Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA GLOBALIZADA

A queda do discurso hegemônico

Por Larissa Grau em 11/09/2007 na edição 450

Durante a década de 1960 foi muito popular, entre os pensadores da América Latina, a teoria do imperialismo cultural. A teoria abordava, principalmente, a direção do fluxo comunicacional produzido pelos meios de comunicação de massa: dos países centrais, ou hegemônicos, para os periféricos, ou do ‘terceiro mundo’. A constatação era a de uma circulação assimétrica de bens simbólicos. Notícias e entretenimento ‘vendiam’ não somente os produtos dos países mais industrializados para aqueles menos industrializados, mas, junto com eles, todo um estilo de vida e uma determinada tendência ideológica que era capitalista e capitaneada pelos Estados Unidos.

Se no imperialismo do século 19 as conexões do mundo eram feitas por cabos submarinos e por meio de linhas férreas que ligavam a Europa às suas colônias e esferas de influência, neste segundo momento, com o advento das ondas eletromagnéticas, essa ligação deixava de ser ‘concreta’ e se transformava no fluxo internacional da comunicação.

Quando, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram do conflito como a nação política e econômica mais poderosa do planeta, a circulação de bens simbólicos teria se tornado ainda mais importante para garantir o controle e a hegemonia financeira, ideológica, política e cultural sobre o mundo. O que se denominava imperialismo cultural era, então, um conjunto de medidas intencionais e racionais, cujo propósito era tão somente garantir a manutenção de uma determinada conjuntura geopolítica que atendia aos interesses dos mais poderosos.

Circulação global

Houve, inclusive, tentativas de alterar a natureza desse quadro. Nos anos 1970, a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de seu órgão para as políticas voltadas à educação, ciência e cultura (Unesco), empreendeu uma série de estudos e pesquisas voltados para o setor da comunicação e encomendou um projeto internacional que pretendia alterar e compensar a produção e a distribuição de bens simbólicos no mundo. Diagnosticaram que havia a premência de uma despolarização da produção e disseminação da informação produzida, já que as pesquisas empreendidas demonstraram uma clara hegemonia norte-americana na circulação desse conteúdo informacional.

A iniciativa refletia, naquele momento, uma necessidade e uma reivindicação dos países não-alinhados. Foi proposta, então, a Nova Ordem da Comunicação (NOC) para tentar resolver essa assimetria vigente desde o século 19, quando as redes de comunicação internacional foram organizadas. Um dos tópicos cruciais para resolver esse problema e, assim, diminuir a influência norte-americana no mundo, foi a sugestão de criação de agências de notícias locais que estivessem a serviço de uma outra ordem de crescimento econômico, político e cultural. Entretanto, pressões políticas e uma forte oposição dos grupos de comunicação privados, condenaram o projeto ao esquecimento.

As agências internacionais de notícias foram responsáveis pela coleta e disseminação da informação sobre grandes extensões territoriais. Por meio delas estabeleceu-se uma configuração em que para a obtenção de notícias de todo o mundo tornou-se economicamente mais viável a dependência de seus serviços de distribuição de produtos noticiosos. Estabeleceu-se, então, um fluxo de informação indireto, e não direto – ou seja, as informações não circulavam de um país para outro, mas de alguns poucos países, que sediavam as agências, para todo o resto. Uma circulação global que refletia a organização e o poder político e econômico de sua época.

Transformações sociais

Após a Segunda Grande Guerra, o quadro da circulação de informação noticiosa estava delineado nas mãos de somente quatro agências: Reuters, Associated Press (AP), Agence France Presse (AFP) e United Press International (UPI). Sediadas em cidades de países do Primeiro Mundo – Londres, Nova York, Paris e Washington, respectivamente – as agências foram sempre associadas à disseminação de um determinado conteúdo noticioso, ideologicamente vinculado aos interesses de seus países de origem e a uma determinada ordem política e econômica.

Entretanto, nas duas últimas décadas, com o avanço das novas tecnologias digitais e de comunicação por satélite, o quadro desse fluxo informacional alterou-se radicalmente. A própria Unesco abandonou a velha temática para discutir outros aspectos dessa nova ordem mundial configurada por uma comunicação em rede. Democratização de acesso, sociedade da informação e inclusão digital se tornaram o foco das preocupações do órgão.

