Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > CASO MENGELE

A tecnologia do medo

Por Deonisio da Silva em 30/11/2004 na edição 305

A liberdade é vivida dos mais diferentes modos. Uma sociedade democrática é por sua própria natureza plural. Já os autoritarismos todos se parecem, o que muda é a escala de crueldade de suas tecnologias, sendo, porém, único para todos eles o propósito número um: subjugar pelo medo as sociedades que oprimem, sejam elas amplas e complexas como uma nação, sejam pequenas instâncias.

Nenhum autoritarismo, porém, superou os tristes recordes do nazismo, quando o mal foi banalizado, a ponto de forçar milhões de pessoas a conviverem com a tortura, a morte, o genocídio.

Um dos mais tristes emblemas do nazismo foi a omissão dos que podiam fazer alguma coisa e nada fizeram para evitar ou minorar os sofrimentos das vítimas. Pois na semana passada, este terrível pecado, o da omissão, rondou a imprensa brasileira e pairou como nuvem ameaçadora sobre todos nós.

Com efeito, as revelações da Folha de S. Paulo sobre o caso Mengele, ainda repleto de pontos obscuros, foram tratadas como matéria sua, exclusiva, e não como de interesse público.

Tivesse a imprensa o mesmo comportamento nos grandes momentos que engrandecem sua história – a queda de Collor, o movimento das Diretas-já, a luta pela Constituinte, a gigantesca onda que se formou contra o autoritarismo nos estertores do governo Figueiredo, nas vagas que levaram à eleição de Tancredo Neves – eles provavelmente não teriam chegado ao final feliz que alcançaram. Ficariam isolados, confinados como se fossem bandeiras exclusivas desse ou daquele jornal ou revista, dessa ou daquela emissora.

Hierarcas menores

Gerhard Dilger, correspondente do diário alemão Die Tageszeitung, ficou desconcertado ao constatar o estranho silêncio da imprensa brasileira sobre as revelações da Folha. No sábado, em Porto Alegre, quando fechava a edição dominical de seu jornal com uma entrevista com o rabino Henry Sobel, comentou isso, depois de ler matéria publicada na edição nº 304 o Observatório da Imprensa [remissão abaixo].

Na edição de domingo (28/11), a Folha, sempre solitária, voltou ao assunto com novas matérias assinadas por Andréa Michael e Ana Flor. E a coisa esquentou um pouco mais. Como era de se esperar, Mengele comentava a repressão brasileira dos anos pós-64, elogiando a eficiência do combate aos estudantes. Parecia dar a lição que faltava: o mundo inteiro poderia fazer a ‘oficina de repressão’ que fora praticada em Ibiúna, em outubro de 1968, quando entre os mais 1.240 estudantes presos estava o futuro prefeito eleito de São Paulo, José Serra, e o futuro ministro José Dirceu.

Será que agora repercute? Nas palavras de Mengele, ‘com facilidade, agentes poderiam se disfarçar como estudantes em todos os países e desmascarar as cabeça dos bandos dos movimentos estudantis’. E depois, claro, se necessário, mandar todos a algum campo de concentração, repetindo Auschwitz!

Reitero que há muito o que pesquisar e aprofundar no tema. Mengele gastou o que tinha e o que não tinha comprando o silêncio dos cúmplices. Quem eram eles? Por que e como faziam o que faziam? Quais suas ligações com o tipo de gente que Jorge Luis Borges reuniu sobre a rubrica ‘pequenos próceres’, curiosas e expressivas, poderosas por designar em síntese invejável a malta de hierarcas menores, encarregados de fazer serviços sujos, ou, na semântica do general Ernesto Geisel, os ‘bolsões sinceros, mas radicais do regime?

