Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

A velha mídia finge que o país não mudou

Por Venício A. de Lima em 16/07/2010 na edição 598

Apesar de não haver consenso entre aqueles que estudaram o processo eleitoral de 1989 – as primeiras eleições diretas para presidente da República depois dos longos anos de regime autoritário –, é inegável que a grande mídia, sobretudo a televisão, desempenhou um papel por muitos considerado decisivo na eleição de Fernando Collor de Mello. O jovem e, até então, desconhecido governador de Alagoas emergiu no cenário político nacional como o ‘caçador de marajás’ e contou com o apoio explícito, sobretudo, da Editora Abril e das Organizações Globo.


No final da década de 80 do século passado, o poder da grande mídia na construção daquilo que chamei de CR-P, cenário de representação da política, era formidável. A mídia tinha condições de construir um ‘cenário’ – no jornalismo e no entretenimento – onde a política e os políticos eram representados e qualquer candidato que não se ajustasse ao CR-P dominante corria grande risco de perder as eleições. Existiam, por óbvio, CR-Ps alternativos, mas as condições de competição no ‘mercado’ das representações simbólicas eram totalmente assimétricas.


Foi o que ocorreu, primeiro com Brizola e, depois, com Lula. Collor, ao contrário, foi ele próprio se tornando uma figura pública e projetando uma imagem nacional ‘ajustada’ ao CR-P dominante que, por sua vez, era construído na grande mídia paralelamente a uma maciça e inteligente campanha de marketing político, com o objetivo de garantir sua vitória eleitoral [cf. Mídia: teoria e política, Perseu Abramo, 2ª. edição, 1ª. reimpressão, 2007].


2010 não é 1989


Em 2010 o país é outro, os níveis de escolaridade e renda da população são outros e, sobretudo, cerca de 65 milhões de brasileiros têm acesso à internet. A grande mídia, claro, continua a construir seu CR-P, mas ele não tem mais a dominância que alcançava 20 anos atrás. Hoje existe uma incipiente, mas sólida, mídia alternativa que se expressa, não só, mas sobretudo, na internet. E – mais importante – o eleitor brasileiro de 2010 é muito diferente daquele de 1989, que buscava informação política quase que exclusivamente na televisão.


Apesar de tudo isso, a velha mídia finge que o país não mudou.


O CR-P do pós-Lula


Instigante artigo publicado na Carta Maior por João Sicsú, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do IPEA e professor do Instituto de Economia da UFRJ, embora não seja este seu principal foco, chama a atenção para a tentativa da grande mídia de construir, no processo eleitoral de 2010, um CR-P que pode ser chamado de ‘pós-Lula’.


Ele parte da constatação de que dois projetos para o Brasil estiveram em disputa nos últimos 20 anos: o estagnacionista, que acentuou vulnerabilidades sociais e econômicas, aplicado no período 1995-2002, e o desenvolvimentista redistributivista, em andamento. Segundo Sicsú, há líderes, aliados e bases sociais que expressam essa disputa. ‘De um lado, estão o presidente Lula, o PT, o PC do B, alguns outros partidos políticos, intelectuais e os movimentos sociais. Do outro, estão o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), o PSDB, o DEM, o PPS, o PV, organismos multilaterais (o Banco Mundial e o FMI), divulgadores midiáticos de opiniões conservadoras e quase toda a mídia dirigida por megacorporações’.


O que está em disputa nas eleições deste ano, portanto, são projetos já testados, que significam continuidade ou mudança. Este seria o verdadeiro CR-P da disputa eleitoral para presidente da República.


A grande mídia, no entanto, tenta construir um CR-P do ‘pós-Lula’. Nele, ‘o que estaria aberto para a escolha seria apenas o nome do ‘administrador do condomínio Brasil’. Seria como se o ‘ônibus Brasil’ tivesse trajeto conhecido, mas seria preciso saber apenas quem seria o melhor, mais eficiente, ‘motorista’. No CR-P pós-Lula, o presidente Lula governou, acertou e errou. Mas o mais importante seria que o governo acabou e o presidente Lula não é candidato. Agora, estaríamos caminhando para uma nova fase em que não há sentido estabelecer comparações e posições (…); não caberia avaliar o governo Lula comparando-o com os seus antecessores e, também, nenhum candidato deveria (ser de) oposição ou situação (…); projetos aplicados e testados se tornam abstrações e o suposto preparo dos candidatos para ocupar o cargo de presidente se transforma em critério objetivo’.


Sicsú comenta que a tentativa da grande mídia de construir esse CR-P se revela, dentre outras, na maneira como os principais candidatos à Presidência são tratados na cobertura política. Diz ele: ‘a candidata Dilma é apresentada como: ‘a ex-ministra Dilma Rousseff, candidata à Presidência’. Ou ‘a candidata do PT Dilma Rousseff’. Jamais (…) Dilma (é apresentada) como a candidata do governo (…)’. Por outro lado, ‘Serra e Marina não são apresentados como candidatos da oposição, mas sim como candidatos dos seus respectivos partidos políticos. Curioso é que esses mesmos veículos de comunicação, quando tratam, por exemplo, das eleições na Colômbia, se referem a candidatos do governo e da oposição’.