De fato, como bem ilustra J.B. Thompon em seu livro Mídia e Modernidade, esse processo de expansão das relações políticas, econômicas, sociais e culturais, conhecido como ‘globalização’, é antigo. Iniciou-se por volta do século 15, no período das grandes navegações, e se consolidou no século 17. Naquele momento, o mundo começava o seu processo de integração em escala global para além das fronteiras da velha Europa. O ponto central da argumentação de Thompson é de que se a organização da distribuição do poder simbólico contribuiu para a globalização, foi também, por outro lado, transformada por ela.

Com o advento de novos meios de comunicação, baseados na integração a longa distância pela tecnologia de satélites e, mais tarde, por meio dos ambientes de comunicação digital, esse ambiente relacional provocou transformações sociais significativas quanto à forma de perceber e conceber o mundo e, também, de estabelecer os laços identitários. Por meio delas, o discurso ideológico já não era mais unívoco e seu fluxo, não mais unidirecional e previsível.

Identidade reconstituída

Outras e inúmeras variáveis entraram em ação. O impacto das novas tecnologias fez emergir na arena global uma série de outros relatos, uma miríade de construções de sentido, de conhecimento e de tessituras da realidade. Na era da informação globalizada, a própria relação de espaço e tempo foi alterada e o mundo sofreu as conseqüências desse fluxo instantâneo, descentralizado e multidirecional de informações. Mundos até então desconhecidos e distantes da realidade ocidental principiaram a fazer parte de uma nova ordem e a clamar por seu espaço no universo midiático e da informação. A arena da mídia passou a ser o alvo e palco estratégico de outros discursos até então sufocados. Se atividades políticas e econômicas começaram a ser, por um lado, planejadas em escala global, por outro, o mundo assistiu ao surgimento de falas identitárias, regionais, étnicas, religiosas e peculiares dentro dessa arena global.

A esse processo o sociólogo Manuel Castells deu o nome de ‘sociedade em rede’ e outro sociólogo, Alain Touraine, sobre ele, afirmou que numa ‘sociedade pós-industrial em que os serviços culturais substituíram os bens materiais no cerne da produção, é a defesa da personalidade e cultura do sujeito contra a lógica dos aparatos e mercados que substitui a idéia de luta de classes’. Ou seja, em um mundo inteiramente conectado, existe, na interatividade mundial, uma tentativa de estabelecer uma identidade reconstituída e partilhada dentro de um universo que se encontra fragmentado.

A ação dos atores

Alguns atores são fundamentais para ilustrar as transformações sócio-culturais dentro desse novo modelo comunicacional. Quando ‘entrou no ar’, pelo sistema broadcast de televisão, a Cable News Network (CNN), sediada na cidade de Atlanta (EUA), foi considerada por muitos uma aventura fadada ao fracasso. A experiência de uma emissora que operava por satélite ou por cabo e que transmitia conteúdo noticioso ininterruptamente 24 horas por dia, o ano inteiro, era ainda inédita no planeta. A CNN passou, de uma só vez, a representar o mundo todo nas telas das televisões domésticas. Correspondentes estrategicamente colocados nos quatro cantos do planeta davam a sua versão dos fatos e revelavam o que até então permanecia ignorado.

Apesar das acusações freqüentes de ser uma emissora comprometida com os interesses imperialistas norte-americanos e de ser um elemento estratégico no processo de construção do imaginário mundial pela perspectiva ocidental, a ‘presença ao vivo da emissora na cobertura dos mais importantes eventos do globo determina e condiciona a ação dos atores em muitas e graves circunstâncias’, como ilustra Jacques Weinberg em seu livro Mídia e Terror. Ainda segundo o autor, por conta de sua cobertura internacional, houve a mobilização e intervenção de governos ocidentais em conflitos que até então permaneciam fora do discurso midiático e da pauta dos telejornais. É deste período a cobertura imagética dos protestos estudantis na China, em 1989, a invasão militar do Kuwait pelo Iraque e a primeira guerra do Golfo, em 1990, a tentativa de golpe na Rússia, em 1991, e as guerras na Somália, em 1991, Bósnia, em 1992, Ruanda, em 1994, e Kosovo, em 1999.

