Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ENTRE ASPAS > OI NA TV: ELEIÇÕES

A televisão e o voto

Por Lilia Diniz em 20/08/2010 na edição 603

Foi dada a largada para a disputa midiática entre os candidatos para os cargos de deputado estadual e federal, senador, governador e presidente da República nas eleições 2010. Está no ar, desde terça-feira (17/9), o eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Independentemente do tempo reservado para cada um dos cerca de 20 mil candidatos – que pode variar de 12 minutos a 30 segundos – está em jogo a atenção do eleitor. Criado em 1962, o horário gratuito é considerado ‘chato’ por grande parte da população, mas ainda é a forma pela qual a maioria dos brasileiros decide o voto.


Durante cerca de dois meses, é ele que abastece as conversas entre os eleitores em família, nas ruas e no trabalho. Além dos dois blocos apresentados pela manhã e à noite, pequenas inserções de trinta segundos, os chamdos spots, são exibidos ao longo da programação. Entrevistas em telejornais e debates e promovidos por emissoras de televisão também esquentam o período eleitoral. O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (17) pela TV Brasil discutiu o papel decisivo da televisão nas eleições.


Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o cientista social Renato Lessa, professor titular de Teoria Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente do Instituto Ciência Hoje, e a jornalista e cientista política Alessandra Aldé . Pesquisadora da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos, Alessandra estuda temas relacionados à Comunicação Política. Em São Paulo, o convidado foi Eugênio Bucci, jornalista e professor-doutor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Bucci é colunista do jornal O Estado de S. Paulo e do site Observatório da Imprensa. Foi presidente da Radiobrás e conselheiro da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura.


Antes do debate no estúdio, na coluna ‘A mídia na semana’ Dines criticou a cobertura de recentes catástrofes em países como Rússia e China. Para o jornalista, os fenômenos não deveriam ser classificados de ‘naturais’ porque são consequência da destruição da natureza promovida pelo homem. Em seguida, Dines analisou a postura da imprensa sobre o caso da iraniana Sakineh Ashtiani.


TV vs. internet


Ainda antes do debate no estúdio, em editorial, Dines avaliou que a penetração da TV nos lares brasileiros é imbatível. ‘O Brasil é essencialmente televisivo. Jornais, revistas, cinema e rádio sempre tiveram grande aceitação e poder de influência, mas o formato TV, a sagrada rotina dos telejornais noturnos, a continuidade das telenovelas estabeleceram um poderoso paradigma de dramaturgia dificilmente substituível’, disse. Para Dines, o inovador uso da internet nas eleições que colocaram o presidente Barack Obama na Casa Branca não se repetirá no Brasil. Diferentemente dos Estados Unidos, onde a rede foi usada de forma intensa, inclusive para arrecadar fundos para as campanhas, os brasileiros usam a internet para apenas para ‘fazer barulho’.


Em seguida o Observatório exibiu uma reportagem na qual Marcus Figueiredo, professor visitante de Ciências Políticas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), comparou o uso das mídias eletrônicas no Brasil e nos Estados Unidos. ‘O grande público brasileiro está acostumado com o horário [político gratuito] na televisão Este grande público não é usuário da internet de modo que, em uma estimativa, eu diria que a propaganda por meio tradicional – televisão e rádio, no horário eleitoral e os spots – vão ter um peso de 90% em relação à internet’, avaliou.


No de debate ao vivo, Dines perguntou a Alessandra Aldé o porquê de a internet no Brasil, apesar de ser usada de forma massiva, não se firmar como uma formadora de opinião e geradora de empatias como a televisão. Alessandra atribuiu a constatação ao fato de o público brasileiro ser um telespectador ‘exigente e contumaz’, que está sempre com o aparelho de televisão ligado. Outro fator que contribui para o quadro é o alto padrão de qualidade alcançado pelos canais de TV e pela publicidade no Brasil. Desta forma, na visão de Alessandra, o horário eleitoral acaba se impondo no dia-a-dia da sociedade.


Na bancada do JN


Dines comentou o artigo ‘William Bonner para presidente?‘, publicado por Eugênio Bucci em O Estado de S.Paulo no domingo (15/08) – e reproduzido no Observatório online – sobre a série de entrevistas com os presidenciáveis Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva veiculada pelo Jornal Nacional, da TV Globo, entre os dias 9 e 11 de agosto. A atuação do editor e apresentador do JN, em certos momentos agressiva, levantou polêmica entre os eleitores. Bucci explicou que a brincadeira de propor a candidatura de Bonner teve a intenção de revelar uma espécie de hierarquia entre o jornalista e os candidatos.


‘O que nós vimos ali como linguagem cênica, como postura, como gesto, indica que os candidatos atendem a uma solicitação da autoridade mais alta, que é justamente quem apresenta o Jornal Nacional. É como se o apresentador estivesse falando de cima para baixo com eles’, criticou. Bucci ponderou que a situação não ocorre exclusivamente neste telejornal. O discurso da TV se impõe porque está é natureza do veículo. O fato ocorre, na visão de Bucci, porque o telejornal é considerado o ponto de encontro dos brasileiros consigo mesmos. A idéia de que a leitura do jornal pela manhã é a oração do homem moderno foi substituída. ‘O encontro do país no Jornal Nacional era e ainda é o momento em que a nação se passa a limpo’, disse. O apresentador acaba representando a pergunta dos cidadãos.


Renato Lessa comentou que o alcance da televisão no Brasil é muito superior ao de serviços básicos como esgoto e calçamento de ruas. É praticamente universal. ‘Euclides da Cunha dizia que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. O brasileiro é, antes de tudo, um telespectador’, disse. O cientista social concorda com a análise de Bucci sobre o JN e acrescentou que a televisão configura fatos, estabelece entre eles narrativas de causalidades e as apresenta para a população como se fossem a representação fiel da realidade. ‘Isto é um sobrepoder extraordinário’, sublinhou.


