Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > 11 DE SETEMBRO, 10 ANOS

A versão unidimensional

Por Marcelo Csettkey em 12/09/2011 na edição 659

“Presta atenção ao que explico e guarda-o na alma, pois não resulta em aprendizado aquilo que é ouvido e não guardado” (A Divina Comédia, Dante Alighieri, canto V: 19/Paraíso)

Divulgar versão unidimensional derivada de apenas uma fonte do poder, em flagrante distorção de fatos, é condenar o público a ser refém de uma cumplicidade fatal. O poder e as empresas de comunicação, ao negociarem a notícia, adulteram o sentido primeiro e único da apuração jornalística: imparcialidade na busca da verdade real.

O editor aumenta, reduz, suprime fatos: ele é o tradutor e “transformador” da realidade social em termos que interessam à sua empresa e às convicções políticas e ideológicas que defende. Em suas mãos está depositada a tarefa de trabalhar a opinião pública e procurar moldá-la segundo essas intenções. Há fatos que, por essa via, são totalmente suprimidos do noticiário, ou reduzidos em sua importância (Marcondes Filho, 1986: 50).

Tudo indica não ter havido sindicância

Esse é o grave problema da mídia corporativa na atualidade: versão simplista e/ou incompleta, ajustada para atender aos interesses do sistema, em detrimento do esclarecimento público. Aponto especificamente para o assunto que, durante quatro anos, foi objeto de apuração profunda, que resultou em um livro, Crime de Estado (divulgado aqui no Observatório), escrito com meu amigo, e também jornalista, Marcelo Gil. Continuei pesquisando, procurando ler tudo sobre o assunto e agreguei doutrina jurídica ao entendimento do fato. Consultei a Carta Magna de 1988 e a Constituição Americana. Li os grandes autores do Direito Penal priorizando os pontos que atendiam ao princípio da dupla tipicidade. Enfim, ampliei o quebra-cabeça iniciado em 11 de setembro de 2001. Pude, assim, visualizar de forma mais clara a engrenagem da provável leniência para que o atentado ocorresse. Tenho consciência de que, ao contestar a versão oficial, recebo o rótulo de teórico da conspiração. Contudo, caso não estivesse fundamentado em evidências claras e incontestes, não me atreveria a tal rompimento com essas passagens controversas da história contemporânea. Não por acaso, o aforismo de Eugène Ionesco é perfeito: “São os inimigos da História que acabam por fazê-la.” Entendo ser positiva uma legítima demanda por transparência. Nada melhor que o contraditório para oxigenar as vias da informação.

É impressionante a aceitação sem ressalvas da versão oficial sobre o incidente – as pessoas não conseguem captar o óbvio explicitado pelos fatos –, como dizia Nelson Rodrigues, o “óbvio ululante”. E pior, é esta versão reducionista que nos é passada como algo definitivo, incontestável. A verdade, em termos de informação de massa, fenece por falta de incentivo e, como consequência, prevalece uma aberração que é aceita sem questionamento. A mentira – com o selo oficial – penetra quase por “osmose” nas mentes fracas. Hitler, um mentiroso contumaz, dizia com propriedade: “A mentira gritada muitas vezes, bem alto, ganha, na opinião do povo, características de verdade.”

Receio, com pesar, que a verdade sobre o fato jamais seja aventada de uma forma ampla. A tragédia será explicada pela mídia como algo surpreendente, justificada por inação dos órgãos de inteligência, por falta de comunicação entre eles – alega-se isso há 10 anos! Mesmo que isso fosse verdade, agentes públicos da área de Segurança Nacional, ainda mais com esse grau de responsabilidade, não podem se dar ao luxo de negligenciar a troca de informações com seus pares. No caso, milhões de pessoas dependiam desse intercâmbio e milhares de vidas – como efeito direto dessa desídia – teriam sido perdidas por essa alegação pouco convincente. O curioso nisso tudo é que ninguém foi punido exemplarmente. Tudo indica não ter havido sindicância, muito menos processo administrativo disciplinar, para se encontrar a justa causa que anulasse a suposta prevaricação.

CIA e o FBI proibiram agentes de prestar depoimento

A culpa é atribuída ao sistema, e não ao indivíduo – o supervisor do FBI que bloqueara os agentes de campo de Phoenix e Mineápolis antes do atentado foi promovido! Não foi perguntado a ele qual o motivo para arquivar o memorando do agente Kenneth Williams no estado do Arizona, no mês de julho de 2001:

“O objetivo desta comunicação é alertar o bureau (Departamento antiterror em Washington) e Nova York da possibilidade de esforços coordenados de Usama bin Laden (UBL) de enviar estudantes aos Estados Unidos para frequentar escolas de aviação civil. Phoenix tem observado um número irregular de indivíduos de interesse investigativo” (ver aqui).

