Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

A TV faz o que bem entende. E nós?

Por Geovani Siqueira em 23/09/2008 na edição 504

É bem verdade que, apesar de ter sido inventada bem antes, foi somente no período pós-guerra que a televisão passou a se tornar um veículo cada vez mais obrigatório nos lares brasileiros. Aliás, para ser mais preciso cronologicamente, somente após a década de 1950.

Desde então, não foi somente o tamanho do aparelho de televisão que mudou. Estudiosos da comunicação, psicólogos, pedagogos, economistas e um sem-número de profissionais de diversas áreas do conhecimento têm se aventurado em análises sobre o impacto desse alto-falante geral da sociedade [a expressão foi utilizada por Ciro Marcondes Filho, em seu livro Sociedade Tecnológica, para se referir aos meios de comunicação e o modo como atuam no sentido de atestar a existência ou não existência dos acontecimentos].

Quase sempre as observações beiram a dicotomia apresentada há décadas por Umberto Eco [ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 1976; ver aqui]. Vivemos em uma sociedade onde os meios de comunicação ocupam importante papel na vida das pessoas. Exatamente por isso, entendo que qualquer análise mais aprofundada não pode resvalar em posturas maniqueístas sob o julgo de ‘bom’ ou ‘mal’.

Telenovela, a maior atenção

No que concerne à televisão – tida por Marilena Chauí, como meio de comunicação, juntamente como rádio, que mais apresenta características da indústria cultural – sua grade é estruturada com programas que se pretendem informativos e fontes de entretenimento. Nesse ‘pacote’, podem ser incluídos desde o telejornal até o programa de entrevistas no fim da noite, passando, claro, pela programação infantil (?) e as competições esportivas.

A atenção dedicada à televisão se faz necessária em face de ser esse eletrodoméstico o principal meio de comunicação e informação da população brasileira. Do alto de um apartamento na cobertura de um edifício, ou mesmo em casebres com pouco ou nenhum conforto, a televisão resiste impávida e distribuindo conceitos e referências à audiência.

Talvez de toda programação televisiva, aquela que encontra maior atenção do espectador é a telenovela. Para se ter idéia, a estréia da novela global Três Irmãs na segunda-feira (15/9) no horário das 19h registrou 32 pontos, com 49% das TVs ligadas sintonizadas no canal, segundo dados do Ibope divulgados pela Rede Globo. Cada ponto no Ibope equivale a cerca de 55,5 mil domicílios na Grande São Paulo [ver aqui].

Custa acreditar que somos esponjas

Até nas cidades – e estas são maioria – onde não há medição de audiência por parte de nenhum instituto, é possível assimilar a preferência pela telenovela. Basta prestar um pouco de atenção no vocabulário ‘retirado’ daquela personagem, no cabelo cortado à última moda ou mesmo nos acessórios do vestuário utilizados pela atriz principal. Uma intimidade com os atores e estórias nunca visto, mesmo quando o cinema viveu seus tempos áureos no Brasil.

Não se pode negar que a telenovela, pela importância que ocupa no imaginário da audiência, tem um potencial significativo como formador de conceitos e indutor de comportamentos. É fato que algumas temáticas apresentadas, inclusive, parecem deslocadas quando se leva em consideração a audiência infanto-juvenil.

Porém, é preciso reconhecer que a televisão não é o único manancial de estereótipo, preconceito e bizarrices que povoa o imaginário coletivo. Em que pese seu poder de alto-falante, é preciso a adoção de práticas que fujam do ‘aplauso’ e da ‘crítica’. Custa acreditar que todos somos como esponjas, a absorver o conteúdo veiculado pelas telenovelas sem qualquer análise mais criteriosa.

Uma nova postura

Parece simplista demais o discurso de que as telenovelas promovem um estágio de letargia total onde os espectadores emburrecem e são transformados em figurantes de uma narrativa imaginária. Claro, os enredos onde personagens brigam por heranças, se casam e enfrentam artimanhas de um antagonista parecem repetitivos. Entretanto, partir dessa percepção para a acusação de que ‘o mundo criado vem pronto’, é desconsiderar o papel do espectador. Ou, no mínimo, desconsiderar que esse espectador tem um papel que deve ir além da recepção passiva.

É preciso que ações como discutir o conteúdo das telenovelas, sem qualquer viés autoritário ou censurador, sejam práticas cada vez mais constantes. Essa postura passa por atitudes menos maniqueístas. Dá trabalho, é verdade. Exige uma nova forma de se relacionar com o conteúdo. Exige buscar outras fontes de informações, abrir-se ao diálogo, ao contraditório, debater, compreender, escrever, produzir. Exige uma nova postura, inclusive de pais e educadores, diante das mensagens e cenários televisivos.

Em sendo verdade que a televisão faz o que quer, urge refletir sobre o uso que nós fazemos da televisão. Eis a provocação.

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Jornalista, Petrolina, PE

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