigo. Nesse dia, em meu blog, publiquei ‘O que a CBF pensa sobre a equiparação dos títulos nacionais‘. O texto trazia opinião, mas também informação sobre como a CBF pretende lidar com o assunto.


Minha preocupação é sempre que não se defenda a paixão clubística sob o pretexto do respeito à história. Sou jornalista antes de ser torcedor do Palmeiras, fato público, embora eu tome o cuidado de só o expor quando é indispensável, ou seja, quando sou perguntado a respeito. Nesse caso, exerço a primeira missão de minha profissão: digo a verdade.


Palmeiras e Santos, ao que me consta o clube de sua paixão, seriam os mais beneficiados com a unificação dos títulos nacionais.


Meu sentimento de ter sido injustiçado por seu texto se dá porque, diferente do senhor, dei a meus leitores o direito de discordar de mim num tema polêmico. Seu artigo não me deu o direito à opinião. Oferecia somente a sua, além de não ter trazido a informação completa sobre o assunto.


Mais, trata-me como um menino que não conhece a história. Sou jornalista de esportes há 21 anos e contei todos os lados do assunto na nota que o senhor parece não ter tido o cuidado de ler.


Como faltou esse cuidado, repito o que penso a respeito:


1. Nunca neguei a importância dos torneios em questão. Robertão e Taça Brasil são citados por mim sempre, seus campeões são lembrados com imenso respeito e a importância dos torneios nacionais nunca foi questionada em nenhuma de minhas matérias ou participações em programas de televisão. Sou apenas contra a unificação.


2. A Taça Brasil, a meu ver, é, sim, a irmã mais velha da Copa do Brasil. É um torneio mais antigo do que as versões do Campeonato Brasileiro, assim como as copas nacionais nasceram antes dos campeonatos na Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha. Nem por isso, ingleses, espanhóis e portugueses pensaram em unificar as versões nacionais de seus torneios.


3. Embora sempre se diga que o Robertão (disputado entre 1967 e 1970) e o Campeonato Brasileiro (jogado com esse nome a partir de 1971) eram iguais, havia diferenças. O Robertão tinha por nome oficial ‘Torneio Roberto Gomes Pedrosa’. O antigo torneio Rio-São Paulo, por enquanto fora das pretensões de unificação, era também conhecido como ‘Torneio Roberto Gomes Pedrosa’. O Robertão recebeu este apelido por ser a ampliação do Rio-São Paulo. Era o mesmo torneio, que apenas passou a contar com as participações de clubes do Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, em sua primeira edição, e de Pernambuco e Bahia, a partir da segunda edição.


A decisão oficial e as manchetes


Unificar os títulos do Robertão e do que passou a se chamar Campeonato Brasileiro em 1971 significa dar chance a outros campeões de pedir a equiparação de todas as versões do ‘Torneio Roberto Gomes Pedrosa’, ou seja, incluir o Rio-São Paulo no âmbito dos torneios nacionais. Seria absurdo, sem dúvida, porque o Rio-São Paulo não era um torneio nacional, mas quem negará que se tratava do torneio interestadual mais importante do país?


Outra diferença é a criação da Segunda Divisão a partir de 1971. Embora o acesso e o descenso não tenham sido respeitados a partir daí, o fato de haver Segunda Divisão significa a participação de 17 estados a partir de 1971. O Robertão incluiu sete estados em suas edições de 1968, 1969 e 1970. Era um torneio interestadual.


4. O autor de ‘Os campeões de fato e de direito’ julga absurdo ignorar as manchetes de jornais que proclamavam campeões brasileiros os vencedores da Taça Brasil e do Robertão.


Não ignoro as manchetes. Considero que os jornais da época deram o nome de campeões nacionais aos clubes vencedores de torneios extremamente relevantes, mas que ficaram na história com uma nomenclatura diferente de Campeonato Brasileiro. E por quê? Porque a CBD decidiu chamar Campeonato Brasileiro a partir do momento em que viu representados, em um torneio que não tinha fórmula de Copa, mais de 10 estados brasileiros. De um ponto de vista, era mais do que um torneio interestadual.


O autor de ‘Os campeões de fato e de direito’ subestima a decisão oficial CBD ou superestima as manchetes?


História não se conta com a placa nº 8


5. Apesar das diferenças, é possível admitir posições favoráveis à unificação. O tema, como escrevi, é polêmico e respeito todas as opiniões, mesmo que não tenha a minha opinião respeitada, como foi o caso.


Minha posição, no entanto, é a de que não se precisa mudar a nomenclatura ou pedir a unificação para valorizar as versões diferentes dos torneios nacionais.


Mais importante do que ver o Santos, clube da paixão de Antônio Carlos Teixeira, levantar uma placa em que se proclame campeão brasileiro por oito vezes, é ensinar história.


Mais importante é fazer mais gente entender que o Santos é campeão nacional oito vezes. É explicar cada versão e contar que o clube tem cinco Taças Brasil, um Robertão e dois Campeonatos Brasileiros.


Conhecer a história é o fator principal para entender a importância de cada momento, de cada época. Não é preciso chamar D. Pedro II de presidente da República para entender que era o chefe de Estado no século 19. D. Pedro era o imperador.


Não é preciso chamar o Santos de campeão brasileiro de 1961 para entender que conquistou o torneio de clubes de âmbito nacional mais importante do início da década de 60. Basta contar que o Santos de Pelé ganhou a Taça Brasil.


Caro Antônio Carlos Teixeira, a história não se conta erguendo uma placa com o número 8.


Grande abraço, Paulo Vinicius Coelho

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Jornalista

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