E, um mês depois, bloquear setenta vezes a chefe do escritório do FBI em Mineápolis, Coleen Rowley, e seu agente Harri Samit – que, inclusive, o acusa por “negligência criminosa” (ver aqui).

“Samit said in his testimony that he had warned his superior more than 70 times that Mossaoui was a terrorist and accused them of `criminal negligence´ in impeding his efforts(Washington Post, 22/3/2006).

Por que os bloqueou dolosamente, já que eram agentes do FBI, especialistas em terrorismo, tutelados pelo princípio de veracidade e dotados de fé pública!? Não havia dúvidas sobre sua sanidade mental, pois acionaria uma culpa in eligendo para quem o colocara em um posto com tamanha responsabilidade, irresponsavelmente. Ele – o supervisor do Departamento Antiterror – se enquadraria na imputação objetiva, pois seu ato administrativo, resultante de um desvio de finalidade, delituoso, provocara uma situação de risco iminente ao bem jurídico. Sua situação seria agravada sobremaneira pela exibilidade de conduta diversa, derivada de sua falta grave – comissiva por omissão –, ao negligenciar, de forma proposital, sua posição de garante, e seu dever jurídico de agir. Até porque, caso estivessem confirmados os pressupostos da responsabilidade subjetiva do agente, tipificados no nexo de causalidade – fato administrativo ligando o dolo ao dano –, acarretar-se-ia a obrigação de indenizar por parte do Estado, que teria a responsabilidade objetiva. E posteriormente o Estado se voltaria para o responsável pelo fato para obter parte do que fora obrigado a desembolsar indenizando a(s) vítima(s). Em se tratando do atentado de 11 de setembro… a indenização seria astronômica.

Sete companhias aéreas americanas, a empresa aeronáutica Boeing e duas administradoras aeroportuárias dos Estados Unidos entraram com processos na justiça de Nova York contra o FBI (polícia federal dos EUA) e a CIA (agência de inteligência), para exigir que os dois órgãos liberem agentes seus que investigaram os atentados de 11 de Setembro para testemunhar em processos sobre indenizações das famílias (…). A intenção das companhias com os processos é provar, com o auxílio do testemunho dos agentes, que não houve negligência de nenhuma empresa na manhã de 11 de setembro de 2001. Isso repassaria a responsabilidade das indenizações para os órgãos americanos (…). A CIA e o FBI proibiram todos os seus agentes envolvidos nas investigações dos atentados de prestarem depoimentos e de darem declarações à imprensa (O Globo, 9/8/2007).

Dívida pública de trilhões de dólares

O que se percebe é uma infinidade de recursos que visam a esconder a verdade sobre os fatos: obstrução à justiça, fraude processual, privilégio do Executivo, uso indevido do poder discricionário – ao classificar como ultrassecretos documentos incriminadores. Enfim, é muito difícil, eu diria quase impossível, denunciar um governante e iniciar o processo de impeachment – em se tratando de atentados supostamente orquestrados pelo poder corporativo infiltrado no Executivo. Um presidente comprometido com interesses escusos é apenas um boneco manipulado que obedece a determinações superiores. Lyndon Johnson, Nixon e George W. Bush se encaixariam facilmente nesse perfil – Kennedy, não! O presidente mais amado da América do Norte indignou-se e denunciou o sistema, expondo com clareza o funcionamento de toda essa engrenagem e, em paralelo, determinou a saída do Vietnã contrariando interesses bilionários da indústria armamentista (ver aqui).

O sistema não pode ficar nu. Essa exposição desencadearia uma sublevação popular sem precedentes que mudaria o curso da História. O povo, razão primeira e única do Estado Democrático de Direito, se descobriria um joguete nas mãos de insensatos e insensíveis, que usam o dinheiro público e o poder que lhes é outorgado para atender a interesses corporativos, em flagrante desvio de finalidade. Os responsáveis pelos negócios gerados por guerras, fundamentadas em mentiras, visam ao lucro, lucro corporativo apenas. Alguns “empresários”, fabricantes de armas, financiam campanhas políticas, colocam seus representantes em cargos importantes nos poderes Executivo e Legislativo, e também agregam intelligentsia para aumentar o convencimento público e criar falácias ideológicas.

