Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > A LEI E O CRIME

A Record atira na concorrência

Por Valério Cruz Brittos e Andres Kalikoske em 27/01/2009 na edição 522

O telespectador que sintonizar a Record nas noites de segunda-feira poderá constatar que a cultura de massa trabalha com fortes doses de homogeneização, reproduzindo elementos de produtos que, por terem obtido êxito, ainda se encontram no imaginário popular. Prova disso é o seriado A Lei e o Crime, empreitada da emissora de Edir Macedo que já está incomodando a Globo, por alcançar a vice-liderança isolada de audiência na Grande São Paulo e picos de primeiro lugar no Rio de Janeiro. No mercado internacional, promete fazer dinheiro, repetindo o desempenho de seus antecedentes similares.

Com muitos tiros e custo elevado – são R$ 600 mil por episódio, três vezes mais do que é gasto no capítulo de uma telenovela –, o enredo resgata temáticas comuns aos brasileiros, como corrupção policial e violência extremada nas favelas cariocas. Seu elenco ainda conta com dois atores oriundos do bem-sucedido filme Tropa de Elite, o que torna quase impossível não comparar o seriado com a respectiva obra cinematográfica.

Este não é o primeiro investimento da Record em seriados. Em 2003, a emissora levou ao ar A Turma do Gueto, retratando o cotidiano da periferia. Realizada pela produtora Casablanca, a partir de argumento do cantor Netinho de Paula, a produção não chegou a ser um fracasso, mas também não alavancou a audiência da Record para os parâmetros desejados por seus executivos. Ainda, em 2006, co-produziu com o canal transnacional Fox o produto Avassaladoras. Deficitário no quesito audiência, teve seu horário de exibição alterado por diversas vezes.

Fidelidade internacional à Globo

No entanto, no caso de A Lei e o Crime, a carência de originalidade estende-se do enredo à estratégia de programação da emissora. A exemplo da Globo – que há quase 10 anos estréia seus programas no primeiro mês do ano –, em 2009 o canal de Edir Macedo lançou novos produtos também em janeiro. Todavia, além de atirar contra a concorrência nacional, o seriado ainda carrega consigo a difícil missão de maximizar os ganhos da Record no mercado externo. Primeiramente o produto será ofertado a canais da Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão. O Reino Unido também se apresenta como um mercado potencial, frente ao arrebatador sucesso de público e crítica de Elite Squad, título local de Tropa de Elite. Posteriormente, deverá ser exibido na Record Internacional, o sinal além-mar do grupo. A primeira modalidade de venda, no entanto, é muito mais vantajosa para a Record, uma vez que seu canal internacional ainda não decolou.

O crescimento da Record Internacional ocorre especialmente nos países pobres da África falantes da língua portuguesa. Por coincidência, nota-se nesses países a forte presença da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Contudo, tanto na venda aos canais estrangeiros, quanto na emissão de programas em seu sinal internacional, os mercados (e consumidores) seguem fiéis às produções da Globo. O europeu e o norte-americano, que pagam altas cifras por produtos televisivos, preferem oferecer em suas grades de programação novelas como A Favorita, atualmente no ar pela SIC de Portugal, ou El Clon (O Clone), sucesso recente na Telemundo norte-americana (voltada para o público hispânico).

Experiência em remakes

Frente a este cenário, com exceção da Globo – que, apesar de resgatar mais uma edição do Big Brother Brasil, estreou em janeiro a bem sucedida minissérie Maysa – Quando Fala o Coração e a novela Caminhos das Índias –, nas outras emissoras falta inovação. A Band insiste no nada original Band Verão, apostando no revezamento de seus apresentadores para tentar emplacar as diversas edições do programa que são exibidas por dia. No momento, sua atração de maior audiência é o humorístico Uma Escolinha Muito Louca, que também vem sendo reprisado, dividindo a faixa vespertina com o decano seriado Punky, a Levada da Breca, produção norte-americana da NBC dos anos 80.

Já no SBT, estréias parecem soar como algo remoto. Com o término de Pantanal – cujo último capítulo foi exibido sem a mínima divulgação prévia – o canal prepara-se para editar as fitas de Ana Raio e Zé Trovão, produzida em 1991 pela extinta TV Manchete. Enquanto isso, o recém-contratado diretor Del Rangel começa a produzir a sucessora de Revelação. O roteiro, baseado na radionovela Vende-se Um Véu de Noiva, de Janete Clair, será assinado por Íris Abravanel e seus fiéis colaboradores. Apesar da falta de experiência da autora, a emissora aposta no trabalho do diretor para alavancar a produção. Experiência em remakes não lhe falta: couberam a Del Rangel as bem-sucedidas regravações de Éramos Seis e Sangue do Meu Sangue, ambas do SBT, além da nostálgica Meu Pé de Laranja-Lima, sucesso infanto-juvenil da Band.

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Respectivamente, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e mestrando em Ciências da Comunicação na Unisinos

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