Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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ENTRE ASPAS >

A universalização do ‘informe publicitário’

Por Alberto Dines em 19/08/2008 na edição 499

O primeiro dia do 7º Congresso Brasileiro de Jornais foi um gigantesco faz-de-conta. A mídia engana-se, se auto-engana, acredita no que veicula. Intoxica-se com placebos [ver ‘Jornais, o passado e o futuro‘].


A cobertura do evento mostrada pelo Jornal Nacional (segunda, 18/8) revela uma instituição fragmentada, à beira da esquizofrenia: reclama privilégios como uma indústria, mas desfralda a bandeira da liberdade de expressão como se fosse um poder ameaçado.


Por outro lado, uma visita aos comentários postados neste Observatório da Imprensa a respeito do texto ‘A imprensa de Dantas‘ mostra o outro lado dessa ilusão: leitores empolgados apenas com a refrega.


Não se trata de fascínio pelo bom combate, mas pela possibilidade de dar um tranco em alguém. Inclusive nos demais leitores que entraram na liça com outros propósitos. A celebrada sociedade cordial mostra quão reduzido é o seu pavio.


Pop-up impresso


Tudo muito instrutivo. Chamou a atenção deste observador um comentário a seu respeito (embora jamais tenha se pronunciado sobre o lodaçal revelado pela Operação Satiagraha, onde tantos, sob os mais diferentes pretextos, estão enfiados até o pescoço). Reclamava o ilustre cidadão que, diante de uma questão de tamanha transcendência como o Caso Dantas, este observador preocupava-se apenas com a questão insignificante dos ‘Informes Publicitários’ [ver ‘Jornalismo de mentirinha, publicidade de verdade‘ e ‘Aspargos em Marte, promiscuidade na Terra‘].


A questão dos ‘Informes Publicitários’ e do seu mais perigoso subproduto, os ‘Projetos Especiais’, é central na chamada ‘indústria jornalística’. O projeto de acabar com a distinção entre informação jornalística e informação comercial está na pauta dos futurólogos, mercadólogos, publicitólogos e consultólogos que se ocupam de desenhar a chamada re-construção do jornal para a Era Digital.


Para eles, a publicidade de amanhã deve romper os atuais formatos e convenções visuais. Querem enfiar suas mensagens (como aquela esfera verde-vômito que está aparecendo em toda a mídia) em qualquer canto, até em santuários como o da primeira página. Breve tomarão de assalto a página de opinião, para alegria geral.


O sonho desses ilusionistas é encontrar o equivalente impresso do pop-up da mídia digital que se impõe e sobrepõe às informações jornalísticas e só desaparece quando o desgraçado leitor afinal encontra o sinalzinho para fechá-lo.


Perigo real


‘Informes Publicitários’ e ‘Projetos Especiais’ estão na raiz da contenda entre as diversas facções que se digladiam debaixo da retranca ‘DD, Daniel Dantas’. Parte considerável desta militância ou telemilitância (contra ou a favor do Midas que converte tudo em matéria marrom) está querendo faturar alguns trocados à custa das suas informações e veemências. Não seria isto um gigantesco e subliminal ‘informe publicitário’?


O antigo ‘jornalismo de serviços’ que antes estava rigidamente circunscrito às revistas, principalmente femininas, irrompeu em todos os recantos. O serviço – informação de utilidade – universalizou-se: domina o show business, cadernos especializados, colunas mundanas e nem-tão-mundanas. O setor dos ‘projetos especiais’, terra de ninguém criada no lugar das divisórias que separavam as redações dos departamentos de publicidade, hoje dispõe de uma tropa de elite, altamente especializada, capaz de confundir o mais atento leitor.


Estamos nos aproximando velozmente do momento em que a mídia impressa vai servir apenas como pretexto para imprimir anúncios, semi-anúncios e semi-notícias.


Este é um perigo real. Qualquer que seja o nome que se adote para designar o fenômeno. Qualquer que seja o escândalo que esteja em cartaz.


***


Boas-vindas à rádio CBN, que começou a apresentar às segundas-feiras (das 19h às 20 h) o programa Notícia em Foco. Com a ancoragem do experiente Renato Machado e a participação de Marisa Tavares, diretora de jornalismo da rede, dá-se um passo mais importante para o jornalismo do que o congresso de jornais. Serve ao ouvinte, serve à sociedade. Não é um programa de crítica da mídia, é uma conversa inteligente sobre os assuntos que estão na pauta jornalística. Conviria imitar.

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