Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > 11 DE SETEMBRO, 10 ANOS

A transformação da notícia no tempo

Por Marcelo Csettkey em 19/09/2011 na edição 660

A fragilidade do argumento de renomados jornalistas e acadêmicos é estarrecedora. Após dez anos dos atentados de 11 de Setembro continuam a dizer que os integrantes do governo Bush – e ele próprio – não perceberam que a Al Qaida estava em guerra com os EUA e que os EUA ainda não tinham se preparado para essa ameaça.

Esse argumento é facilmente desmontado por três contraposições: a primeira está relacionada ao governo anterior, de Bill Clinton. Clinton estava ciente da periculosidade da Al Qaida. Provavelmente por esse motivo – segundo os jornais New York Times e Washington Post –, Bush impediu que fossem entregues aos investigadores da Comissão Bipartidária do Senado documentos que, muito provavelmente, confirmariam o foco de Clinton na Al Qaida de Bin Laden. De 11 mil páginas, quase 70% passaram a ficar inacessíveis por determinação do Executivo.

O chefe de todos os responsáveis pela proteção do país em se tratando de contraterrorismo nos EUA, Richard Clark, avisara: “A Al Qaida é uma conspiração política maquiada de seita religiosa. Ela comete o assassinato de inocentes para chamar atenção. Seu objetivo é uma teocracia à moda do século 14” (Richard Clarke, Contra todos os inimigos, pg. 247).

O diretor da CIA, George Tenet alertou sobre a periculosidade de Bin Laden e da Al Qaida em fevereiro de 2001. A capa da revista Newsweek tinha como título: Terror Goes Global, exclusive Bin Laden´s international network. E a reportagem de capa anunciava:

“American counterterrorism experts have been hunting Osama bin Laden for years. They have spent millions of dollars, countless man-hours and considerable diplomatic capital in order to track down the mastermind blamed, indirectly or directly, for terrorist incidents ranging from last fall´s suicide attack on the USS Cole to the 1998 U.S. Embassy bombings in Africa. Last week CIA director George Tenet told the Senate Intelligence Committee that Bin Laden´s global terror network is `the most immediate and serious threat´ to U.S. national security” (Newsweek, 19/2/2001).

“O veneno oculto nas coisas que parecem boas”

O sistema, como está estabelecido, mantém sua estratégia aguardando uma nova oportunidade para implantar uma ideologia que acione – mesmo que por motivo falso – a opinião pública, e faça novamente uma guerra para ganhar dinheiro público – no caso recente da Guerra do Iraque estima-se que até agora foram gastos US$ 4 trilhões. Importante é fazer com que o cidadão americano seja mantido com medo. O medo faz a massa apoiar cegamente medidas beligerantes que passam a ser a “única alternativa”. O conceito pós-moderno intitulado “paradigma da cegueira”, de Thomas Kuhn, se materializa! Análises consolidadas e cristalizadas na consciência coletiva impedem que se enxergue com nitidez situações novas.

Muitos desses jornalistas, cientistas políticos e professores de relações internacionais realmente desconhecem a verdade dos fatos, poucos conhecem essa verdade, mas se omitem por receio de serem mal vistos por seus pares. O mundo segue sustentado por paradigmas falsos e caríssimos. O dinheiro que deveria ser usado para o progresso americano e mundial é desviado para os bolsos de insensatos que fazem uso de todos os recursos de propaganda para manter o status quo. Compram ações de empresas de comunicação, perseguem jornalistas que publicam notícias que vão de encontro ao que desejam, determinam o foco cinematográfico que manipula a população com filmes de guerra: “Dezenas de altos executivos do setor de cinema e televisão planejam reunir-se domingo de manhã com Karl Rove, conselheiro do alto escalão da Casa Branca, para discutir o que Hollywood pode fazer para ajudar no esforço de guerra” (O Estado de S.Paulo, 9/11/2001).

E desta forma constroem uma ideologia enxertada nas mentes, que toma forma de um espectro coletivo, uma espécie de egrégora que aprisiona a humanidade num círculo vicioso. As evidências são asfixiadas por falácias repetidas à exaustão. Consequentemente, o povo passa a apoiar medidas que representam sua própria desgraça a médio e longo prazo. “A pouca prudência dos homens não os faz perceber o veneno oculto nas coisas que lhes parecem boas a princípio” (Maquiavel).

***

[Marcelo Csettkey é jornalista]

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