Repercussão mundial

Mengele viveu 34 anos foragido na América do Sul. Desses, viveu 19 no Brasil até morrer afogado na praia de Bertioga (SP), em 7 de fevereiro de 1979. Seus pertences, incluindo a documentação agora revelada, foram esquecidos na Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, e encontrados pela equipe dos delegados Euclydes da Silva Filho e Wenderson Braz Gomes.

Editores e repórteres, ao menos procurem o jornalista brasileiro Ewaldo Dantas Ferreira. Ele entrevistou Klaus Barbie na Bolívia. Quem sabe possa ensinar alguns rudimentos de sua experiência no ofício. Além do mais, figura afável e de conversa agradável, modesto, apesar da retumbância mundial que teve sua reportagem, pode ser encontrado em São Paulo, onde vive atualmente. Antes, talvez, seja prudente ler sua bela reportagem, que a Editora Rio, da Universidade Estácio de Sá, publicou na íntegra.

O depoimento do SS Klaus Altmann = Barbie, de Ewaldo Dantas Ferreira [veja remissões abaixo], em linhas gerais move-se no seguinte quadro, de acordo com as informações da Editora Rio:

‘Em 1963, a filósofa Hannah Arendt, na função de jornalista, cobriu em Jerusalém, para a revista The New Yorker, o julgamento de Adolf Eichmann, para o qual cunhou a expressão ‘banalidade do mal’. Ela usou esse conceito para denunciar a desproporção entre a magnitude do crime, a insignificância do culpado e a perplexidade quanto à pena a ser aplicada. Em resumo: como punir um pequeno funcionário que burocraticamente providencia a morte de 3 milhões de pessoas? Em 1972, o oficial nazista Klaus Altmann, que já havia sido condenado à morte e cujo nome de guerra era Klaus Barbie, estava foragido quando foi descoberto e entrevistado na Bolívia pelo repórter Ewaldo Dantas Ferreira. Altmann, também conhecido como ‘o carrasco de Lyon’, tem perfil bem diferente de Eichmann: assume, expõe e defende com impressionante tranqüilidade e firmeza a dita ‘legalidade’ de suas ações de guerra. O depoimento do SS Altmann=Barbie, lido 30 anos depois de sua publicação, ganha novo sentido no quadro atualizado da banalidade do mal.

‘São os episódios protagonizados por terroristas como bin Laden e ditadores como Saddam Hussein que trazem para o centro do debate político internacional duas questões nevrálgicas: o terrorismo e o caráter hegemônico da atual política de segurança dos Estados Unidos, que culminou com a invasão do Iraque sem autorização da ONU. Diante dessa realidade, analistas de todo o mundo destacam a importância do papel da imprensa. Afinal, o crime organizado aumentou explosivamente seu lucro no mundo, o homicídio tornou-se banal e o suicídio foi transformado em arma. Na abordagem desses fatos, a imprensa mundial vem sendo criticada por colocar a informação em segundo plano, enquanto supervaloriza a opinião. Opinião voltada quase sempre para a defesa de interesses de grupos políticos e econômicos, e que substitui a informação como serviço. Porque o direito à informação figura em nosso tempo como uma das instituições mais lesadas pela banalidade do mal, este livro se torna leitura obrigatória’.

‘Ewaldo Dantas Ferreira nasceu em Catanduva (SP) em 1926. Fez carreira internacional como repórter. Presidiu, em 1961, a única greve plenamente vitoriosa da imprensa brasileira, conquistando o piso salarial para a categoria, condição depois estendida a outras profissões. Nas relações com a censura do governo militar, foi o primeiro atingido e o último a ser liberado. Dirigiu os primeiros jornais da televisão brasileira, inclusive o Repórter Esso. A serviço dos principais veículos de comunicação do país, cobriu grandes acontecimentos do nosso tempo. É também professor de jornalismo. O depoimento do SS Klaus Altmann=Barbie ao repórter Ewaldo Dantas Ferreira teve repercussão em todo o mundo e foi saudado por personalidades brasileiras como uma reportagem de grande valor jornalístico e literário’.

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