O Reichpropaganderminister de Hitler, Joseph Paul Goebbels, se sentiria um iniciante na arte da enganação. Assim, de forma indireta, manipulam a política segundo suas conveniências. Tentam anular qualquer posicionamento contrário ao comprar o silêncio da imprensa. Até o momento em que a mentira começa a apodrecer e se tornar insuportável para a sociedade, com milhares de mortos e mutilados e um prejuízo financeiro incalculável – o dinheiro, literalmente, some! Assim fizeram no Sudeste Asiático (Vietnã), e agora no Oriente Médio (Iraque). A meta é alongar a guerra ao máximo para vender mais armamentos. A beligerância, na atualidade, é uma necessidade de mercado. Milhões de pessoas vivem em torno do complexo industrial-militar.

Muitos bilhões de dólares são necessários anualmente para satisfazer a “fome” dessa engrenagem que anseia pela guerra. A canalização irresponsável, e desnecessária, de centenas de bilhões de dólares em Defesa, dilacera projetos sociais e arruína as finanças, gerando um déficit astronômico e uma dívida pública de trilhões de dólares. Essa foi a marca da gestão Bush.

Ação delituosa institucional

O sentido primeiro do uso devido da verba orçamentária, oriunda dos impostos pagos pelos cidadãos, fica adulterado por uma discrepância que deve ser sempre denunciada. Eisenhower dizia que “as armas modernas tiram comida dos famintos”. Atualmente, eu diria que não apenas dos famintos, mas de todos nos Estados Unidos da América.

Os agentes políticos devem estar sob o manto imparcial da justiça; isso em qualquer lugar do mundo. A teoria da irresponsabilidade, há muito, não justifica ações arbitrárias baseadas na regis voluntas suprema lex. Contudo, na prática, vias escusas como as supracitadas ainda mantêm essa aberração – soma-se a isso, a síntese da natureza humana apresentada de forma brilhante pelo jurista Guilherme de Souza Nucci em seu livro O Valor da Confissão como meio de prova no processo penal (p.253): “Confessar a prática de um crime é ato contrário à natureza humana, visto que o homem, normalmente, busca ocultar o que faz de errado.”Pior se esse erro for também protegido pelo poder,“deixando em liberdade seus protegidos, apesar de todas as evidências do delito” (Cesare Beccaria, Dos Delitos e das Pena, p.26).

Obama colhe os frutos podres da árvore envenenada legada por Bush e mesmo assim resiste, tentando equilibrar as finanças dilapidadas por seu antecessor. Bush torrou U$ 3 trilhões – do contribuinte – em sua guerra fundamentada em premissas falsas… A humanidade sabe da má-fé… E diante desta constatação, nada acontece com ele, nada! Por que? Pelo mesmo motivo pelo qual a verdade sobre o atentado de 11 de setembro não pode ser apresentada: O establishment não quer! E mais, há um compromisso tácito entre os chefes do Executivo, nos EUA, de não denunciar o antecessor, em se tratando de suposto crime de responsabilidade. Isso se dá por um motivo lógico: a estabilidade do país é mais importante que a denúncia de uma organização criminosa que, porventura, esteja exercendo sua influência diretamente na Casa Branca. Configurar-se-ia, assim, uma ação delituosa institucional.

As pessoas jurídicas têm vontade, não somente por que têm existência real, não constituindo um mito, mas porque “elas fazem com que se reconheça, modernamente, sua vontade, não no sentido próprio que se atribui ao ser humano, resultante da própria existência natural, mas em um plano pragmático-sociológico, reconhecível socialmente. Essa perspectiva permite a criação de um conceito novo denominado ação delituosa institucional, ao lado das ações humanas individuais” (Sérgio Salomão Schecária, “Responsabilidade penal da pessoa jurídica”, p.148. Trecho extraído do livro Manual de Direito Penal, de Guilherme de Souza Nucci P. 199).

“Al Qaida planeja uma série de ataques”

Percebe-se uma mensagem subliminar: a de que nada poderia ter sido feito para impedir o “evento catastrófico”. O repórter, de forma compulsória ou até por apuração insuficiente, passa informações dúbias e até mesmo parciais – como está supramencionado. Como resultado inevitável, são produzidas conclusivas destoantes da realidade, que induzem o leitor ou telespectador a erro conceitual. É exatamente neste momento que uma antítese força uma revisão dos fatos. “Contra razão melhor, razão não luta” (A Divina Comédia, canto XX:1, Purgatório). Esse pensamento de Dante Alighieri traduz o motivo pelo qual o sistema tenta isolar o pensamento destoante que possa ameaçar o status quo.

Em consequência da abrangência que têm os meios de comunicação, toda voz que se contraponha ao pensamento unilateral é automaticamente alijada, isolada. Nietzsche dizia que “a filosofia é um exílio entre montanhas geladas”. Eu bem sei o que isso quer dizer.