De cima para baixo


Com a imposição da televisão como representante genuína do povo, cria-se uma profunda distorção política. Lessa destacou que os representantes são, na realidade, os que estão legitimados, transitando no ambiente político. No entanto, há uma autoridade ‘metapolítica’, ‘sobrepolítica’, à qual todos têm que ‘prestar uma certa reverência’. ‘Há um operador de diminuição nesta relação que é uma maneira de propor a televisão como o espaço fundamental da sociedade brasileira, como se política fosse uma coisa menor’, explicou. Para Lessa, a mídia eletrônica não cumpre o papel de auxiliar na criação de uma consciência cívica. O lugar que a política ocupa é ínfimo e engessado. Neste contexto, a televisão aparece mais como um poder e não como um serviço.


Outro ponto discutido no Observatório foi a configuração do horário eleitoral. Dines questionou se poderia haver alguma reformulação que impedisse disparidades de tempo e destacou que a propaganda gratuita na TV traz para o processo político os eleitores do ‘Brasil profundo’. Alessandra Aldé avaliou que o início do horário reservado aos candidatos é o elemento de maior impacto na definição do voto do brasileiro. É o que marca o começo do ‘tempo para a política’ do cidadão, quando a sociedade passa a se interessar pelo processo eleitoral.


Alessandra ponderou que apesar das críticas sobre a desigualdade de tempo de exposição entre os candidatos, o formato brasileiro é reconhecido internacionalmente como democrático. No Brasil, qualquer partido tem acesso ao horário eleitoral, mesmo que não tenha representantes eleitos. A cientista política explicou que nos Estados Unidos o tempo na televisão é pago pelos partidos políticos ou por quem os apoia, o que cria uma dependência maior do financiamento privado de campanha. ‘O horário eleitoral, de maneira geral, é um elemento de democracia para a comunicação eleitoral brasileira’, assegurou.


Quem paga a conta?


Para Renato Lessa, é preciso observar a representatividade dos partidos para dividir o tempo de exposição gratuita na televisão e no rádio, mas este fator não pode criar dificuldades para que grupos políticos menores alcancem representatividade através do próprio processo eleitoral. O pluralismo e a competitividade política têm que ser mantidos. Nesta eleição, por exemplo, a forma de calcular o tempo dos candidatos a presidente contribuiu para a polarização entre dois candidatos.


Eugênio Bucci chamou a atenção para o fato de que o horário eleitoral não é gratuito. ‘Ele é gratuito para os partidos, mas o cidadão paga na forma de renúncia fiscal ou de abatimento no Imposto de Renda das emissoras’, explicou. Bucci disse os canais de TV e emissoras de rádio são ressarcidos, no imposto de renda a pagar, com cerca de 850 milhões de reais pelo o que deixaram de receber com publicidade no período em que o horário eleitoral é veiculado. ‘A sociedade paga esta fortuna’, disse.


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As eleições na TV


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 559, exibido em 17/8/2010 


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. A televisão fez hoje [terça, 17/8] a rentrée na campanha eleitoral, uma semana depois da série de entrevistas dos três principais presidenciáveis na bancada do Jornal Nacional. Há 15 dias, a Band fez o primeiro debate entre os quatro candidatos mais bem colocados e, apesar da baixíssima audiência, teve o mérito de exibir o seu tremendo potencial como fabricante de empatias.


O Brasil é essencialmente televisivo. Jornais, revistas, cinema e rádio sempre tiveram grande aceitação e poder de influência, mas o formato TV, a sagrada rotina dos telejornais noturnos, a continuidade das telenovelas estabeleceram um poderoso paradigma de dramaturgia dificilmente substituível.


O sucesso da internet nas últimas eleições americanas aparentemente não se repetirá. As redes sociais também são fortes aqui – lembram do ‘Cala a Boca Galvão’ da Copa? – mas sua função é reverberar, fazer barulho e logo sair atrás de outro estouro. A TV humaniza, traz os personagens para a sala de jantar, sejam atores, jornalistas ou candidatos, e isto há algumas décadas.


Mais do que o comício digital da web, o palanque eletrônico da TV oferece muitas oportunidades aos jornais. É a sua chance de mostrar que não morreram. Antes disso terão que despertar da atual letargia.


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A mídia na semana


** As catástrofes na Rússia, China e Paquistão estão sendo erroneamente chamadas de naturais. Na verdade são antinaturais porque resultam das agressões do homem à natureza. Mas o aumento extraordinário do número de focos de incêndio no Brasil, este sim, é claramente obra do agricultor-predador que neste ano já incendiou 15 mil pontos em todo o território nacional, com predominância no Centro-Oeste e na Amazônia. A mídia noticia, não denuncia. O cidadão não se abala, acostumou-se, já viu este filme. Mas este filme pode trazer surpresas.


** É ridícula a resposta do presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, ao oferecimento do governo brasileiro para receber Sakineh Ashtiani ameaçada de ser executada por apedrejamento. Disse o líder iraniano: ‘Não queremos criar problemas para o presidente Lula’. Nossa mídia engole tudo, só reage quando já não há o que fazer. O presidente do Brasil tem mandato para atender aos desejos dos brasileiros: livrar a iraniana da morte e trazê-la para o Brasil será um trunfo político para o governo e motivo de enorme alegria para todos nós. A mídia não sabe dizer isso, não sabe ser candente. A não ser quando se trata da venda do Neymar para o Chelsea.

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