Fluxo complexo e diversificado

Porém, em um determinado momento da história recente, esse predomínio de fazer a notícia e, com isso, de representar o mundo, saiu das mãos exclusivas dos norte-americanos e dos conglomerados ocidentais de comunicação. Outros atores principiaram a fazer parte da agenda noticiosa e a contribuir com a sua própria versão dos fatos. Um outro fator, de natureza histórica, foi fundamental para romper com a hegemonia de um só discurso hegemônico via meios de comunicação: a criação da emissora árabe Al Jazira, em 1996, sediada na cidade de Doha no Qatar. A emissora pode ser considerada pioneira de um novo fenômeno no cenário das comunicações, já que foi o primeiro canal sediado no Oriente Médio a transmitir para o mundo todo, em inglês, o seu discurso midiático, fruto de uma outra forma de conceber o mundo.

Ainda segundo Weinberg, a Al Jazira possui, segundo estimativas, cerca de 35 milhões de espectadores e, embora seguindo os padrões de formato e qualidade da imprensa televisiva ocidental, difere quanto ao enfoque dado a determinados assuntos, ao enquadramento dos fatos, à prioridade na cobertura deles e ao cardápio noticioso. Segundo informações contidas no site da própria emissora, a Al Jazira, ‘com centros de distribuição broadcast em Doha, Kuala Lumpur, Londres, Washington e disponibilizando informações para outros órgãos de comunicação em todo o mundo, estabelece uma nova agenda de notícias, construindo uma ponte entre culturas e provendo uma outra perspectiva noticiosa sobre regiões ao redor do mundo que possuem pouca cobertura jornalística, para uma potencial audiência de mais de 1 bilhão de pessoas que falam o idioma inglês’.

Com a emissora, o fluxo internacional de informações se tornou ainda mais complexo e diversificado. As novas emissoras que emergiram neste período já não são, inclusive, encontradas somente por meio de cabos.

Informação descentralizada

Quase todas têm sua versão digital, sendo possível acessar o seu conteúdo noticioso via internet, de qualquer lugar do mundo e a qualquer hora. Sendo assim, já não há como não falar em um só discurso ideológico fundamentado em um só determinado ponto de vista hegemônico e valor cultural. Grandes corporações mundiais de jornalismo – tanto a CNN como a Al Jazira – disputam na arena política global, a preferência de um público cada vez mais segmentado e apto a escolher aquela(s) emissora(s) que satisfaça(m) os parâmetros de seus valores culturais e outros contextos variados. Emissoras que não apenas abordam um mesmo fato sob outro e diferente enfoque e enquadramento, mas que pautam temas e assuntos que são inexistentes na grande mídia ocidental.

Somente no Oriente Médio, dezenas de emissoras de televisão têm o seu conteúdo disponibilizado no ambiente digital e podem ser acessadas de todas as partes do mundo, algumas com versões em inglês e outras somente em sua língua de origem para um público local. Uma frente de outras emissoras televisivas, além da emissora do Qatar – a Al Jazira – têm seus conteúdos disponibilizados no meio digital. Estão presentes nessa frente canais de televisão do Irã, Iraque, Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Líbano, Líbia, Síria, Dubai, Autoridade Nacional Palestina, Iêmen, Kuwait, Sudão, Bahrein e Omã, além de emissoras árabes fundadas e sediadas em países europeus e nos Estados Unidos, que contribuem para construções de sentido próprio e da tessitura da realidade baseados em diferentes arcabouços culturais, religiosos e étnicos.

Educação para a guerra

Outros temas sob outras perspectivas podem ser acompanhados em uma era onde a informação está sendo disseminada descentralizadamente. A Al- Jazira, por exemplo, no dia 8 de maio de 2007, cobriu jornalisticamente a Inter-Faith Dialogue Conference na cidade de Doha que foi, entretanto, ignorada pela maior parte da imprensa tradicional, embora a conferência contasse com representantes das principais religiões do mundo. Na mesma emissora, no dia 27 de maio, o xeque Shaker al-Absi, líder da facção religiosa islâmica fundamentalista Fath al-Islam, sediada no Líbano e responsável por uma rebelião dentro de um dos campos de refugiados palestinos localizados no país, ameaçou em um comunicado em cadeia, judeus, norte-americanos e quem mais os apoiasse. O comunicado se restringiu a poucas emissoras ocidentais.

No dia 28 de janeiro de 2007, a emissora de televisão Al-Arabiya, localizada tanto em Dubai quanto na Arábia Saudita, promoveu uma discussão entre acadêmicas egípcias sobre quando e em quais circunstâncias é permitido que mulheres exerçam cargos de chefia de Estado. Na mesma emissora, no dia 6 de abril de 2006, o ministro para Assuntos Estrangeiros da Autoridade Palestina, Mahmoud Al-Zahar, defendeu as operações de martírio religioso como uma forma de resistência e de combate ao invasor israelense.