Diante dessas constatações, o que fazer? A verdade é um legado irresistível do tempo. Por este motivo, registro aqui neste reduto de jornalismo honesto o que imagino ser a contextualização sobre o atentado de 11 de setembro.

O domínio do sistema não é tão absoluto. A realidade difere sobremaneira da ficção. “Apenas uma vez, em toda a sua vida, tinha tido em mãos prova documental inconfundível da falsificação de um fato histórico”, escreveu George Orwell em 1984. No mundo real, existem muitos – dentro do sistema – que lutam para que a verdade seja dita. Pessoas como Daniel Ellsberg – o ex-analista da Rand Corporation, integrante do grupo contratado por Robert McNamara, que vazou os “Papéis do Pentágono”, declarou: “A guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã foi uma conspiração do Estado, uma fraude.” A Suprema Corte negou o pedido de embargo feito por Nixon, que tentou bloquear a publicação dos “Papéis do Pentágono” no New York Times. “Os juízes decidiram, por 6 votos a 3, que a Constituição do país não permite censura prévia, mesmo quando há ameaça de danos à segurança nacional”(Dorrit Harazim, O Globo, 26/6/2011), o que se assemelha, na atualidade, à afirmação do diplomata Joseph Wilson demonstrando que Saddam não comprara urânio enriquecido no Níger, contrariando a junta Bush/Cheney; Richard Clarke denunciando que houvera alertado toda a cúpula do governo Bush com relação à periculosidade da Al Qaida de Osama bin Laden, bem antes do atentado ocorrer:

“Em janeiro de 2001, mandei um resumo dos fatos para cada um dos meus amigos e associados da primeira administração Bush, Condi Rice, Steve Hadley, Dick Cheney e Colin Powel. Minha mensagem era direta: a Al Qaida está em guerra conosco, é uma organização altamente capaz, provavelmente com `aparelhos´ nos EUA, e está claramente planejando uma série de grandes ataques contra nós” (Richard Clarke, Contra Todos os Inimigos, p. 255).

“Fatos não deixam de existir só porque são ignorados”

Sempre haverá conflito de interesses em se tratando de assuntos graves. A contextualização sobre o atentado de 11 de setembro não foge à regra. As revistas Time e Newsweek, logo após o atentado e no ano seguinte, tiveram seus jornalistas investigativos apurando de forma certeira os fatos ocorridos antes do atentado. Apresentaram reportagens fantásticas sobre a presença dos terroristas da Al Qaida nos EUA desde 2000. Porém, a combatividade foi arrefecendo, até que silenciaram diante dos tambores de guerra que a nação americana começou a bater, excitada com a Guerra ao Terror de Bush. A revista Time, inclusive, elegeu a heroína dos EUA, Coleen Rowley, “Personalidade do ano” em 2002. Tudo parecia fluir para o esclarecimento amplo. Então, diminuíram o tom! A revista Time, no ano seguinte, usou a mesma estrutura da capa de 2002 (posicionamento de três pessoas) e elegeu os soldados americanos como “Personalidade do Ano”, quase endossando o frenesi guerreiro de Bush.

Os Estados Unidos da América insensíveis e ultraconservadores dos neocons lutaram contra uma América democrática e libertária. As lutas internas foram intensas, nas repartições, nas redações, no poder. Os agentes regionais do FBI lutaram contra o impedimento que lhes foi imposto por parte de seus superiores hierárquicos, na tentativa de salvar o país do desastre iminente; os agentes da CIA que elaboraram o Presidential Daily Brief do dia 6 de agosto de 2001, cujo título era “Bin Laden determinou ataque dentro dos Estados Unidos”, desmentem o depoimento da então conselheira de Defesa Condoleezza Rice, compromissada sob juramento de dizer a verdade, diante da Comissão do Senado, que asseverou ser composto por informações “históricas” o conteúdo do documento, mantido em sigilo até hoje. Os jornais New York Times e Washington Post tiveram que declarar mea culpa por omissão diante das bravatas de Bush, em se tratando dos motivos para jogar os Estados Unidos em uma guerra inútil e cara, no Iraque – atoleiro similar à Guerra do Vietnã.

Concluo aqui a primeira parte da crítica à versão divulgada pela imprensa – parte teórica. A segunda será uma análise dos pontos distorcidos e esvaziados sobre os fatos polêmicos presentes na contextualização geral após a divulgação dos dez anos do atentado de 11 de Setembro. De antemão, indico que nada será abordado que possa ameaçar o que está estabelecido, nenhuma voz destoante para atrapalhar o canto da sereia perene do sistema.

Aldous Huxley disse: “Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados.” A ignorância e a mentira não suportam o peso do tempo. Giordano Bruno que o diga.

***

[Marcelo Csettkey é jornalista]

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