Novos tempos


Muita água ainda vai rolar antes do dia das eleições. Sempre haverá uma importante margem de imprevisibilidade em qualquer processo eleitoral. Se levarmos em conta, no entanto, o que aconteceu nas eleições de 2006, o poder que a grande mídia tradicional tem hoje de construir um CR-P dominante não chega nem perto daquele que teve há 20 anos. E, claro, um tal CR-P não significaria a eleição garantida de nenhum candidato (a).


O país realmente mudou. A velha mídia, todavia, insiste em ‘fazer de conta’ que tudo continua como antes e seu poder permanece o mesmo de 1989. Aparentemente, ainda não se convenceu de que os tempos são outros.

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Professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher,2010.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/07/2010 Israel Carneiro

    As eleições se aproximam e a cada dia o PIG se desespera na sua eterna caça de acusações.A nova edição da Veja ‘caprichou’ nas reportagens contra o digníssimo presidente e sua mascote.A bola da vez é que Lula ‘zomba’ das leis e umas fitas que provam algumas mentiras de Dilma.Agora se pergunta:até quando a mídia vai insistir nisso?Ainda se insiste em dar murro em ponta de faca.Pior que ainda se almeja piedosamente em uma tal ‘liberdade de expressão’.A liberdade já passou do ponto.Agora precisamos é de qualidade de expressão.

  2. Comentou em 19/07/2010 eugenio fonseca

    O Marcelo continua o mesmo, agride argumentando fracamente, (quando argumenta). Desfazer, seria anular: delvolver o que foi pago e pegar o patrimônio novamente. Fechou o circuito agora? Não foi feito por cumplicidade num crime ou por omissão ou porque viram que foram corretas! E quanto às demais ‘mudanças’ nenhuma palavrinha? Sabe porque não? Por que não mudou! O FMI agora é aliado. Manter superavit primário é essencial (agora, na época do FHC era indecente). Os juros não podem cair abruptamente (hoje, porque na época do FHC era uma obrigação que o governo não cumpria). O mensalão não existiu. O desrespeito a lei eleitoral também não. O PT não simpatiza com ditadores…

  3. Comentou em 19/07/2010 Arnaldo Costa

    Só posso dizer: Perfeito, meus parabéns pelo artigo. Apesar de já estar ciente de parte do que foi dito, o texto é bem elucidativo e novas informações interessantes foram acrescentadas. Além disso, fica bem clara a forma como a mídia atuou e ainda continua influenciando no processo político, de maneira bastante tendenciosa e defendendo interesses individuais e ideais ultrapassados. Bem esclarecedor para os ainda desavisados. Esse é justamente um dos principais motivos pelo qual tanto a política, como parte dos meios de comunicação, não acompanharam a evolução da sociedade. Insistem no retrocesso. Agora, transmutados para as novas oligarquias, os novos coronéis e suas redes de interesses. Dessa forma, a imprensa presta um desserviço ao país, impedindo que caminhemos para uma sociedade mais desenvolvida, justa e igualitária. Mesmo com toda nossa história, cultura e formação diferentes, ainda acredito que possamos nos espelhar e organizarmos do modo de países como a Holanda, Suécia e outros. Não é possível que as organizações que podem influenciar de forma significativa no país, continuem insistindo em manter o “status quo” e contribuindo para a nossa estagnação ou retrocesso.

  4. Comentou em 19/07/2010 Marcelo Ramos

    Tudo bem, camarada, eu sei que a gente mora num país de futebol. Você pode fazer suas tabelinhas solitárias com seu novo companheiro de cantilena. Mas é tudo tão sem sentido e patético que ninguém vai ter paciência de vir somar 2+2 pra vocês, né?. Mas vou dar uma palhinha: as privatizações não foram desfeitas porque (dãh) as empresas foram vendidas muito abaixo do preço de mercado, mas pra comprar de volta, o governo teria que comprar pelo preço de mercado, ou seja, premiaria os compradores duas vezes. Conseguiu fechar o circutio? Só pessoas que não raciocinam concebem argumentos tal ‘brilhantismo’ pra acusar o Lula/governo/PT. Querem acusar, façam pelos erros que ele merece ser criticado, mas apresentem algo melhor.

  5. Comentou em 18/07/2010 Boris Dunas

    Prezado Eugenio, é isso aí! Em outras palavras você descreveu porque a petelhada arranca as calças e pisa em cima, babando de revolta com o PIG. As ações e as deliberações petistas são tão imorais, ilegais e asquerosas que a simples descrição das mesmas pelos jornais do PIG (sim, c/ G de Governista!) já é insuportável e já soa como ofensa ou golpe. É como descrever, por exemplo, o processo do apodrecimento: não há forma “bonita ou poética” possível. Daí que apenas isso baste para que eles já fiquem loucos.

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