Na emissora Al-Manar, sediada no Líbano, uma reportagem transmitida no dia 29 de maio de 2001 mostrou um teatro infantil realizado por uma organização islâmica palestina na Faixa de Gaza, no qual se argumentava que toda uma nova geração palestina, desde 1993, está sendo educada e preparada para a guerra. As crianças interpretavam soldados armados e os líderes do Hezbollah, Hassan Nasrallah, e Ahmed Yassin, do Hamas.

‘Código de vestimenta’

No dia 12 de março de 2006, a emissora Iqra da Arábia Saudita – de programas religiosos islâmicos – transmitiu uma convenção que contou com a presença do xeque Yousuf Al-Qaradhawi. Nela, ele defendeu a prática do martírio religioso como uma forma de resistência política e justificou a morte de crianças e mulheres israelenses ocasionadas por essas operações. O canal de televisão também foi responsável por uma campanha lançada em agosto de 2005 para levantar recursos financeiros para a Intifada palestina.

A emissora IRINN, do Irã, exibiu no dia 24 de março de 2007 uma grande apreensão de drogas. Elas foram expostas para a TV distribuídas pelo chão, formando o desenho de uma estrela de Davi, símbolo da nação judaica. No dia 14 de setembro de 2004, uma reportagem na mesma emissora concluiu que, tanto o ataque japonês a Pearl Harbour (Segunda Grande Guerra) quanto o atentado de 11 de setembro de 2001 na cidade de Nova York, foram ‘planejados pelos Estados Unidos’. No dia 14 de julho do mesmo ano, uma matéria especial comprova a veracidade dos Protocolos dos Sábios de Sião. No dia 15 de abril de 2007, o ministro do interior do Irã, Mustafa Pour-Mohammadi, em entrevista, explicou as novas medidas para reforçar o ‘código de vestimenta iraniano’ para mulheres.

Papel reflexivo

No dia 13 de junho de 2004, a emissora Al-Majd, da Arábia Saudita – ‘dirigida à família árabe’ e de caráter islâmico – exibiu uma entrevista com Farah Shalhoub, um especialista em assuntos palestinos, sobre o recrutamento e a preparação física e moral dos homens-bomba; na mesma emissora, no dia 6 de maio do mesmo ano, um debate foi transmitido sobre a liberação feminina e as mulheres-bomba. Um programa de ciência islâmica, exibido no dia 16 de janeiro de 2005, demonstrou cientificamente – com dados do próprio astronauta Neil Armstrong e de fotos feitas do espaço – que Meca é o centro preciso do mundo. A emissora, que conta com três canais na televisão aberta, e quatro na fechada, faz, também sua cobertura de assuntos internacionais.

Na LBC, do Líbano, mulheres intelectuais sauditas discutiram as circunstâncias em que mulheres devem ser permitidas a dirigir.

Impossível acreditar em um só discurso hegemônico. As emissoras no Oriente Médio, somente a título de exemplo, têm sua própria agenda e enfoque sobre os fatos noticiosos. A construção do sentido social e do conhecimento já não é somente global – embora existam os grandes conglomerados de comunicação –, mas, ao contrário, existe a força de uma regionalidade que tem o seu apelo e sua relevância.

Os meios de comunicação possuem um papel reflexivo dentro das sociedades, refletindo, criando, legitimando, construindo e alterando todo um leque de valores culturais e morais. Longe de dizer que os meios de comunicação manipulam, determinam ou influenciam. Eles são parte constituinte da sociedade e não podem ser analisados como estranhos a ela.

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Estudante do último período de Jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/09/2007 eustáquio fernandes

    Quero perguntar ao Móisés: a contestação ao discurso hegemônico nasceu de quê? Onde? Quando? Por que? Faço estas perguntas porque tenho para mim que se o discurso hegemônico nasceu no capitalismo liberal e isto merece crítica, a contestação a ele também nasceu nos países capitalistas liberais e isto merece louvor. A hegemonia do discurso é assim tão vasta? Olha o imenso mundo muçulmano aí. Ele compartilha deste discurso? E esta hegemonia é tão nefasta? Países que experimentaram outros discursos hegemônicos (URSS,p. ex.) sequer permitiam contestação. É o caso da Coréia do Norte, hoje.

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