Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

A verdade no jornalismo

Por Valdeck Almeida de Jesus em 15/01/2008 na edição 468

Conhecimento é poder. Quem detém o conhecimento, detém o domínio do mundo, em todos os sentidos.

O jornalismo é uma ciência e como tal tem seus métodos. A verdade está impregnada pelas experiências de vida, atrelada aos interesses de quem é proprietário do veículo de comunicação.

No período mítico, o mundo era explicado pelo poder do sobrenatural e do extraordinário. Era fácil dominar pela ameaça da ira dos deuses.

À medida que o conhecimento foi sendo socializado pelos métodos filosófico-científicos, iniciados por Tales de Mileto, o controle da ‘verdade’ foi passado para todos os homens.

Na Idade Média, a Igreja tentou e conseguiu, em parte, levar o domínio da verdade para dentro de seus corredores, onde estavam os monges estudiosos. Deus passou a centralizar o medo de se discutir ‘verdades’ que somente a Ele eram permitidas. A fé passou a ser o guia, o modelo, o parâmetro. Bastava crer sem contestar. Aquilo que não era compreendido, ou que não ‘devia’ ser questionado, era considerado ‘mistério de Deus’. Aos homens comuns restava aceitar a verdade, que só era revelada para alguns ‘escolhidos’.

Formas de interpretar o mundo

A filosofia sempre foi e continua sendo um perigo para os detentores da verdade (poder). Tanto esta afirmação é verdadeira que muitos pensadores foram perseguidos pela Inquisição.

Para Heráclito, o ‘ser é e não é’, o que leva o homem a questionar a vida. A filosofia desconstrói a explicação do mundo pelo mythus (ficção, imaginário, mentira) e coloca nas mãos – ou nas cabeças – de cada um a responsabilidade para com a forma de ver e interpretar o mundo.

Descartes questiona a tradição, o conhecimento, as crenças. Duvida da existência do mundo, do ‘eu’ e até de Deus. Inicia uma revolução no pensamento e na busca da verdade, sempre fugidia e sempre relativa. Lutero contesta o poder da Igreja e dá início à Reforma. A ‘verdade’ foge, é perseguida e o mundo toma novas feições, novos significados.

Encontrar a verdade absoluta é uma tarefa impossível, mas certamente as várias formas de se interpretar o mundo dão ao homem maior domínio sobre seu próprio (do homem) destino.

Questionar sempre, desconfiar sempre

John Locke e David Hume afirmam que os sentidos é que dão a razão. Kant junta as idéias de Locke, Humes e Descartes e conclui que a verdade não é possível de ser atingida.

A busca pela verdade, como se vê, é uma luta insana, interminável. Cada homem possui uma forma peculiar de enxergar o mundo. A visão que o jornalista tem da realidade é impregnada de subjetividade e sofre influência de suas experiências pessoais, sua crenças, filosofia de vida etc.

A fenomenologia explica que não há um lugar no homem (consciência) que vai até o mundo. Antes, o mundo atinge o homem. Uma atitude do homem diante da realidade torna essa mesma realidade (verdade) subjetiva e passível de contestação.

Qual a saída? Como atingir a verdade? Não há saída. A verdade absoluta será sempre uma utopia. A verdade pode ser ‘verdadeira’ durante um tempo, num espaço geográfico, mas poderá se transformar em outra ‘verdade’ em tempo e espaço diferentes. O poder econômico pode determinar qual é a faceta da realidade que será eleita à condição de ‘verdade’. Questionar sempre, desconfiar sempre, este é o método para continuar a vida.

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Estudante de Jornalismo, Salvador, BA

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PRIMEIRAS EDIçõES >

A verdade no jornalismo

Por lgarcia em 06/11/2002 na edição 197

DEVER DE CASA

Ricardo Wollmer (*)

Que aspecto tem o seu vaso?

Para tentar acabar com a briga dos dois irmãos, o pai, preocupado com a educação dos filhos, chamou-os à sala de jantar do apartamento para uma conversa. Colocou-os sentados na mesa grande de vidro, frente à frente. Era a pior posição para eles, pois teriam que olhar um nos olhos do outro, cara a cara.

Espertos, e bem bravos, os dois desviaram o olhar para baixo, vendo os detalhes das impressões digitais que a mesa concentrava. O pai, antes de começar o sermão, colocou um vaso vermelho em cima da mesa, separando os dois garotos. Perguntou ao primeiro: "O que você está vendo?" Ele respondeu que via um vaso vermelho, com aspecto arredondado, e flores brancas, de plástico, no topo.

O pai, então, fez a mesma pergunta ao filho mais velho, que respondeu dizendo que também via um vaso vermelho, mas com o desenho de uma orquídea no centro do objeto. Ao fim da frase, o patriarca da família Simões saiu da sala e retomou os afazeres no computador, deixando os filhos num vazio de pensamento. Logo após, eles entenderam o recado do pai, e também retomaram seus afazeres, agora menos rancorosos.

A lição apresentada pelo chefe dos Simões demonstra exatamente como o conceito de verdade deveria ser aplicado no jornalismo. É desta maneira, ouvindo os dois ou mais lados envolvidos no acontecimento a ser noticiado, que o jornalismo tem que apresentar as verdades aos interessados em informação.

E digo que são verdades ? no plural ? que precisam ser mostradas, porque são essas várias narrações sobre o mesmo fato, contadas a partir de pontos de vista semelhantes do acontecimento, mas diferentes em relação aos detalhes, que vão "se entrelaçar" e "se misturar" na narrativa final do repórter, que apontará claramente as versões que apurou. Desse modo, o receptor (leitor/ouvinte/internauta/telespectador) receberá as informações para tirar conclusões próprias. É deste modo que a liberdade de expressão e a democracia de visões têm que ser respeitadas.

Em certas matérias ou reportagens há como se ter certeza de que uma das fontes ouvidas pelo profissional não está contando exatamente a verdade. Nesses casos é que a "lei" que estabelece que "lugar de repórter é na rua" tem que ser cumprida com rigor. São casos simples, como uma reclamação de um morador contra a administração municipal: para o reclamante, o buraco que foi feito na rua da casa dela é enorme, "monstruoso". Quando o repórter vai checar a informação, in loco, vê que a situação não é tão ruim, que o buraco é pequeno e não prejudica tanto a pessoa.

Mas também pode ocorrer o inverso: e se houver uma cratera, em que duas crianças já se machucaram e uma idosa quebrou o pé? Como fica a consciência do repórter que, por preguiça ou imposição do chefe de redação, fez a matéria pelo telefone, apenas pegando os dados e redigindo a notícia com a resposta da prefeitura, sem checar mais profundamente? Pode ser que o material usado no asfalto seja de péssima qualidade e o secretário de Obras tenha fraudado a licitação. E aí? Fica apenas na conversa por telefone e na publicação de uma nota, sem foto?

Por razões como essas é que o repórter deve procurar incessantemente a verdade, mesmo que a tão aclamada verdade absoluta não exista. Mesmo que o mundo não possa se transformar num lugar melhor da noite para o dia ? como defendem vários colegas de profissão. Ainda assim é possível buscar as várias verdades para chegar a um denominador comum. Pelo menos apresentando ao leitor as possibilidades da verdade do fato tratado. É esta a função da profissão: informar, da melhor maneira possível. E até impossível, às vezes.

(*) Aluno do 4? semestre de Jornalismo do Isca Faculdades, em Limeira (SP)

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