Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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JORNAL DE DEBATES >

A versão da imprensa e o direito do autor

Por Alexander Goulart em 30/03/2004 na edição 270

A imprensa mundial foi quase unânime nas críticas à A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. O filme foi tachado de racista e excessivamente violento. A imprensa brasileira, na onda das agências de notícias e da mídia internacional, também desqualificou o filme, antes mesmo que houvesse sessões reservadas no Brasil. As críticas têm insistido no caráter violento e sanguinário do filme, uma análise muito superficial. Precisamos dar um passo adiante.

Só o fato de Mel Gibson ter bancado a produção do filme já merece elogios. Ele contrariou o modelo de produção dos grandes estúdios, apostou numa idéia e a tornou real sem abrir mão de seu ponto de vista. Gibson não se rendeu à suprema vontade de Hollywood. Sua aposta foi perigosa. Tudo poderia dar certo, como também errado. Para sua felicidade, o filme é recordista de bilheteria. Porém, enquanto o público se rende à obra, a crítica a detona.

Precisamos disso?

Cristãos e não-cristãos têm percepções diferentes diante da Paixão de Cristo. Para um cristão, trata-se do sofrimento do filho de Deus, da agonia daquele que é o caminho, a verdade e a vida. Já um não-cristão enxergará a flagelação de um homem, nada além de violência explícita. O caráter simbólico e a força emocional das imagens repercutem de formas diferenciadas. Para interpretar o filme, a fé professada é fundamental.

Todos sabemos que Jesus sofreu, apanhou, foi crucificado e ressuscitou. Mas nunca havíamos sido apresentados a tanto realismo como no filme. É chocante. Há muito sangue, muita dor e sofrimento. Eis a violência. Mas essa violência não é maior que aquela apresentada em filmes sobre guerras ou ficções futuristas. O poderoso chefão é mais violento. A diferença está no sofrimento. Estamos acostumados a ver um homem ser metralhado, mas não o vemos sofrer e agonizar. O que incomoda na obra de Gibson é a exposição à dor. Não estamos acostumados a isso. No cinema, normalmente evitamos a exposição à dor com elipses, imagens subentendidas, o que não acontece em A Paixão de Cristo. Daí sua crueldade.

Poderíamos traçar um comparativo com a pena de morte. Sabemos que a cadeira elétrica existe e que pessoas nela são mortas. Mas nunca nos permitem assistir a tal execução na íntegra. Podemos ver o cadáver, mas não a agonia. O mesmo acontecia com a narrativa da Paixão de Cristo. Agora, vemos também a agonia. A pergunta que poderíamos fazer é: precisamos disso? Mel Gibson acha que sim, e tem todo o direito de assim pensar e mostrar na tela. A adesão ou não ao seu ponto de vista é dada pelo público.

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